Arquivo mensal: janeiro 2011

Da universidade para a floresta: a necessidade do apoio técnico na missão entre indígenas do Brasil.

Rev. Norval, missionário tradutor da Bíblia da ALEM/APMT, ensinando histórias bíblicas.

André Filipe, Aefe!
conheça também:
http://www.alumi.org.br

Recentemente, o Departamento de Assuntos Indígenas (DAI) da Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB) publicou um relatório1 sobre as etnias indígenas brasileiras, revelando dados importantes para a missão da igreja nacional, lançando necessidades e desafios. Dentre os 7 desafios lançados pela equipe, o sétimo deve tocar fundo no coração do estudante universitário cristão, capacitado para servir a Deus com sua profissão; este desafio aponta para um modelo diferenciado de necessidade missionária, com uma direção diferente das encontradas normalmente em institutos bíblicos e seminários:
“Em diversas atividades missionárias há necessidade de apoio técnico especializado, essencial para a qualidade da produção. Podemos citar áreas como a linguística, antropologia, missiologia, pesquisa, desenvolvimento comunitário, ações sociais, consultoria jurírica, transporte, comunicação e logística. Sem um adequado fortalecimento no apoio especializado as ações missionárias entre os povos indígenas perderão força, qualidade e oportunidade (…) Tais iniciativas especializadas multiplicam as ações missionárias e são fundamentais para boa parte do trabalho realizado”2.
A pesquisa reconhece 616.000 indígenas vivendo em terrítório nacional (52% ainda vivem em aldeamentos), divididos em 340 etnias, e 181 línguas diferentes. O relatório ainda nos apresenta dados animadores a respeito da presença evangélica entre eles, mostrando que a igreja tem caminhando e feito a diferença: “a Igreja Indígena está em franco crescimento, o que se dá a partir das relações intertribais locais, atuação missionária com ênfase no discipulado e treinamento indígena e três fortes movimentos indígenas nacionais. A presença missionária coordena mais de duas centenas de programas e projetos sociais de relevância que minimizam o sofrimento em áreas críticas, sobretudo em educação e saúde, e valorizam a sociedade indígena local. O registro linguístico, associado à produção de material para letramento, é outro vigoroso fruto das iniciativas missionárias, que se envolvem especialmente com grupos à margem do cuidado e interesse da sociedade3”.
Atualmente, 182 destas etnias possuem presença missionária, sendo que 150 possuem Igreja Indígena, e apenas 17 não possuem pelo menos um programa social ativo. Os programas sociais coordenados por missionários evangélicos somam 257 programas sobretudo nas áreas de educação (análise linguística, registro, letramento, publicações locais e tradução), saúde (assistência básica, primeiros socorros e clínicas médicas), subsistência e sociocultural (valorização cultural, promoção da cidadania, mercado justo e inclusão social), em sua maioria “subsidiados por igrejas, empresas e representantes evangélicos no Brasil4”. A conclusão é animadora: “a presença missionária está, histórica e tradicionalmente, sempre associada a iniciativas sociais e culturais, especialmente àquelas com forte valor para o povo local4”, isso porque acreditamos que “o evangelho não apenas responde aos questionamentos da alma humana, como também contribui para a sobrevivência individual, social, cultural e linguística dos povos indígenas no Brasil5”.
Apesar de todo o esforço de igrejas, ministérios e missionários, ainda há pelo menos 190 etnias sem qualquer presença missionária: “chama a nossa atenção o alto número de etnias sem conhecimento do Evangelho em áreas relativamente abertas e sem iniciativas evangélicas e missionárias6”.  Além do mais, 69 línguas não possuem a Bíblia traduzida,  10 com clara necessidade de tradução e 28 com necessidade de projetos especiais de oralidade. Sem contar que o esforço de diminuir a pobreza bíblica envolve trabalhos não só de descrição linguística e tradução, mas também, concomitantemente, projetos de educação em língua materna, valorização cultural etc.
O desafio é enorme, um grande passo a ser dado por cada um de nós: “levando em consideração as ações especializadas bem como o trabalho administrativo, logístico e pastoral que tanto precedem quanto acompanham tais iniciativas, asseguradamente seriam necessárias no mínimo 500 novas unidades missionárias para fazer frente ao presente desafio total6”.
Toda esta necessidade tem como alvo não o enriquecimento de qualquer empresa, nem pode ser mensurada apenas por seus resultados sociais e de diminuição do sofrimento humano, mas a frota missionária tem cooperado para a promoção do conhecimento da Glória de Deus entre os indígenas no Brasil. Desafio você que está fazendo uma universidade ou curso técnico, ou que ainda está prestando vestibular, a considerar seriamente fazer parte de uma das 500 novas unidades missionárias que hoje rogamos a Deus. É possível que sua área não tenha sido citada aqui, justamente porque talvez só você possa saber como sua especialidade pode ser importante no campo missionário: desafio você a descobrir isso.
Se você caminha para o fim de seu curso, e Deus tem falado fortemente com você a respeito da vocação missionária, procure mais informações, entre em contato com uma agência missionária e converse com o pastor de sua igreja. O desafio lançado pode ser um avanço decisivo para alcançar o que falta da tarefa de evangelização nacional entre os indígenas, talvez porque pessoas como eu e você resolveram responder ao chamado de Deus.
__________
1Você pode baixar o relatório completo no site: http://www.indigena.org.br
2LIDÓRIO, Ronaldo (org). Indígenas do Brasil: etnias indígenas brasileiras, relatório 2010. (DAI-AMTB), 2010, pág. 16.
3Idem, pág. 03.
4Idem, pág. 08.
5Idem, pág. 12.
6Idem, pág. 15.

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Visão 2025 | O último grande surto de novas traduções da Bíblia

link: http://www.missaoalem.org.br/visao2025/

O plano é arrojado demais, difícil demais, dispendioso demais, urgente demais, bonito demais e acertado demais. Puxa! Que plano é esse? É o plano de pelo menos iniciar um programa para a tradução da Bíblia em todas as línguas que ainda não a possuem  até o ano 2025.

Elaborado pelos mais competentes lingüistas, antropólogos e missiólogos comprometidos com a ordem de evangelizar o mundo todo, o plano foi lançado em novembro de 2001 pela organização Tradutores da Bíblia Wycliffe Internacional (WBTI, em inglês).
O projeto conta com a adesão de várias organizações missionárias ao redor do mundo que já trabalham com a tradução da Bíblia para línguas nativas, inclusive com a brasileiríssima ALEM (Associação Lingüística Evangélica Missionária), com sede em Brasília. E espera obter o apoio de todas as denominações evangélicas de todos os continentes. Será um esforço realmente global. Além de recursos financeiros, o projeto dependerá de uma grande quantidade de novos missionários lingüistas.

Cartago e Alexandria
O missiólogo Wenceslao Calvo, da PROEL (Promotora Espanhola de Lingüística), tem um argumento muito forte a favor da intensificação do ministério de traduzir a Bíblia. É de ordem histórica. Lembra que, do segundo ao quinto século, a presença cristã no Norte da África era notável. Dali surgiram homens como Tertuliano, Cipriano, Agostinho, Orígenes, Atanásio e Cirilo. Em  Alexandria havia uma das maiores escolas teológicas dos primeiros séculos. A partir das invasões árabes, porém, a Igreja foi se enfraquecendo até quase morrer por completo. Hoje, todos os países acima do Saara, do oceano Atlântico ao mar Vermelho, exceto o Egito, são 100% muçulmanos. O que se encontra ali são nada mais do que vestígios do cristianismo. Embora o islamismo seja muito forte também no Egito, a situação desse país é bem menos sombria. A razão é que a Igreja da antiga Cartago, na atual Tunísia, era de opinião que os convertidos tinham a obrigação de aprender o grego e o latim para se tornarem cristãos.
Enquanto isso, a Igreja da antiga cidade de Alexandria, no Egito, providenciou a tradução das Escrituras na língua copta, logo no final do segundo século. Na região onde hoje se encontram Marrocos, Argélia, Tunísia e Líbia, sob a influência de Cartago, os cristãos não tinham a Bíblia em sua própria língua, o que não aconteceu no Egito, sob a influência de Alexandria. Além de dificultar em muito a evangelização, a ausência das Escrituras nas línguas nativas facilita a superficialidade religiosa e a penetração do paganismo e de seitas. Outro malefício é que os cristãos são impelidos a buscar símbolos religiosos em demasia (quadros e imagens), o que facilmente deteriora a fé original.

Processo histórico
A Visão 2025, nome oficial do atual esforço em favor da tradução da Bíblia para 3.000 línguas desprovidas da Palavra de Deus, não é um fato isolado. As duas mais notáveis e antigas traduções da Bíblia são as chamadas “Sep-tuaginta” e “Vulgata”. A primeira, para o grego,  teria sido feita por 70 estudiosos judeus em Alexandria, a pedido do rei Ptolomeu, do Egito. Os cinco primeiros livros da Bíblia foram colocados em circulação em 250 a.C. Talvez tenha sido a mais demorada versão bíblica, pois o trabalho só terminou ao longo dos 200 anos seguintes. A segunda, para o latim, foi feita por Jerônimo (347-420), a pedido do papa Dâmaso, e veio a lume em 404 d.C. Tornou-se a Bíblia oficial da Igreja católica a partir do Concílio de Trento (1545-1563).
Entre a Bíblia Latina de Jerônimo (347-420) e a Bíblia Inglesa de João Wycliffe (1330-1384) passaram-se dez séculos. Foi nessa ocasião que surgiu um novo surto de traduções das Sagradas Escrituras.
Para Wycliffe, conhecido como a Estrela d’Alva da Reforma, a Palavra de Deus era o único padrão de fé e a única fonte de autoridade. O reformador alemão Martinho Lutero, que nasceu 100 anos depois de Wycliffe, também reconhecia a autoridade da Bíblia e a necessidade de colocá-la nas mãos do povo. Por esta razão, traduziu as Escrituras para o alemão e colocou em circulação perto de 100.000 cópias, um êxito editorial extraordinário para a época. Nesse período, outras línguas européias foram agraciadas com a tradução da Bíblia em vernáculo.
O surto seguinte se deu no início do século 19, junto com o despertamento da consciência missionária a partir de William Carey (1761-1834), que promoveu a tradução das Escrituras para 45 línguas e dialetos da Índia e de outras partes da Ásia, das quais 35 nada tinham até então. Foi nessa ocasião que nasceram as diversas sociedades bíblicas, a começar com a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira (1804) e a Sociedade Bíblica Americana (1816). Essas sociedades produziram centenas de traduções das Escrituras e as colocaram em circulação.
Novo surto iniciou 113 anos depois da organização da primeira sociedade bíblica. O instrumento usado por Deus foi o colportor americano William Cameron Townsend (1896-1982), que foi tremendamente impactado na Guatemala, em 1917, com a idade de 21 anos. Ao oferecer uma Bíblia em espanhol a um indígena cakchiquel, este esbravejou: “Se o seu Deus é tão inteligente, por que Ele não fala a minha língua?” Townsend então enxergou e abraçou entusiasticamente o desafio de traduzir as Escrituras para as línguas nativas. Em 1929, 11 anos depois daquele choque, Towsend completou a tradução do Novo Testamento na língua cakchiquel. Mas não parou aí: em 1934 fundou aquilo que é hoje a maior organização missionária protestante de todo o mundo e talvez de todos os tempos: a Wycliffe Bible Translators (Tradutores da Bíblia Wycliffe) e seu irmão gêmeo, o Summer Institute of Linguistics (Instituto Lingüístico de Verão). O nome Wycliffe é uma homenagem a João Wycliffe, já mencionado.
Hoje a Wycliffe tem mais de 5.300 missionários de 60 diferentes nacionalidades que estão envolvidos com a tradução da Bíblia em mais de 70 países. Apesar da complexidade do trabalho, a cada 10 dias esses missionários lingüistas completam a tradução do Novo Testamento para uma língua. Em 1995, eles fizeram a dedicação do 400º Novo Testamento para uma das 800 línguas da Papua-Nova Guiné
O último surto. Não faz muito tempo o missionário hispânico Moisés Lopes visitou uma Igreja da tribo indígena mazahua no norte do México. A Igreja estava cheia. Todos falavam a língua nativa e dispunham de um Novo Testamento nessa língua. Não obstante, o pregador falou em espanhol e o líder do louvor, um nativo, dirigiu cânticos em espanhol. Só os avisos, no final do culto, foram dados na língua do povo. Acabada a reunião, Moisés perguntou ao pastor por que apenas os avisos foram em mazahua. Obteve a seguinte resposta: “É para a congregação entender”. Ora, se os crentes entendiam mal o espanhol, por que a leitura da Bíblia, o sermão e os cânticos não foram na língua nativa?
A diferença entre ler a Palavra de Deus na própria língua e ler em outra língua mesmo pouco ou muito conhecida, é explicada pelo pastor Pedro Samua, da tribo tzutujil, da Guatemala: “Uma coisa é molhar o pé na água do lago; outra é pular dentro dele e nadar à vontade. Assim é a leitura da Bíblia na minha língua e em espanhol. Quando leio em espanhol, eu apenas molho meus pés na graça de Deus. Quando leio em tzutujil, eu mergulho na Palavra e sou refrescado por ela.“
Um dos oradores da conferência Amsterdam 2000, Dela Adalevoh, declarou: “Onde não existe Escritura na língua do povo, a Igreja não cresce”.
O filósofo alemão Immanuel Kant, que morreu no ano em que foi organizada a Sociedade Bíblica Britânica (1804), escreveu que “a existência da Bíblia como livro para o povo é o maior benefício que a raça humana jamais recebeu. Todo intento de diminuir a sua importância é crime contra a humanidade”.
Por todas essas razões, o último grande surto de novas traduções das Escrituras Sagradas, conhecido pelo nome Visão 2025, é um plano arrojado demais, urgente demais, bonito demais e acertado demais. Merece todo o apoio de toda a Igreja sobre a face da terra!
Desafio mundial
Diz-se que os 6,1 bilhões de habitantes do planeta falam 7.148 línguas. A  Bíblia completa já foi traduzida para 366 línguas (cerca de 5,4% do total acima). O Novo Testamento já foi traduzido para 1.012 línguas (cerca de 15%). Pelo menos um livro da Bíblia já foi traduzido para outras 883 línguas (cerca de 13%). A soma desses três números revela que 2.261 línguas têm pelo menos uma porção das Escrituras traduzida (cerca de 33,6%).
Estima-se que há mais de  3.000 línguas com óbvia necessidade de tradução bíblica (44% das 7.148 línguas faladas hoje). A população que fala uma língua sem nenhum livro da Bíblia traduzido é de aproximadamente 250 milhões de pessoas (pouco mais de 4% dos 6,3 bilhões de habitantes).
A maior parte desses 3.000 grupos étnicos desprovidos da Palavra de Deus está na Ásia, especialmente na Índia, China, Nepal e Bangladesh. São 1.200 línguas. Depois vem a África Ocidental, a metade nos países que foram colonizados pela França e a outra metade na Nigéria. São pelo menos 1.000 línguas. Em terceiro lugar, vêm as ilhas do Pacífico, especialmente em Papua-Nova Guiné e na Indonésia. São 600 línguas. Por último vem o Oriente Médio, cuja religião predominante é o islamismo. São 150 línguas.
Papua-Nova Guiné é um caso muito especial. Embora a língua oficial desse país da Oceania seja o inglês (por causa da colonização britânica), ali se falam mais de 800 línguas. Trata-se de uma nação pequena em área (menor que a Bahia) e em população (1 milhão a menos que a população da cidade do Rio de Janeiro). Não obstante a tremenda confusão lingüística, Papua-Nova Guiné, bem ao norte da Austrália, é um dos países de maior porcentagem de cristãos: 33% de católicos e 65% de protestantes (98% ao todo).
No presente momento, os tradutores da Bíblia estão trabalhando com 1.500 traduções ao redor do globo. Se o ritmo presente for mantido, a tradução da Bíblia para as outras 3.000 línguas estará em processo somente no ano 2150! A Visão 2025 tem por objetivo reduzir esse tempo em pelo menos 125 anos. Assim, até o ano 2025, todas os povos que ainda não têm a Bíblia em sua língua terão pelo menos algumas traduções iniciadas na língua que lhes fala ao coração.
—  Wycliffe e SIL”

Curso de Linguística e Missiologia [CLM/ALEM]

Objetivo

Link: http://www.missaoalem.org.br/clm/cursos.html

O Curso de Linguística e Missiologia (CLM) tem como objetivo capacitar pessoas para aprenderem uma ou mais línguas, desenvolverem trabalhos nas áreas de linguística, antropologia, educação intercultural, tradução das Escrituras e evangelização em contexto transcultural.

Habilitações

O CLM é um treinamento específico que permite ao aluno desenvolver a habilidade de identificar-se com uma nova cultura e aprender novas línguas, inclusive aquelas nas quais ainda não existe sistema escrito.

O Curso é dividido em quatro Módulos:

Modulo Básico /Modulo Intermediário /Modulo do Campo /Modulo Avançado

Esses quatro módulos envolvem duas habilitações:

Habilitação em Análise Linguística e Tradução

– Destinada a pessoas que se sintam chamadas para trabalhar com análise de línguas e/ou tradução da Bíblia.

Habilitação em Educação e Linguística

– Destinada a pessoas que pretendam se envolver com atividades educacionais em contextos multiculturais e/ou que desejem aprender adequadamente uma nova língua.

Corpo docente

O corpo docente é formado por missionários e cooperadores nacionais e estrangeiros da ALEM, da SIL e de outras organizações parceiras. No geral, esses docentes possuem experiência ministerial, de campo, acadêmica, pedagógica e atuam em seu cotidiano nas disciplinas que ministram no CLM. Eles possuem graduação, mestrado ou doutorado nas áreas de antropologia, educação, linguística, missiologia, teologia e tradução.

Local e estrutura física

Os módulos básico, intermediário e avançado são ministrados no Centro de Treinamento da ALEM – CTA, na chácara 04 do Núcleo Habitacional Esperança, da Granja do Torto, em Brasília, próximo ao Parque Nacional de Brasília, região representativa da flora e fauna nativas do cerrado brasileiro.
A sede da ALEM dispõe de uma ampla biblioteca com mais de 6.000 volumes dentro das áreas de interesse de seu ministério, sala de aula equipada com recurso multimídia, sala de informática com acesso à internet, refeitório para 80 pessoas, alojamentos para casais e solteiros e campo de futebol.
O módulo de campo denominado de Acampamento de Treinamento Transcultural na Selva (ATTS) é realizado em uma ilha do rio Xingu, no estado do Pará, próximo a duas aldeias indígenas.

Duração do curso e carga horária

O CLM tem duração de 11 meses. As aulas têm início em janeiro e se encerram no mês de novembro. O CLM é intensivo, com aulas pela manhã, à tarde e à noite, de segunda a sexta-feira.

Custos

O custo total do CLM é de 22 salários mínimos (vigente) divididos em 11 parcelas, por pessoa. Esse valor cobre alimentação, hospedagem e material didático.

Pela natureza intensiva do curso, casais com filhos devem contratar uma babá e se responsabilizar pelo custo financeiro da contratação.

Trabalhos Gerais

O CLM não possui empregados. Por isso, há trabalhos que os alunos devem fazer para manter em ordem os espaços utilizados pelo curso, como limpeza de salas de aula, dormitórios, refeitório, banheiros etc. Além disso, devem preparar as refeições nos finais de semana.

Inscrições e Pré-requisitos

As inscrições iniciam em junho do ano anterior ao pretendido. Para ingressar no CLM, é necessário ter 18 anos de idade completos até a data do início do curso e ter concluído o ensino médio. Recomenda-se que o candidato tenha realizado um curso bíblico ou teológico. Para processar a inscrição, são necessários os seguintes documentos:
1) Ficha de inscrição preenchida;
2) Cópia do certificado de conclusão do Ensino Médio ou Superior;
3) Uma foto 3×4;
4) Cópia de Registro Geral (RG), frente e verso;
5) Carta de recomendação da Igreja atestando chamado missionário do candidato e, se for o caso, firmando seu compromisso quanto ao sustento financeiro de seu enviado;
6) Pagamento da taxa de inscrição

UniÁsia [Horizontes América Latina]

Link: http://www.mhorizontes.org.br/uniasia/Default.asp

“O projeto UNIASIA tem como objetivo, recrutar, treinar, enviar e apoiar um contingente de 120 jovens para atuarem no continente asiático, trabalhando na Evangelização dos povos não alcançados dessa região.

Os participantes terão a oportunidade de terem uma formação bíblica, missiológica/cultural, universitária (no exterior), língua inglesa, espanhola e uma língua asiática.

O projeto é de sete anos, sendo os dois primeiros divididos em:

• Seis meses no Brasil;

• Seis meses na América Latina (Língua Hispânica);

• Seis meses novamente no Brasil;

• Três meses em país de língua inglesa;

• Cinco anos restantes na Ásia;

Os participantes terão três áreas especificas de atuação na Ásia:

• Ministério entre estudantes;

• Tradução da Bíblia;

• Missão Empresarial;

Será um projeto de médio prazo – sete anos – de preparo e permanência entre os não-alcançados visando capacitar de forma integral obreiros de longo prazo para implantarem igrejas na Ásia (Janela 10-40).

Receberemos 120 candidatos a um custo de três salários mínimos mensais, sendo que no mínimo um salário da igreja local, pois o restante vai ser levantado com parcerias nacionais e internacionais.”

O verbo na alma da selva

Como (e por que) viver 25 anos isolado em aldeias, e preservar línguas em risco de extinção

por Branca Vianna |publicado originalmente da Revista Piauí, extraído de: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-4/questoes-linguisticas/o-verbo-na-alma-da-selva/ em 18/01/11

Para ir à aldeia do Roçado, toma-se um bimotor da Trip Linhas Aéreas no terminal de vôos regionais do Aeroporto Eduardo Gomes, em Manaus. O guichê da companhia parece uma barraquinha de quermesse e o ambiente é mais de rodoviária do que de aeroporto. Muitos passageiros embarcam num avião pela primeira vez. Depois de sobrevoar a floresta por duas horas, percorrendo 630 quilômetros, chega-se a Santa Isabel do Rio Negro, cidadezinha de 10 mil habitantes perto da fronteira entre Brasil, Colômbia e Venezuela.
Santa Isabel ainda não tem celular nem internet. Há muito comércio miúdo, todo mundo vendendo os mesmos alimentos, produtos de limpeza, chapéus de palha e os mesmos bonés. O desemprego é o grande problema da cidade: atinge 60% da população. Dos que têm emprego, a maioria trabalha na prefeitura. Há também vários botequins, muitos vira-latas, um hotel, o Maykon, e um restaurante, o da dona Lica.
A pessoa que se deve procurar em Santa Isabel é José Oliveira Aguiar, que atende por Zé da Mara, sua mulher, professora da escola municipal, Zé da Prefeitura, onde trabalha como motorista, e Zé do Açougue, estabelecimento que mantém em casa e no qual oferece poucas carnes, muitos biscoitos e muita tubaína. Zé também é o dono da voadeira, o barco de alumínio de 5 metros de comprimento que se toma para ir ao Roçado.
Um barco comum levaria três dias para fazer o trajeto de 280 quilômetros. De voadeira, são oito horas de viagem. Segue-se pelo rio Uneiuxi, sem passar por nenhuma cidade, aldeia ou sítio. Só há floresta. Numa dobra do rio, enfim se avista gente: no alto de um barranco de terra avermelhada estão quase todos os 150 índios da tribo nadëb. São os remanescentes de uma tribo bem maior, de cerca de 1.500 índios, dizimada ao longo do século passado por guerras com outros grupos indígenas, contato com os brancos e epidemias. A última grande epidemia, de sarampo, ocorreu na década de 60; deixou noventa sobreviventes.
O primeiro contato mais regular entre os nadëb e os brancos teve início nos anos 50, com os regatões, mercadores que percorriam os rios vendendo e trocando produtos. Os regatões trocavam a sorva extraída pelos índios por sal, anzóis, facas e, principalmente, cachaça. A sorva é um fruto da floresta amazônica cujo látex era usado na fabricação de goma de mascar e bolas de beisebol. Logo após a grande epidemia de sarampo, um americano conhecido só pelo primeiro nome, Bill, se apiedou dos últimos noventa nadëb, que apareciam sempre bêbados, doentes, pedindo esmola pelas cidades. Deu a eles uma terra de sua propriedade no rio Uneiuxi, conhecida como Roçado do Bill ou aldeia do Roçado. Hoje os nadëb têm uma reserva demarcada pela FUNAI.
As estimativas variam, mas imagina-se que, em 1500, na região amazônica, havia entre 2 milhões e 5 milhões de índios e mais de 1.200 línguas diferentes. A população indígena atual não passa de 400 mil pessoas. Das 180 línguas indígenas ainda faladas no Brasil, 115 têm menos de mil falantes. Apenas quatro são faladas por mais de 10 mil pessoas e nenhuma delas tem mais de 20 mil falantes.
O nadëb, da família lingüística maku, é falado quase exclusivamente pelos 150 moradores do Roçado. A única outra aldeia nadëb, no rio Japurá, tem 200 moradores que estão perdendo a língua nativa. Entre eles, o português já é o idioma dominante. O termo maku também é usado de forma pejorativa pela população ribeirinha para designar diversos grupos indígenas, entre os quais os nadëb. Os maku sofrem discriminação também por parte dos outros índios do Alto Rio Negro, que os consideram primitivos, ou “índios bravos”. Por serem considerados inferiores, não participam da rede de casamentos entre os índios da região. Os membros da aldeia do Roçado se casam somente entre si ou com seus parentes do Japurá.
No Roçado, além dos 150 índios, vivem dois brancos. Beatrice Senn é alta, tem cabelos cheios, pretos e lisos. No calor da Amazônia, usa sempre short, camiseta e sandália havaiana. Sua pele muito clara resiste bem ao sol tropical, embora ela não passe filtro solar. Não gosta da sensação melada dos protetores. Pelo mesmo motivo, também não usa repelentes contra insetos. Diz que já se acostumou com os mosquitos da região. Beatrice tem 43 anos e nasceu na Suíça, em Berna. Seu marido, Rodolfo, é argentino da província de Misiones. É neto de suíço-alemães que migraram para a Argentina antes da II Guerra Mundial. Com 45 anos, tem os cabelos espessos precocemente grisalhos, olhos azuis e pele também muito clara.
Os Senn vivem no Roçado há dez anos. Moram numa casa de madeira com teto de palha, sem luz e sem água corrente, construída pelos índios com a ajuda de Rodolfo, que, além de engenheiro mecânico, é carpinteiro. Foi ele quem ensinou os nadëb a cortar tábuas. É de tábuas que hoje são feitas quase todas as casas da aldeia. Antes, eram de galhos ou casca de árvores. Rodolfo tem artrose, doença degenerativa das articulações. Locomove-se pela aldeia de bicicleta porque tem dificuldade de andar distâncias maiores. Embora tome antiinflamatório todos os dias, às vezes a dor é tanta que ele precisa de uma injeção local de cortisona. Em Santa Isabel, não há quem aplique a injeção. É preciso ir a Porto Velho ou Manaus. “Dói muito, mas o hospital fica tão longe que o melhor é deitar na rede uns dias e esperar a dor passar. Por enquanto”, ele diz, “ainda consigo descer o barranco para buscar água no rio, mas logo a Beatrice vai ter que me substituir na tarefa.” Beatrice afirma que o exercício será bem-vindo. Ela gosta de correr para manter a forma, mas no meio da floresta é difícil. Como alternativa, nada no rio Uneiuxi, onde a correnteza é suave.
A casa dos Senn tem dois quartos, uma cozinha que serve também de sala de jantar e, entre os quartos e a cozinha, uma espécie de alpendre com uma rede sempre pendurada. A cozinha e o alpendre são abertos, para que todos possam ver o que se passa dentro da casa. Somente os quartos são fechados com portas. Os índios usam a rede do alpendre quando bem entendem. Alguns vêm todos os dias, por volta das 7 da manhã, para tomar um cafezinho e conversar um pouco. Os nadëb têm o hábito de visitar uns aos outros de manhã e a casa do casal faz parte do roteiro. São sempre os mesmos que aparecem: Pedro Borracha, o índio mais velho da aldeia, uma senhora bem velhinha sem um único dente na boca, um rapaz com ar meio aparvalhado, o cacique Joaquim e algumas crianças. Só o cacique fala português.
O casal tem três filhos: uma garota de 17 anos e dois rapazes, de 15 e 19. Os três foram criados entre índios. Ao completar 13 anos, partiram para estudar num colégio interno, a uma hora de voadeira de Manaus. É uma escola americana, na beira de um rio, que não tem luz elétrica e o gerador é desligado às 9 da noite. Os filhos dos Senn gostam da escola, dos nadëb e da aldeia, onde passam as férias. Sabem caçar, pescar, remar e manejar a voadeira. O mais velho, que já freqüenta uma universidade no Wisconsin, quer morar na Amazônia quando se formar, talvez trabalhando com índios. Teve grande dificuldade em se adaptar à vida nos Estados Unidos. Os irmãos falam inglês entre si e com os pais; falam nadëb fluentemente; espanhol e português, mal. Rodolfo e Beatrice também falam nadëb muito bem, além de português, espanhol, alemão e inglês, língua que usam entre si.
Os Senn dispõem de dois painéis solares que alimentam uma bateria de 12 volts, suficiente para uma lâmpada, e outra, mais potente, para a bateria de dois laptops. Como a casa não tem água corrente, o banho é no rio Uneiuxi, de manhã e no fim do dia, de roupa, com xampu e sabonete. O banheiro é uma cabana nos fundos da casa com um buraco no chão. Ao lado do papel higiênico, há sempre uma lata de inseticida. Os Senn dormem em redes e bebem a água do rio, filtrada. Pai e mãe já tiveram malária.
Rodolfo e Beatrice Senn são lingüistas da Sociedade Internacional de Lingüística, ou Summer Institute of Linguistics, com sede em Dallas, no Texas, e mais conhecida como SIL. Há mais de 5.000 membros da sociedade distribuídos por setenta países, estudando 1.800 línguas faladas por 1,2 bilhão de pessoas. A SIL está presente onde houver línguas ágrafas e povos que não conhecem a Bíblia. O objetivo da entidade é traduzir o Novo Testamento; sua ferramenta é a lingüística. A SIL foi criada por Cameron Townsend, um vendedor de Bíblias americano que, em 1919, numa viagem à Guatemala, se deu conta de que os guatemaltecos a quem tentava vender a mercadoria não sabiam falar espanhol, e muito menos ler. Em 1934, criou a sociedade. Townsend morreu em 1982.
A SIL não funda igrejas nem faz pregações. Seus membros são todos leigos. Quem quiser trabalhar como pastor é obrigado a se desligar da sociedade. A organização é cristã, evangélica e multidenominacional – segundo seus membros, todas as igrejas são bem-vindas. A maioria dos associados pertence às correntes históricas do protestantismo: batista, anglicana, metodista, luterana, presbiteriana. Rodolfo e Beatrice Senn são evangélicos que não pertencem a nenhuma igreja específica. Freqüentam a que estiver mais perto.
Os lingüistas da SIL são conhecidos no meio universitário, publicam seus trabalhos em periódicos e editoras acadêmicas de prestígio e colaboram com centros de pesquisas do mundo inteiro. Alguns pertencem à elite dos profissionais da área. O livro As Línguas Amazônicas, editado pela Universidade de Cambridge e referência no assunto, inclui seis lingüistas da SIL entre os doze autores. Também a Enciclopédia Internacional de Lingüística, da Universidade de Oxford, conta com vários membros da sociedade entre os colaboradores. No entanto, apesar da excelência acadêmica, eles não se vêem primordialmente como cientistas. Consideram que seu objetivo é, antes de tudo, espiritual.
A SIL chegou ao Brasil em 1956, a convite do antropólogo Darcy Ribeiro, para colaborar com pesquisas do Museu Nacional. Segundo registrou a antropóloga Artionka Capiberibe, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a instituição brasileira estabeleceu o convênio com a SIL “por julgar ser um meio apropriado de ter e manter o conhecimento sobre as centenas de línguas faladas pelos povos indígenas e profundamente desconhecidas até então. A figura do último falante foi um elemento central para assegurar a legitimidade e a permanência da missão no país”.
É comum a existência de um “último falante” nas línguas minoritárias. Quando uma comunidade indígena se torna bilíngüe, adotando, por exemplo, o português, os jovens são os primeiros a incorporar a segunda língua e, depois, passam a usá-la com os filhos. Apenas os mais velhos, em geral menos afeitos a mudanças, guardam memória da língua nativa e a usam no dia-a-dia. Ela vai se perdendo à medida que morrem os membros mais velhos da comunidade. Finalmente, restará um único falante que ainda se lembra da língua original, mas já não tem com quem falar.
O estudo de qualquer língua particular enriquece o conhecimento da linguagem humana como um todo, que é o objetivo final da lingüística. O desaparecimento de uma língua pode ser comparado à destruição de um último e único sítio arqueológico de um povo desconhecido. A informação se perde para sempre.
Na década de 50, não havia lingüistas brasileiros qualificados para fazer levantamento e análise de línguas indígenas. A SIL, por outro lado, dispunha não só de lingüistas treinados e experientes, mas de metodologia comprovada no trabalho com línguas indígenas, principalmente no México, país em que Darcy Ribeiro conhecera a sociedade. Na sua autobiografia, Confissões, ele relata: “Eu me interessei pelo instituto porque, tendo convivido muito com os índios, sofria vendo que muitos povos estão ameaçados de desaparecimento e quase nenhum tem sido bem estudado lingüisticamente ou tem sua língua bem escrita. Facilitei o ingresso do instituto no Brasil, a fim de que realizassem seu trabalho. O objetivo [da SIL] era tornar factível a tradução da Bíblia. Meu objetivo era salvar para os lingüistas do futuro, que provavelmente saberão estudá-las, as línguas como cristalizações do espírito humano, para aprendermos mais sobre os homens”.
A primeira sede da SIL no Brasil foi instalada no próprio Museu Nacional, na Quinta da Boavista, onde Joaquim Mattoso Câmara, um dos fundadores da moderna lingüística brasileira, criaria, em 1961, o Setor de Lingüística. Desse departamento sairia a primeira geração da lingüística indígena nacional, fortemente influenciada pelos trabalhos e metodologias da SIL. A professora Yonne Leite, do Museu Nacional, escreve num artigo que o relacionamento entre a SIL e Mattoso Câmara “transcorreu de modo muito tranqüilo. A união foi um sucesso”. Um dos mais importantes lingüistas da SIL e primeiro presidente da entidade, Kenneth Pike “fez conferências nas quais mostrava a excelência de sua metodologia, colhendo dados de uma língua ágrafa e oferecendo à platéia encantada, em uma hora, uma análise preliminar de sua fonologia, morfologia e sintaxe”. Em 1962, Darcy Ribeiro fundaria a Universidade de Brasília. Como primeiro reitor, firmou com a SIL um acordo semelhante ao que já existia no Rio de Janeiro.
A cooperação entre SIL, academia e governo durou trinta anos. Hoje não há qualquer ligação entre lingüistas missionários e acadêmicos no Brasil. O vínculo com a FUNAI também é precário. O convênio, assinado em 1968, foi cancelado em 1977. Hoje a presença de missionários nas aldeias depende fundamentalmente do relacionamento direto entre o missionário e o chefe do posto local da FUNAI.
Em 1971, a Universidade de Berna e o Conselho Mundial de Igrejas, organização ecumênica sediada na Suíça, organizaram uma conferência em Barbados, no Caribe, para discutir a situação dos povos indígenas na América Latina. Do encontro resultaria uma declaração assinada por alguns intelectuais latino-americanos – entre eles, Darcy Ribeiro. O documento afirmava o direito dos povos nativos à autodeterminação, condenava a atitude dos governos da região e o etnocentrismo das missões evangélicas. Em tempos de forte antiamericanismo, a Declaração de Barbados representou o início de um movimento antimissionário em toda a América Latina. No Brasil, os lingüistas da SIL continuariam a trabalhar com pesquisadores universitários até meados dos anos 80, mas de forma esporádica e sem acordos oficiais como o firmado com o Museu Nacional e a UnB.
A SIL e outras missões foram acusadas de espionagem e exploração ilegal de recursos minerais. Darcy Ribeiro resumiu assim as denúncias: “As esquerdas, em sua estupidez habitual, acham que os missionários são agentes da CIA. Bobagem. Se um espião tivesse que viver na selva com sua família por anos, junto a grupos indígenas, a CIA não recrutaria ninguém. Outros dizem que é para aprender dos índios onde há poços de petróleo e minérios. Também bobagem. Eles lá estão para preparar a chegada do Novo Cristo. Essa é a verdade, meio inverossímil, mas verdadeiríssima. E, do meu ponto de vista, lá estão para descrever línguas que de outro modo desapareceriam sem deixar nenhum registro”.
Para a professora Bruna Franchetto, “é inegável a presença determinante da SIL no Brasil.” Segundo ela, a associação monopolizou durante décadas a pesquisa e a formação lingüística. “A SIL produziu e acumulou conhecimentos científicos sobre as línguas, sem dúvida. Ao mesmo tempo, tentou evangelizar e interferiu desastrosamente nas culturas nativas. Esse gênero de missão se caracteriza por um curioso binômio: preservar a diversidade lingüística e aniquilar a diversidade cultural”.
Na aldeia nadëb, os Senn fazem o possível para preservar a vitalidade lingüística da comunidade. A distância entre a aldeia e qualquer cidade onde se fala português contribui muito para o sucesso da empreitada. Entre os 150 nadëb do Roçado, não mais de cinco falam o idioma. Para os missionários-lingüistas da SIL, a mensagem de Deus só pode ser plenamente compreendida na língua materna do crente. É vital que haja um texto escrito, de forma que a comunidade tenha acesso aos evangelhos independentemente da presença de missionários.
Nas palavras de Darcy Ribeiro: “A idéia básica de Tio Cam [Cameron Townsend, o fundador da SIL] é que Deus, meio sem juízo, da primeira vez pôs seu ovo num povinho de merda, que eram os judeus, quando podia tê-lo colocado entre os romanos, como imperador. O próximo Cristo, onde é que ele vai pôr? Não é impossível que seja entre os xavante ou os kayapó. Vai ser o diabo para que aquele novo Cristo retome a herança do anterior a fim de cumprir sua missão. Daí que a tarefa da SIL seja traduzir a santa bíblia em todas as línguas do mundo, para que, onde quer que caia o Messias, ele possa se informar de todas as coisas sagradas”.
A maioria das línguas indígenas é ágrafa, não existe na forma escrita. Para a SIL, o primeiro passo é, pois, a criação de um alfabeto, que registra graficamente os sons da fala. O alfabeto nadëb foi criado por Helen Weir, lingüista irlandesa que, em 1984, defendeu, na Unicamp, uma tese intitulada A Negação e Outros Tópicos da Gramática Nadëb. A tese de Weir foi uma das últimas de lingüistas da SIL apresentadas em universidades brasileiras.
Rodolfo e Beatrice Senn traduziram para o nadëb mais da metade do Novo Testamento. Para ajudá-los na tarefa, usam um software da SIL chamado Translator’s Workplace, com 47 Bíblias em várias línguas européias, material exegético, comentários de teólogos, glossários, dicionários e os manuais de um curso de aprendizagem de línguas nativas para missionários. “Tenho uma biblioteca inteira no meu laptop”, diz Rodolfo.
O casal criou uma escola nadëb para a qual treinou professores indígenas. Quase todas as crianças e jovens da tribo lêem e escrevem na língua. Muitos adultos também se alfabetizaram. Em 2005, a prefeitura de Santa Isabel estendeu o ensino municipal até a aldeia. Mandou para lá três professores que moram durante oito meses no Roçado, voltando para a cidade somente uma vez, nas férias de julho. Ensinam matemática, geografia e português e acham que seu trabalho foi facilitado pelo fato de as crianças já serem alfabetizadas na própria língua.
Os Senn lamentam a chegada da escola municipal. Acreditam que será um incentivo para que aos poucos a língua nativa seja abandonada. Na escola nadëb, Beatrice passou a ensinar o que chama de conscientização lingüística. “Quero mostrar a eles que o nadëb é uma língua tão rica e bonita quanto o português, que a língua deles também tem gramática, fonologia, um léxico variado e poderoso. Quando os nadëb começaram a estudar português, acharam que só nessa língua havia tempos verbais, substantivos e pronomes. E isso os fez pensar que o português era uma língua melhor do que a deles.”
A sentença de morte de uma língua minoritária é decretada quando a língua majoritária se torna sinal de prestígio na comunidade. Foi o que aconteceu com o mamaindé, língua falada por 170 índios na fronteira entre Mato Grosso e Rondônia. Dave Eberhard é um fonólogo da SIL que trabalha com a tribo. Ele conta que os mamaindé ganharam um caminhão da prefeitura de Vilhena, a cidade mais próxima da aldeia. Passaram a ir freqüentemente à cidade, que fica a duas horas pela estrada recém-construída. Com o dinheiro da aposentadoria, concedida pelo INSS a todos os índios idosos, compraram celulares. Como não costumam ter crédito nem têm para quem ligar, usam o celular principalmente para telefonar a cobrar para Eberhard em Cuiabá, na chácara da SIL onde ele mora. Na aldeia há um gerador e uma única tomada – os índios fazem fila para carregar seus telefones. As meninas já vestem minissaia para ir à cidade. Ninguém mais quer falar mamaindé, muito menos aprender a ler. O português é a língua de prestígio na aldeia. Por falta de leitores, Eberhard foi obrigado a abandonar a tradução da Bíblia, trabalho a que vinha se dedicando por dezessete anos.
O Brasil é um dos únicos países onde a SIL ainda usa a abordagem tradicional de um missionário que se muda para a aldeia, passa quatro ou cinco anos aprendendo a língua e mais vinte fazendo a tradução. Os Senn acreditam que precisarão de mais doze anos para completar a tradução do Novo Testamento. Serão, portanto, 22 anos no total. Quando a Bíblia em nadëb estiver pronta, o casal pretende se aposentar e morar na Argentina.
Na África, o trabalho de tradução da Bíblia é muito mais rápido, pois há falantes nativos com diploma de curso superior e mesmo com pós-graduação. A SIL entra com o treinamento em lingüística e os próprios falantes se encarregam das traduções. Além disso, há um contingente muito maior de falantes por língua. A língua indígena brasileira com maior número de falantes, o tikuna, com quase 20 mil, seria considerada uma língua em extinção na África. Ali, há línguas minoritárias com um milhão de falantes. A tradução do Novo Testamento para uma língua africana fica pronta em três anos. No Brasil, o prazo habitual é de 25 anos.
Rose Dobson, hoje consultora da SIL, levou 32 anos até completar sua tradução da Bíblia para o kayabi, língua que na época tinha somente 66 falantes. Dobson chegou ao Brasil em 1968. Nos primeiros tempos depois de se instalar na aldeia, os índios lhe ensinaram tudo errado. Viam que ela anotava cada palavra que diziam e desconfiaram que sua intenção era roubar a língua. Decidiram então confundi-la: se ela perguntava como se dizia caçar em kayabi, ensinavam-lhe a palavra para subir; se queria saber como se dizia comer tapioca, ensinavam-lhe as palavras para as cores. A missionária só descobriu o artifício depois de dois anos, quando viu que a língua que estava aprendendo não fazia sentido. Até então, nenhum lingüista – acadêmico ou missionário – havia estudado kayabi.
Os critérios da SIL para a escolha de uma língua são a ausência de tradução da Bíblia, o grau de bilingüismo e o número de falantes, nessa ordem. “Se houver uma comunidade de cinqüenta pessoas ainda monolíngües, e se pudermos ajudá-las, vale mais a pena para a SIL do que uma comunidade de duas mil pessoas que já falem português. Bíblias em português existem muitas”, explica Eberhard.
A tribo kayabi tem hoje mais de oitocentos membros. Está crescendo, como a maioria das tribos indígenas no Brasil. Paradoxalmente, à medida que as tribos crescem, desaparecem as línguas. As populações indígenas hoje costumam ter acesso a médicos, agentes de saúde, professores, vacinação, aposentadoria, auxílio-gestante. Esses benefícios, ao mesmo tempo em que prolongam a expectativa de vida, intensificam o contato com os brancos das cidades – e acabam aumentando os riscos de desaparecimento da cultura e da língua nativas.
O mamaindé, língua estudada pelo fonólogo Eberhard, faz parte da família lingüística nambikuara, cujas línguas são tonais, como o mandarim. Nessas línguas, o tom em que uma palavra é falada tem função contrastiva. Em mandarim, se pronunciada em tom neutro a palavra ma significa mãe; em tom descendente-ascendente, significa cavalo. Em mamaindé, a palavra loani pode significar rato ou folha de buriti, dependendo do tom.
Só há no Brasil duas línguas tonais que não pertencem à família nambikuara: o pirahã e o munduruku. O pirahã, falado por uma tribo da Amazônia composta de 300 membros, também foi estudado por um lingüista da SIL, Daniel Everett, hoje desligado da sociedade e professor da Universidade de Manchester. Segundo Everett, no pirahã não existem palavras para cores e números e não há nenhum sistema de contagem. Tampouco há palavras para quantidades, como cada, todo, muito e pouco. O sistema pronominal – aparentemente emprestado de outra língua – é o mais simples já registrado entre as línguas conhecidas. Existem apenas oito consoantes e três vogais. Não há orações subordinadas. Em pirahã, o falante só pode se referir a pessoas ou objetos presentes fisicamente diante dele ou a eventos que tenha presenciado. O povo parece não ter mitos de criação ou lendas e, apesar dos mais de duzentos anos de contato com comerciantes brasileiros, nenhum pirahã jamais aprendeu português. Os pirahã se comunicam igualmente por assobios e melodias.
Everett argumenta que a cultura da tribo restringe a sintaxe da língua e a capacidade cognitiva do povo. Segundo afirma, os pirahã “vivem no aqui e agora e toda a comunicação é feita através da experiência imediata dos falantes”; assim sendo, eles não precisariam de determinados recursos lingüísticos disponíveis nas outras línguas. Essa tese provocou um debate acirrado – ainda não resolvido – entre lingüistas do mundo todo. A razão é um truísmo da teoria lingüística segundo o qual certas propriedades estão presentes em todas as línguas, sem exceção, sendo elas que, em parte, diferenciam a linguagem humana de outros sistemas de comunicação, como a linguagem das baleias ou os sinais de trânsito. As línguas variam enormemente entre si, em vocabulário, sintaxe, fonologia etc., mas em todas elas é possível, por exemplo, remeter a contextos diferentes, no tempo e no espaço, da situação imediata do falante, ou referir-se a todos os elementos de um conjunto, como no pronome todos.
Essas e outras propriedades seriam inerentes à linguagem humana; logo, estariam presentes em todas as línguas naturais, não importa o grau de complexidade da cultura, não importa se os falantes conhecem ou não ciência, se têm ou se não têm matemática, escrita ou arte. O próprio Everett, cuja competência como lingüista não é contestada nem por seus oponentes, diz que hesitou anos antes de publicar seus achados. Se confirmadas, as conclusões a que chegou exigiriam uma revisão radical de conceitos fundamentais da lingüística moderna. Como lingüistas da SIL, Everett e sua mulher viveram quase vinte anos entre os pirahã. Ninguém os conhece melhor, ninguém conviveu tanto tempo com a tribo, o que torna as declarações ainda mais polêmicas. Não há nenhum lingüista com conhecimento suficiente para refutar, confirmar ou reproduzir os dados apresentados por Everett.
Os candidatos a lingüista-missionário da SIL passam por um treinamento básico de três semestres, um deles em nível de graduação e dois em nível de pós-graduação. O curso cobre as principais áreas da lingüística: fonologia, sintaxe, semântica e pragmática. Os alunos estudam também desenvolvimento de escrita para línguas orais, noções de antropologia, relações interculturais e fenomenologia das religiões. A partir daí, os que demonstram interesse maior pela lingüística partem para estudos acadêmicos na área. A bibliografia da SIL lista 1.600 monografias e 533 teses publicadas, além de mais de 8.000 artigos. Inclui também 8.200 livros e manuais de línguas. Há 450 traduções completas do Novo Testamento.
À parte as aulas teóricas, há um treinamento de sobrevivência na selva que dura três meses, incluído aí um estágio de trinta dias em alguma parte remota do continente de trabalho. Quando o destino final é uma região de conflito, como as florestas da Colômbia ou certos países africanos, há treinos que ensinam a lidar com guerrilheiros e milícias rebeldes. Aprende-se a fugir, caso haja captura. Há também preocupação com questões mais amenas. A SIL publica o livro Jungle Camp Cookbook, com orientações sobre como cozinhar sem leite, farinha de trigo, ovos, apetrechos de medição ou panelas, substituindo-os por ingredientes e utensílios locais.
A sociedade é proprietária de duas chácaras no Brasil, uma em Cuiabá, outra em Porto Velho. Alguns missionários moram nas chácaras, outros alternam entre as chácaras e as aldeias, outros moram somente nas aldeias. Cada missionário faz um arranjo próprio e é responsável pelo seu financiamento. A SIL recolhe dízimo para custear a administração dos trabalhos. Os fundos vêm da doação de amigos, família e igrejas. A associação elabora uma estimativa do montante que o missionário precisa angariar, levando em conta a região de destino e o número de filhos. As doações são para a família, não para cada membro do casal, e dependem da capacidade de arrecadação de cada missionário. Assim, não há relação hierárquica entre a função exercida na entidade – lingüista, secretário, diretor, piloto de selva, educador, tradutor, contador – e a soma em dinheiro de que o associado pode dispor. A cada quatro anos em campo, a família passa um ano no país de origem, buscando doações para os quatro anos seguintes.
Desde o início do trabalho com os nadëb, Rodolfo e Beatrice Senn recebem contribuições do mesmo grupo de 25 pessoas e igrejas. Isso lhes permite permanecer no Brasil por mais tempo, sem precisar sair de quatro em quatro anos para buscar doações. A família costuma tirar férias uma vez por ano para visitar a Argentina. Viagens à Suíça, só a cada seis anos, por seis semanas. Os filhos não gostam muito, não têm amigos lá. Estranham o clima e o estilo de vida dos parentes maternos em Berna e preferem a casa do avô paterno, numa zona rural remota no norte da Argentina. Beatrice diz que a única coisa de que sente falta são as montanhas de seu país natal; tem uma fotografia do imponente Matterhorn no quarto de dormir.
A sede européia da entidade mantenedora da SIL – a Wycliffe Bible Translators, também fundada por Cameron Townsend – fica a uma hora de trem de Londres, nos arredores da cidadezinha de High Wycombe, em meio à paisagem de colinas verdes, bosques e campos cultivados. Foi construída para abrigar crianças londrinas que fugiam dos bombardeios alemães durante a II Guerra Mundial. Hoje é usada para treinamento de lingüistas missionários. Na propriedade há alojamentos, salas de aula, biblioteca, dois refeitórios, salas de computador e projeção, além de piscina e quadra de esportes.
Robert Dooley, lingüista da SIL e autor do verbete sobre o guarani da Enciclopédia Internacional de Lingüística, tem 62 anos. É alto e magro, com bigode escovinha branco, cabelos grisalhos lisos, sobrancelhas cheias e também grisalhas. Fala manso, num português com forte sotaque americano. Estava em High Wycombe para dar aulas de análise do discurso a um grupo de tradutores da Bíblia, missionários europeus que trabalham com línguas minoritárias do Senegal.
Em 1973, com 29 anos, Ph.D. em matemática e recém-casado, Dooley queria ser missionário. “Na época, a única coisa que eu sabia fazer era matemática, nunca havia trabalhado com mais nada”, lembra. “Tentei achar uma missão que tivesse lugar para mim, mas não encontrei. Eu era bom matemático e gostava muito do meu trabalho. Queria usar minhas habilidades a serviço do Senhor.” Um dia, Dooley foi a uma palestra sobre tradução da Bíblia para línguas minoritárias. Recebeu ali um folheto da Wycliffe intitulado Matemáticos cristãos, onde estão vocês? Falava da relação entre lingüística e matemática. Explicava que matemáticos poderiam ser muito úteis em determinadas áreas da lingüística, ajudando a analisar as propriedades formais de línguas que ainda não tinham a Bíblia. Fora escrito por Ivan Lowe, físico de Cambridge e um dos lingüistas que trabalhavam com Mattoso Câmara e Darcy Ribeiro no Museu Nacional.
Dooley considerou o folheto um chamado de Deus. “Comecei a me perguntar o que valia mais: meus planos para a minha vida ou levar as escrituras a quem ainda não as tinha? Pesando uma vida contra muitas, não demorei muito a me decidir.” Já sua mulher, Kathie, não estava tão segura. Precisou ser convencida. Não se imaginava passando a vida na floresta, longe de tudo. Ambos haviam sido criados na cidade, sem muito contato com a natureza. Ele é de Oklahoma, ela é do Texas. Nenhum dos dois conhecia a América Latina.
Kathie Dooley diz que Deus a fez lembrar-se de certas experiências que tivera na infância, com as galinhas da avó e em passeios no bosque quando era bandeirante. Se eram memórias agradáveis, pensou, talvez fosse um sinal de que seria possível adaptar-se à vida no interior do Brasil. Mas ela continuava preocupada com a idéia de criar os filhos – o primeiro era ainda bebê – no meio da floresta, num país estranho. Outro problema era sua hipoglicemia, condição que dificulta a vida longe de atendimento médico. “Esses aspectos práticos nem tinham me passado pela cabeça”, comenta o marido. “Eu só estava pensando na lingüística.”
Apesar das reservas, os Dooley resolveram fazer o curso da SIL e foram aceitos. A sociedade só decide se aceita um candidato a missionário depois da conclusão do curso. É preciso mostrar aptidão para línguas, lingüística e tradução ou alfabetização, além de resistência física, testada no treinamento de selva. Os Dooley fizeram parte do último grupo a treinar em Chiapas, no México. Logo depois a guerrilha inviabilizou o trabalho na região.
Ao longo da formação, que se estende por quase dois anos, Kathie se curou da hipoglicemia. O casal considerou que era mais um sinal de Deus e veio para o Brasil, onde recebeu a missão a que ambos, dali em diante, dedicariam toda a carreira: traduzir a Bíblia para o guarani. Instalados no interior do Paraná, viveram os primeiros dez anos sem luz e sem água corrente. Ao contrário dos Senn, não tinham um rio por perto para banhos ou como fonte de água. Usavam água de um poço. Um dia, descobriram que ele estava sendo usado por outras pessoas, gente que tomava banho ali. Os dois pegaram hepatite. Ela estava grávida da segunda filha, Liz, que nasceria em Brasília. O trabalho de tradução levou 29 anos. O resultado é um dos raros exemplos em que a Bíblia inteira – novo e antigo testamentos – ganhou versão em língua nativa.
Traduzir qualquer obra ocidental para línguas de cultura tão radicalmente diferente é tarefa árdua. Como fazer que referências bíblicas a objetos, lugares e costumes ganhem sentido para quem nunca viu ou ouviu falar em hebreus, procônsules e camelos que passam, ou não, pelo buraco de uma agulha? A idéia de dízimo também é de difícil tradução, antes de tudo porque as línguas indígenas raramente têm palavras para todos os números. O mais comum é haver apenas palavras para um, dois e três – três sendo também usado para significar muitos. O nadëb tem palavras que servem para números até vinte, desde que complementadas com gestos para indicar os dedos das mãos e dos pés, o que não é viável num texto escrito.
Uma solução possível é adaptar as metáforas da Bíblia à cultura local – por exemplo, trocando camelo por anta. Afinal, antas também não passam pelo buraco de uma agulha. Ocorre que, para os missionários, a Bíblia não é apenas um texto sagrado. É também historicamente correto. Se lá está dito que Jesus entrou em determinada cidade pela porta, é exatamente o que a tradução dirá, pois não se pode reinterpretar um fato histórico. Mas como explicar em guarani ou nadëb o conceito de cidade murada?
É para contornar esses problemas que os lingüistas da SIL fazem uso do que chamam de analogia redentora. Isso significa empregar um conceito ou crença da cultura nativa para explicar – e às vezes até traduzir – um conceito bíblico. Os mamaindé, por exemplo, acreditam que depois da morte o espírito segue por uma estrada muito larga, no fim da qual está o espírito do jacaré, que engole o do índio. Mas há uma outra estrada, estreita, onde existe uma porta escondida, difícil de encontrar. Essa estrada leva à Casa dos Bons Espíritos. Ali o mamaindé viverá feliz. Para encontrar a porta oculta, é preciso contar com a ajuda dos espíritos dos antepassados. Quando morre um mamaindé, o pajé canta para alertá-los de que alguém está chegando. Os antepassados, entretanto, nem sempre querem ajudar. Às vezes aparecem, às vezes não. Se não gostavam do morto ou de sua família, não ajudarão. Se eram preguiçosos em vida, serão também na morte e não comparecerão ao encontro. Se estiverem dormindo, não ouvirão o canto do pajé e também não vão aparecer. Eberhard, o fonólogo especialista em mamaindé, usou essa crença para introduzir a idéia de Jesus como um espírito bom, que nunca dorme nem tem preguiça. Jesus garantiria a vida eterna – possibilidade não prevista na mitologia mamaindé. “Não pretendo convencer os índios a se converter ao cristianismo. Quero oferecer a eles a opção de Jesus e deixar que eles decidam.”
Os mamaindé ainda não se decidiram. Segundo Eberhard, a tribo não pode ser considerada cristã, apesar dos quase vinte anos de trabalho da SIL. “Os mamaindé incorporaram Jesus à sua religião como um espírito bom, mas ainda não têm uma hierarquia em que haveria um único Deus ou um espírito criador de tudo, inclusive dos outros espíritos”, diz ele.
Na mesma situação parecem estar os guarani, que, para Robert Dooley, “têm uma cultura muito independente, tolerante, com respeito pelas opiniões divergentes. Poucos deles são cristãos, no sentido de pertencer a uma igreja estabelecida. Há muitos que foram batizados na igreja católica, mas não praticam a religião”.
Ernesto Morgado Belo, antropólogo brasileiro vinculado ao Laboratório de Etnologia e Sociologia Comparativa da Universidade Paris X, explica que os índios brasileiros em geral não desenvolveram o que se poderia chamar de religião estruturada: “Eles não têm religião. Têm cultura”. Essa cultura é formada de crenças, lendas, mitos e hábitos a que muitas vezes se incorporam as crenças, lendas, mitos e hábitos de outros grupos indígenas, assim como dos brancos. É um processo que vem ocorrendo desde as missões católicas do século XVI. “Não é como se os evangélicos entrassem num vilarejo muçulmano, onde haveria um choque entre sistemas fechados. Os índios brasileiros incorporam as novidades e as interpretam de acordo com sua própria cultura. Os missionários percebem que o grande obstáculo à evangelização não é propriamente a religião indígena, mas a cultura. Antes da conversão religiosa, há toda uma conversão civilizatória.” Morgado Belo, que viveu entre os nadëb do Roçado, afirma que, “nas cartilhas preparadas pela SIL para alfabetização dos nadëb, constata-se claramente essa tentativa. Há uma ênfase nos valores da família, do asseio, da monogamia, da sobriedade. A mulher indígena aparece varrendo a casa, coisa que os maku nunca fizeram. Fala-se muito do valor do trabalho, da idéia de que nada vem de graça.”
Os nadëb, à diferença dos mamaindé e dos guarani, são cristãos. Pertencem a uma igreja estabelecida por eles próprios, têm cultos na língua nativa várias vezes por semana, com ou sem a presença dos missionários. Oram e lêem a Bíblia em nadëb. Cantam hinos de louvor a Jesus, com letras que compuseram para as melodias tradicionais. Para Joaquim, o cacique, ser crente significa “não beber, não matar o inimigo, não casar com várias mulheres, viver em paz”.
A aldeia nadëb é próspera, organizada, limpa. A tribo goza de excelente reputação em Santa Isabel. Mara, mulher do Zé da voadeira, diz: “O cacique Joaquim é muito benquisto aqui. Quando os nadëb vêm à cidade, não pedem esmola, não tomam cachaça, não brigam. Trazem coisas para vender e se sustentam sozinhos. São muito diferentes dos outros índios que moram na região.” Quando os Senn chegaram ao Roçado, em 1996, já havia trinta anos de presença esporádica da SIL. Ainda assim, só Joaquim e dona Francisca, sua parente, diziam-se cristãos. Ambos haviam passado parte da infância em Santa Isabel, como filhos de criação de uma família de brancos.
Em 2000, dona Francisca mandou a filha estudar em Santa Isabel. Aos 13 anos, Socorro engravidou de um rapaz da cidade. Quando foi ao médico, descobriu que tinha câncer em estado avançado. Rodolfo e Beatrice a levaram para o hospital em Porto Velho. A menina sofreu uma operação de urgência e perdeu o bebê. Teve um dos ovários retirado. Sua mãe, que a acompanhara a Porto Velho, foi avisada pelos médicos de que havia pouco a fazer. Apesar da cirurgia e do tratamento quimioterápico, ela provavelmente morreria.
Um dia, ainda na cama do hospital, Socorro sentiu uma presença a seu lado. Estava de olhos fechados. Alguém pegou na sua mão e lhe disse em nadëb: “Não se preocupe, Socorro, você vai ficar boa”. A menina pensou: “E não é que é verdade mesmo? Jesus existe!”. Chamou a mãe, contou o ocorrido e a consolou. Depois de meses de tratamento, Socorro se curou. Os médicos a advertiram, no entanto, de que nunca poderia ter filhos. O relato da visão milagrosa se espalhou pela aldeia; a cura foi atribuída a Jesus, apesar da cirurgia e dos meses de quimioterapia no hospital em Porto Velho. Aos poucos, os outros índios nadëb foram se convertendo. O impulso final para a conversão foi a gravidez de Socorro. Contrariando o que ouvira dos médicos, há dois anos ela teve um bebê, Felipe.
Os nadëb decidiram, então, construir uma igreja nos moldes da casa de rituais de suas tradições, conforme alguns índios mais velhos ainda se lembravam. É uma oca redonda, com teto de palha. Onde habitualmente haveria uma cruz, há uma televisão com DVD. Há bancos toscos, feitos na aldeia. O culto acontece três ou quatro vezes por semana, um deles sempre aos domingos, às 7 e meia da manhã. Os Senn participam do culto apenas como assistentes. O cacique Joaquim e seu ajudante, Eduardo, irmão de Socorro, são os oficiantes. Os índios cantam, ouvem os sermões, entram e saem constantemente da igreja durante o culto, que dura pouco mais de uma hora. Muitos acompanham lendo a tradução dos evangelhos, encadernada em espiral com capa de plástico.
A televisão e o DVD são para passar os filmes da SIL. São três: a história de Jesus, a vida do profeta Jeremias e um filme de natureza, sobre baleias e golfinhos. O “filme de Jesus”, como é chamado pelos missionários, é traduzido e dublado para todas as línguas nativas com que a SIL trabalha. Uma equipe volante de dublagem passa duas semanas em cada aldeia e grava os membros da tribo lendo ou repetindo as falas na língua nativa – no caso, o resultado é que Jesus ressuscita Lázaro em nadëb. A tribo têm um gerador, que é ligado quando eles querem assistir aos filmes ou quando há transmissão de jogos de futebol, vistos em outra televisão, em outra parte da aldeia. Depois do culto de domingo, todos se reúnem no campo para jogar bola. Há pouco tempo, os nadëb ganharam um torneio indígena organizado pelo cacique Joaquim.
Das quase sete mil línguas faladas hoje no mundo, apenas 10% resistirão até o século XXII. No Brasil, desde a conquista, perderam-se 85% das línguas. Segundo Bruna Franchetto, “não há dúvida quanto às conseqüências da agonia e do desaparecimento de uma língua com relação à perda da saúde intelectual do seu povo, das tradições orais, de formas artísticas, de conhecimentos, de perspectivas ontológicas e cosmológicas”. Preservar a língua é uma maneira de garantir a sobrevivência da cultura, pelo menos em certos aspectos. É uma corrida contra o tempo na qual a SIL desempenha um papel importante, apesar das críticas que lhe são feitas por estudiosos brasileiros, com maior ou menor justiça.
Como parte de seu empenho em preservar línguas, a SIL criou o maior catálogo lingüístico do mundo, o Ethnologue, que arrola “todas as 6.912 línguas vivas”. O material está na Internet e é aberto ao público. Pode ser copiado de graça para fins de pesquisa e ensino, sem necessidade de autorização; apenas o uso comercial é controlado. A cada quatro anos, é atualizado e impresso. O segundo maior catálogo de línguas do mundo foi elaborado pela Unesco – é o Livro Vermelho das Línguas Ameaçadas. A abrangência dos dois não se compara; nos arquivos da Unesco, não há nem sequer uma seção para línguas indígenas do Brasil ou da América do Norte.
Reconhecendo o trabalho da SIL, a ISO, Organização Internacional de Normatização, decidiu em 2005 adotar os códigos do Ethnologue como referência para línguas vivas. A norma resultante é a ISO 639-3, que atribui à instituição a responsabilidade de administrar o padrão ISO de referência lingüística, supervisionando “a inclusão de novos códigos de línguas [leia-se: novas descobertas] e a combinação ou remoção dos códigos existentes”. Em outras palavras, a SIL decide o que é língua, o que é dialeto, qual língua está extinta, qual pode ainda ser considerada língua viva. Cada língua, incluindo o nadëb, o mamaindé, o pirahã, o kayabi e o guarani, receberá um código de três letras, para referência internacional e acesso a dados de descrição e análise lingüística. Assim, quando chegar o século XXII, os falantes das últimas 691 línguas poderão ao menos estudar, e quem sabe até aprender, as outras 6.221 que já terão desaparecido. Será possível saber que, em nadëb, P’ooj ub, sahõnh hå ta du dahäng noo gó m’, sahõnh badäk hahþþh P’op Hagä Doo pahunh quer dizer “No princípio Deus criou os céus e a terra. A terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo, mas o Espírito de Deus pairava sobre as águas” (Genesis 1:1).

Departamento de Assuntos Indígenas – AMTB

Link: http://www.indigena.org.br/v1/

O DAI – Departamento de Assuntos Indígenas da AMTB, responde pelas questões referentes aos esforços missionários junto às etnias indígenas brasileiras identificadas e reconhecidas pelo próprio DAI. Fomenta a interação entre as agências missionárias filiadas e atua em sintonia com a Igreja Evangélica Brasileira e em parceria com o CONPLEI – Conselho Nacional de Pastores e Líderes Evangélicos Indígenas.

A AMTB – Associação de Missões Transculturais Brasileiras representa agências, juntas missionárias e organizações evangélicas que realizam ou apóiam iniciativas transculturais visando colaborar com suas atividades. Das 41 agências atualmente filiadas à AMTB, 14 se envolvem direta ou indiretamente com a causa missionária indígena.

Entre as atribuições do DAI-AMTB estão:

  • Fomentar a aproximação e relacionamento entre as agências missionárias e igrejas que se envolvem com a causa missionária indígena, e mantê-las informadas a respeito dos andamentos das ações missionárias juntos aos indígenas brasileiros.
  • Responder junto aos órgãos governamentais e à opinião pública em geral a respeito dos assuntos relativos à obra missionária indígena.
  • Promover e orientar discussões para o desenvolvimento de abordagens e iniciativas junto às etnias indígenas brasileiras.
  • Manter um Banco de Dados atualizado com informações relevantes sobre as etnias indígenas brasileiras.
  • Promover o Forum Indígena bianual, reunindo os representantes das agências, missionários, líderes indígenas e outros interessados no trabalho missionário indígena, para comunhão, troca de experiências, edificação mútua e discussões a respeito dos temas comuns.

A diretoria do DAI – AMTB é composta pelo diretor, vice-diretor, coordenador de pesquisas e coordenador de comunicação.

SBB – Sociedade Bíblica do Brasil

Link: http://www.sbb.org.br/default.asp
“Com o final da II Grande Guerra, em 1945, um clima de otimismo e esperança se espalhou pelo mundo. No Brasil, também houve um cenário favorável ao crescimento da distribuição da Bíblia.

É nesse período que surge a Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), uma entidade criada por destacados líderes cristãos. Com o lema “Dar a Bíblia à Pátria”, a SBB é fundada em 10 de junho de 1948, no Rio de Janeiro. A partir de então, assume as atividades de tradução, produção e distribuição da Bíblia em todo o território brasileiro.

A SBB é uma entidade nacional, que faz parte das Sociedades Bíblicas Unidas (SBU), uma aliança mundial de entidades, cuja fundação remonta ao século XIX e que foi criada com o objetivo de facilitar o processo de tradução, produção e distribuição das Escrituras Sagradas por meio de estratégias de cooperação mútua. As SBU congregam 145 Sociedades Bíblicas, atuantes em mais de 200 países e territórios, que são orientadas pela missão de promover a maior distribuição possível de Bíblias, numa linguagem que as pessoas possam compreender e a um preço que possam pagar.

Além do trabalho na área de tradução e publicações de Bíblias, a SBB se destaca por sua atuação no campo da ação social. Desde 1962, quando inaugurou o barco Luz na Amazônia para prestar assistência espiritual e social aos ribeirinhos, a SBB tem desenvolvido inúmeros programas sociais que atendem a diferentes segmentos da população como estudantes, índios, presidiários, enfermos e deficientes visuais. “

SBB – A história de Mary Jones

MEAP – Missão Evangélica de Assistência aos pescadores

Link: http://meap.backsite.com.br/home.asp


Formada por líderes evangélicos de diferentes denominações históricas, com o objetivo de atender especificamente as necessidades deste povo, tão isolado e tão pouco evangelizado em todo o litoral brasileiro, em 1986 nasce a MEAP.

Havia densas trevas espirituais sobre as mais de sessenta vilas de pescadores artesanais existentes na região lagunar entre Iguape (SP) e Paranaguá (PR). O crescimento das  seitas e o sincretismo religioso, confundindo-se com a cultura, faziam deles um povo totalmente sem esperança.

Foi então que, em 1980, o missionário Jaime Orr começou a fazer os primeiros contatos com aquelas comunidades, navegando pelos canais de mar a bordo de um pequeno barco: o Mensageiro II.

Em 1981 Jaime compartilhou, no Seminário Bíblico Palavra da Vida, a necessidade de obreiros para evangelização dos pescadores. Os alunos Márcio e Damaris foram então movidos por Deus para atender àquele apelo.

Em fevereiro de 1984, depois de dois anos ministrando aos pescadores nos finais de semana e férias, Pr. Márcio e Damaris Garcia, agora casados, uniram-se ao casal Jaime e Carmen, dando início ao trabalho de plantação de igrejas entre os pescadores artesanais naquela região.

Perceberam rapidamente que não estavam tratando com uma região geográfica, mas sim com um grupo cultural.

Após algumas pesquisas, confirmando a existência de milhares de vilas de pescadores em nossa costa marítima, decidiram, em comunhão com um grupo de mantenedores que tinha a mesma visão, fundar uma agência missionária para promover o avanço da obra com aquele povo.

Nasceu então, em 1986, a MEAP – “Missão Evangélica de Assistência aos Pescadores” – em Santos (SP), formada por líderes evangélicos de diferentes denominações históricas, que teria por objetivo atender especificamente as necessidades deste povo, tão isolado e tão pouco evangelizado em todo o litoral brasileiro.

Missão ALEM (Associação Linguística Evangélica Missionária)

Link: http://www.missaoalem.org.br/index.php

A ALEM no cenário evangélico brasileiro

O alvo da Associação Lingüística Evangélica Missionária – ALEM é glorificar a Deus através de seu ministério de tradução das Escrituras, da implantação de igrejas nas áreas onde atua e do treinamento de obreiros. A ALEM foi fundada em 1982 e, nesses seus 26 anos de existência, tem contribuído significativamente com o movimento missionário evangélico no Brasil. Neste folheto, mostramos quem somos e o que temos realizado para a glória de Deus.

Conplei

A partir de 1991, membros da ALEM, com apoio financeiro da SIL – Sociedade Internacional de Lingüística, incentivaram e colaboraram nas reuniões de fundação do Conselho Nacional de Pastores e Líderes Evangélicos Indígenas (Conplei), que se concretizou extra-oficialmente em 1993. Atualmente, as assembléias do Conplei mobilizam mais de mil indígenas, provenientes de dezenas de diferentes etnias, até mesmo do exterior. Também congrega dezenas de não indígenas, oriundos de diferentes denominações e de diversas organizações missionárias, nacionais e internacionais.

Treinamento

Em 1983, a ALEM começou a dirigir o Curso de Lingüística e Missiologia (CLM), antigo Curso de Metodologia Lingüística (CML) organizado oficialmente pela SIL em 1973. Missionários e candidatos a missões de diversas organizações missionárias estudaram no CLM. Entre essas instituições encontram-se: Missão Antioquia; Missão Kairós; Junta Administrativa de Missões (JAMI), da Convenção Batista Nacional (CBN); Junta de Missões, da Convenção Batista Brasileira (CBB); Agência Presbiteriana de Missões Transculturais (APMT), da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB); Missão AMEM; Projeto Amanajé; AMIDE; Missão Horizontes; União das Igrejas Evangélicas da América do Sul (UNIEDAS); Missão Evangélica da Amazônia (MEVA); Missão Evangélica Índios do Brasil (MEIB) e SIL. O total de alunos chega quase a sete centenas.

Ex-alunos do CLM no cenário evangélico

Por mérito de Deus, pelo esforço de diversas instituições de ensino, por dedicação própria e pela relevância de seus ministérios, alguns ex-alunos do CLM tornaram-se conhecidos no cenário evangélico, entre os quais: Bráulia Ribeiro (JOCUM), Márcia e Edson Suzuki (ATINI e JOCUM), Ronaldo Lidório (Projeto Amanajé, AMEM), entre outros. Países de origem dos alunos do CLM O CLM tem recebido alunos principalmente do Brasil. Porém há estudantes que procedem de outros países, como: Japão, Coréia do Sul, Nova Zelândia, México, Costa Rica, Peru, Alemanha, Bolívia, Venezuela, Inglaterra, Estados Unidos, Argentina, Angola e Guiné Bissau. Para 2010, há um candidato da Finlândia.

Indígenas no CLM

Entre seus objetivos, o CLM visa preparar pessoas para pesquisa e trabalho de campo entre povos minoritários ao redor do planeta. Nada mais natural que representantes dessas comunidades também cursassem o CLM. Assim, alguns membros de povos indígenas brasileiros, em oportunidades diferentes, fizeram o CLM. Os povos representados são: Makuxi, Tikuna, Tukano, Terena e Xikrin- Kayapó.

Instituições acadêmicas de alguns ex-alunos do CLM

O CLM é um curso aberto a todas as pessoas que têm interesse em pesquisa e trabalho de campo entre as diferentes etnias ao redor do mundo. Assim, alunos universitários de graduação, mestrado e doutorado já fizeram esse curso. Alguns desses estudantes se tornaram docentes em instituições acadêmicas, como: Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Universidade Católica de Brasília (UCB), Universidade Estadual do Amazonas (UEM), UniCeub e Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Instituições atendidas por docentes da ALEM-CLM

Diversas instituições evangélicas possuem seus próprios cursos de preparo para missões transculturais e algumas delas já solicitaram docentes da ALEM-CLM. Entre essas organizações, temos: Missão Antioquia, Missão Kairós, JAMI, JUVEP (João Pessoa), Instituto Bíblico do Norte (IBN-Garanhuns), Junta Batista Brasileira, Seminário Pentecostal do Recife, Palavra da Vida do Pará, Centro Evangélico de Missões (CEM-Viçosa), Seminário Presbiteriano do Centro-Oeste (Goiânia), APMT, ALUMI (São Paulo) e Centro de Entrenamento Missionero (Bolívia).

Projetos da ALEM

A ALEM desenvolve projetos de Tradução, Educação Intercultural e/ ou Desenvolvimento Auto-Sustentável entre diversos povos no Brasil, entre os quais: Dâw, Tukano, Arara, Assurini, Parakanã, Aikaná, Yanomami, Yuhup, Kaiwá, Tembé, Guajajara e Nambikwara. Há também projetos na Índia e Guiné Bissau, África (povo Mansonka).

Parcerias

Na realização de suas atividades, a ALEM mantém convênio ou acordos, formais e/ou informais, com outras instituições, tais como: Missão Antioquia, JAMI, APMT, Asas de Socorro, SIL-Wycliffe e Missão Kaiwá.

Formação dos missionários da ALEM

Todos os missionários da ALEM possuem, no mínimo o ensino médio, e têm formação nas áreas bíblica e teológica. A maioria tem graduação nas áreas de Letras, Pedagogia, Ciências Sociais, História, Agronomia, Enfermagem, Teologia, Medicina; dentre esses, alguns possuem pós-gradução, nas áreas de Linguística, Antropologia, Pedagogia, Psicopedagogia, História, Teologia e Missiologia.

Produção/Publicações de membros da ALEM

A ALEM possui seu próprio periódico, intitulado de “ALEM em Notícias”, contendo notícias e artigos de seus missionários. Por outro lado, alguns membros da ALEM têm publicado artigos em diversos periódicos evangélicos (não estão citados aqui os trabalhos acadêmicos), entre os quais:
– revista “Ultimato”: Pr. Rinaldo de Mattos, Isaac Souza, Pr. Norval Silva, Pr. José Carlos Alcântara da Silva e Elias Assis;
– “Mensagem da Cruz”: Norval Silva (Editora Betânia);
– revista “World Evangelization”: Isaac Souza (Lausanne Committee for World Evangelization, março de 1994);
– revista “Iglesia y Misión”: Isaac Souza (Kairos Ediciones, editor: René Padilha);
– “Jornal Missionário”: Isaac Souza (JAMI); jornal “Transformação: Isaac Souza (Visão Mundial);
– revista “Visão Missionária”: Dalva Del Vigna (SEMAP, Assembléia de Deus);
– livro “Indígenas do Brasil: avaliando a missão da igreja”: Pr. Rinaldo de Mattos, Pr. Norval Silva e Pr. José Carlos Alcântara da Silva (Editora Ultimato, Ronaldo Lidório(Org.));
– revista “Povos”: Pr. José Carlos Alcântara da Silva;
– revista “A Bíblia no Brasil”, da Sociedade Bíblica do Brasil: Pr. José Carlos Alcântara da Silva;
– livro “De Todas as Tribos”: Isaac Souza, com um artigo de Norval Silva (Editora Ultimato, 1996). Este livro foi traduzido para o espanhol pelo COMIMEX (COMIBAM do México);
– livro “Indígenas do Brasil II”: diversos autores, entre eles Pr. Norval Silva e Isaac Souza (Editora Ultimato, Ronaldo Lidório e Isaac Souza (Orgs) – no prelo).

Muitos dos artigos publicados pelos membros da ALEM foram pioneiros na maneira como abordaram a questão missionária indígena. O livro “De Todas as Tribos” foi o primeiro a tratar a problemática de missões indígenas de uma perspectiva crítica em termos das acusações feitas contra os missionários.

Um resultado exemplar

Quando missionários da ALEM iniciaram trabalhos entre uma etnia da Amazônia, esse povo não possuía terra onde morar. Viviam mendigando nas ruas de São Gabriel da Cachoeira, pois muitos membros da comunidade eram viciados em bebida destilada, incluindo cachaça, álcool farmacêutico, desodorante etc. O índice de mortalidade infantil era alarmante. Com o auxílio de uma Igreja Presbiteriana em Brasília, os missionários compraram um espaço territorial onde o povo passou a habitar, adquiriram um barco através do qual implementaram um projeto de desenvolvimento auto-sustentável de coleta e venda de piaçaba. Os missionários atuaram na área de saúde, elaboraram um alfabeto para a língua indígena, produziram material de alfabetização e de leitura, iniciaram educação escolar e, com a participação de outros missionários da ALEM que ingressaram posteriormente no projeto, traduziram porções do Novo Testamento e iniciaram uma igreja. Por conta disso, a taxa de natalidade voltou ao normal, a mendicância desapareceu, a embriaguês praticamente acabou, muitos foram alfabetizados e vários entre eles se converteram. Os membros desse povo dispensaram o termo pejorativo pelo qual eram conhecidos, Kamã (significando “capotado” de tanto estar embriagado), e adotaram um outro que refletia mais sua dignidade humana, Dâw (com sentido de “gente”). Esse povo era até mesmo discriminado por outras comunidades indígenas e era explorado por elas como mão-de-obra barata. Um dia, um casal pertencente a uma dessas comunidades foi passar um feriado entre os Dâw. Antes de deixar a área, o homem perguntou ao missionário que os havia levado para lá: “A festa Dâw é sempre assim? Eles não ficam bêbados, não se batem e nem se matam?” O missionário respondeu que sempre era assim: sem álcool, sem briga e sem morte. O indígena exclamou: “os Kamã (capotados, bêbados) somos nós!” Aí pediu que o missionário desse ao seu povo o mesmo remédio que fora dado aos Dâw para que também mudassem de vida. Até mesmo os mais críticos opositores reconhecem o valor da presença missionária entre a etnia indígena Dâw. Deus seja louvado!

(De: “A ALEM no Cenário Evangélico Brasileiro”)”