Arquivo da categoria: Estratégias

Artigos ferente a diferentes estratégias missionárias

Underground

Nossa missão é engajar e formar voluntários em favor da Igreja Perseguida, entre jovens cristãos brasileiros de 18 a 30 anos, por meio de redes de acesso.

Mas o que isso significa na prática?

A partir do mês de janeiro de 2011, o ministério underground passou a trabalhar exclusivamente com o voluntariado. Com jovens que, depois de mobilizados, decidiram agir de forma mais efetiva em prol da Igreja Perseguida; doando seu tempo e talento.

O que mais mudou?

As três principais mudanças foram:

1 – O fanzine é bimestral.

2 – O fanzine é enviado somente para os voluntários do underground.

3 – A membresia foi extinta. Há somente o voluntário underground.

O que não mudou?

Os eventos como acampamento underground e shockwave não sofreram alterações. Eles continuarão abertos para todos aqueles que desejarem participar. Eles serão divulgados através das mídias sociais e revista Portas Abertas.

Conheça mais em: http://www.underground.org.br/

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Portas Abertas

Portas Abertas é um ministério com características próprias dirigido à Igreja Perseguida, o único com mais de trezentas organizações associadas no mundo todo desenvolvendo projetos significativos nas linhas de frente em cerca de 50 nações.

Desde 1955, Portas Abertas realiza programas completos e de grande influência em muitos dos países onde os cristãos sofrem por sua fé em Jesus Cristo.

Conheça mais em: http://www.portasabertas.org.br

Domingo da igreja perseguida

O Domingo da Igreja Perseguida, conhecido como DIP, é um dia em que as igrejas separam seus cultos, ou parte deles, para falar da causa dos cristãos perseguidos. É uma mobilização em massa das igrejas brasileiras e também de outros países, que promovem o evento para que os membros de sua comunidade saibam mais sobre a realidade da perseguição, orem e se engajem, não só neste dia, mas na causa da Igreja Perseguida.

O DIP é patrocinado pela Portas Abertas e os organizadores são voluntários. O evento dá a oportunidade para que os cristãos brasileiros conheçam e vivenciem a realidade de milhares de irmãos. Este dia, entretanto, não é apenas mais um evento para sua igreja. É uma oportunidade para divulgar e relatar os testemunhos e experiências de pessoas que nos ensinam a cada dia como ser um cristão perseverante e cheio de fé.

A data varia de ano para ano, pois é marcada para o domingo seguinte ao de Pentecostes. Esse critério foi adotado porque no relato bíblico de Atos 4, o início da perseguição aos cristãos acontece logo após a descida do Espírito Santo, com a prisão de Pedro e João. Simbolicamente, pode-se dizer que essa foi a “fundação” da Igreja Perseguida.

Divulgue, ore, participe!

Conheça mais em: http://www.domingodaigrejaperseguida.org.br/

[Vídeo] Povo Kimyal Festejando A Chegada Da Bíblia!!

Da universidade para a floresta: a necessidade do apoio técnico na missão entre indígenas do Brasil.

Rev. Norval, missionário tradutor da Bíblia da ALEM/APMT, ensinando histórias bíblicas.

André Filipe, Aefe!
conheça também:
http://www.alumi.org.br

Recentemente, o Departamento de Assuntos Indígenas (DAI) da Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB) publicou um relatório1 sobre as etnias indígenas brasileiras, revelando dados importantes para a missão da igreja nacional, lançando necessidades e desafios. Dentre os 7 desafios lançados pela equipe, o sétimo deve tocar fundo no coração do estudante universitário cristão, capacitado para servir a Deus com sua profissão; este desafio aponta para um modelo diferenciado de necessidade missionária, com uma direção diferente das encontradas normalmente em institutos bíblicos e seminários:
“Em diversas atividades missionárias há necessidade de apoio técnico especializado, essencial para a qualidade da produção. Podemos citar áreas como a linguística, antropologia, missiologia, pesquisa, desenvolvimento comunitário, ações sociais, consultoria jurírica, transporte, comunicação e logística. Sem um adequado fortalecimento no apoio especializado as ações missionárias entre os povos indígenas perderão força, qualidade e oportunidade (…) Tais iniciativas especializadas multiplicam as ações missionárias e são fundamentais para boa parte do trabalho realizado”2.
A pesquisa reconhece 616.000 indígenas vivendo em terrítório nacional (52% ainda vivem em aldeamentos), divididos em 340 etnias, e 181 línguas diferentes. O relatório ainda nos apresenta dados animadores a respeito da presença evangélica entre eles, mostrando que a igreja tem caminhando e feito a diferença: “a Igreja Indígena está em franco crescimento, o que se dá a partir das relações intertribais locais, atuação missionária com ênfase no discipulado e treinamento indígena e três fortes movimentos indígenas nacionais. A presença missionária coordena mais de duas centenas de programas e projetos sociais de relevância que minimizam o sofrimento em áreas críticas, sobretudo em educação e saúde, e valorizam a sociedade indígena local. O registro linguístico, associado à produção de material para letramento, é outro vigoroso fruto das iniciativas missionárias, que se envolvem especialmente com grupos à margem do cuidado e interesse da sociedade3”.
Atualmente, 182 destas etnias possuem presença missionária, sendo que 150 possuem Igreja Indígena, e apenas 17 não possuem pelo menos um programa social ativo. Os programas sociais coordenados por missionários evangélicos somam 257 programas sobretudo nas áreas de educação (análise linguística, registro, letramento, publicações locais e tradução), saúde (assistência básica, primeiros socorros e clínicas médicas), subsistência e sociocultural (valorização cultural, promoção da cidadania, mercado justo e inclusão social), em sua maioria “subsidiados por igrejas, empresas e representantes evangélicos no Brasil4”. A conclusão é animadora: “a presença missionária está, histórica e tradicionalmente, sempre associada a iniciativas sociais e culturais, especialmente àquelas com forte valor para o povo local4”, isso porque acreditamos que “o evangelho não apenas responde aos questionamentos da alma humana, como também contribui para a sobrevivência individual, social, cultural e linguística dos povos indígenas no Brasil5”.
Apesar de todo o esforço de igrejas, ministérios e missionários, ainda há pelo menos 190 etnias sem qualquer presença missionária: “chama a nossa atenção o alto número de etnias sem conhecimento do Evangelho em áreas relativamente abertas e sem iniciativas evangélicas e missionárias6”.  Além do mais, 69 línguas não possuem a Bíblia traduzida,  10 com clara necessidade de tradução e 28 com necessidade de projetos especiais de oralidade. Sem contar que o esforço de diminuir a pobreza bíblica envolve trabalhos não só de descrição linguística e tradução, mas também, concomitantemente, projetos de educação em língua materna, valorização cultural etc.
O desafio é enorme, um grande passo a ser dado por cada um de nós: “levando em consideração as ações especializadas bem como o trabalho administrativo, logístico e pastoral que tanto precedem quanto acompanham tais iniciativas, asseguradamente seriam necessárias no mínimo 500 novas unidades missionárias para fazer frente ao presente desafio total6”.
Toda esta necessidade tem como alvo não o enriquecimento de qualquer empresa, nem pode ser mensurada apenas por seus resultados sociais e de diminuição do sofrimento humano, mas a frota missionária tem cooperado para a promoção do conhecimento da Glória de Deus entre os indígenas no Brasil. Desafio você que está fazendo uma universidade ou curso técnico, ou que ainda está prestando vestibular, a considerar seriamente fazer parte de uma das 500 novas unidades missionárias que hoje rogamos a Deus. É possível que sua área não tenha sido citada aqui, justamente porque talvez só você possa saber como sua especialidade pode ser importante no campo missionário: desafio você a descobrir isso.
Se você caminha para o fim de seu curso, e Deus tem falado fortemente com você a respeito da vocação missionária, procure mais informações, entre em contato com uma agência missionária e converse com o pastor de sua igreja. O desafio lançado pode ser um avanço decisivo para alcançar o que falta da tarefa de evangelização nacional entre os indígenas, talvez porque pessoas como eu e você resolveram responder ao chamado de Deus.
__________
1Você pode baixar o relatório completo no site: http://www.indigena.org.br
2LIDÓRIO, Ronaldo (org). Indígenas do Brasil: etnias indígenas brasileiras, relatório 2010. (DAI-AMTB), 2010, pág. 16.
3Idem, pág. 03.
4Idem, pág. 08.
5Idem, pág. 12.
6Idem, pág. 15.

Visão 2025 | O último grande surto de novas traduções da Bíblia

link: http://www.missaoalem.org.br/visao2025/

O plano é arrojado demais, difícil demais, dispendioso demais, urgente demais, bonito demais e acertado demais. Puxa! Que plano é esse? É o plano de pelo menos iniciar um programa para a tradução da Bíblia em todas as línguas que ainda não a possuem  até o ano 2025.

Elaborado pelos mais competentes lingüistas, antropólogos e missiólogos comprometidos com a ordem de evangelizar o mundo todo, o plano foi lançado em novembro de 2001 pela organização Tradutores da Bíblia Wycliffe Internacional (WBTI, em inglês).
O projeto conta com a adesão de várias organizações missionárias ao redor do mundo que já trabalham com a tradução da Bíblia para línguas nativas, inclusive com a brasileiríssima ALEM (Associação Lingüística Evangélica Missionária), com sede em Brasília. E espera obter o apoio de todas as denominações evangélicas de todos os continentes. Será um esforço realmente global. Além de recursos financeiros, o projeto dependerá de uma grande quantidade de novos missionários lingüistas.

Cartago e Alexandria
O missiólogo Wenceslao Calvo, da PROEL (Promotora Espanhola de Lingüística), tem um argumento muito forte a favor da intensificação do ministério de traduzir a Bíblia. É de ordem histórica. Lembra que, do segundo ao quinto século, a presença cristã no Norte da África era notável. Dali surgiram homens como Tertuliano, Cipriano, Agostinho, Orígenes, Atanásio e Cirilo. Em  Alexandria havia uma das maiores escolas teológicas dos primeiros séculos. A partir das invasões árabes, porém, a Igreja foi se enfraquecendo até quase morrer por completo. Hoje, todos os países acima do Saara, do oceano Atlântico ao mar Vermelho, exceto o Egito, são 100% muçulmanos. O que se encontra ali são nada mais do que vestígios do cristianismo. Embora o islamismo seja muito forte também no Egito, a situação desse país é bem menos sombria. A razão é que a Igreja da antiga Cartago, na atual Tunísia, era de opinião que os convertidos tinham a obrigação de aprender o grego e o latim para se tornarem cristãos.
Enquanto isso, a Igreja da antiga cidade de Alexandria, no Egito, providenciou a tradução das Escrituras na língua copta, logo no final do segundo século. Na região onde hoje se encontram Marrocos, Argélia, Tunísia e Líbia, sob a influência de Cartago, os cristãos não tinham a Bíblia em sua própria língua, o que não aconteceu no Egito, sob a influência de Alexandria. Além de dificultar em muito a evangelização, a ausência das Escrituras nas línguas nativas facilita a superficialidade religiosa e a penetração do paganismo e de seitas. Outro malefício é que os cristãos são impelidos a buscar símbolos religiosos em demasia (quadros e imagens), o que facilmente deteriora a fé original.

Processo histórico
A Visão 2025, nome oficial do atual esforço em favor da tradução da Bíblia para 3.000 línguas desprovidas da Palavra de Deus, não é um fato isolado. As duas mais notáveis e antigas traduções da Bíblia são as chamadas “Sep-tuaginta” e “Vulgata”. A primeira, para o grego,  teria sido feita por 70 estudiosos judeus em Alexandria, a pedido do rei Ptolomeu, do Egito. Os cinco primeiros livros da Bíblia foram colocados em circulação em 250 a.C. Talvez tenha sido a mais demorada versão bíblica, pois o trabalho só terminou ao longo dos 200 anos seguintes. A segunda, para o latim, foi feita por Jerônimo (347-420), a pedido do papa Dâmaso, e veio a lume em 404 d.C. Tornou-se a Bíblia oficial da Igreja católica a partir do Concílio de Trento (1545-1563).
Entre a Bíblia Latina de Jerônimo (347-420) e a Bíblia Inglesa de João Wycliffe (1330-1384) passaram-se dez séculos. Foi nessa ocasião que surgiu um novo surto de traduções das Sagradas Escrituras.
Para Wycliffe, conhecido como a Estrela d’Alva da Reforma, a Palavra de Deus era o único padrão de fé e a única fonte de autoridade. O reformador alemão Martinho Lutero, que nasceu 100 anos depois de Wycliffe, também reconhecia a autoridade da Bíblia e a necessidade de colocá-la nas mãos do povo. Por esta razão, traduziu as Escrituras para o alemão e colocou em circulação perto de 100.000 cópias, um êxito editorial extraordinário para a época. Nesse período, outras línguas européias foram agraciadas com a tradução da Bíblia em vernáculo.
O surto seguinte se deu no início do século 19, junto com o despertamento da consciência missionária a partir de William Carey (1761-1834), que promoveu a tradução das Escrituras para 45 línguas e dialetos da Índia e de outras partes da Ásia, das quais 35 nada tinham até então. Foi nessa ocasião que nasceram as diversas sociedades bíblicas, a começar com a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira (1804) e a Sociedade Bíblica Americana (1816). Essas sociedades produziram centenas de traduções das Escrituras e as colocaram em circulação.
Novo surto iniciou 113 anos depois da organização da primeira sociedade bíblica. O instrumento usado por Deus foi o colportor americano William Cameron Townsend (1896-1982), que foi tremendamente impactado na Guatemala, em 1917, com a idade de 21 anos. Ao oferecer uma Bíblia em espanhol a um indígena cakchiquel, este esbravejou: “Se o seu Deus é tão inteligente, por que Ele não fala a minha língua?” Townsend então enxergou e abraçou entusiasticamente o desafio de traduzir as Escrituras para as línguas nativas. Em 1929, 11 anos depois daquele choque, Towsend completou a tradução do Novo Testamento na língua cakchiquel. Mas não parou aí: em 1934 fundou aquilo que é hoje a maior organização missionária protestante de todo o mundo e talvez de todos os tempos: a Wycliffe Bible Translators (Tradutores da Bíblia Wycliffe) e seu irmão gêmeo, o Summer Institute of Linguistics (Instituto Lingüístico de Verão). O nome Wycliffe é uma homenagem a João Wycliffe, já mencionado.
Hoje a Wycliffe tem mais de 5.300 missionários de 60 diferentes nacionalidades que estão envolvidos com a tradução da Bíblia em mais de 70 países. Apesar da complexidade do trabalho, a cada 10 dias esses missionários lingüistas completam a tradução do Novo Testamento para uma língua. Em 1995, eles fizeram a dedicação do 400º Novo Testamento para uma das 800 línguas da Papua-Nova Guiné
O último surto. Não faz muito tempo o missionário hispânico Moisés Lopes visitou uma Igreja da tribo indígena mazahua no norte do México. A Igreja estava cheia. Todos falavam a língua nativa e dispunham de um Novo Testamento nessa língua. Não obstante, o pregador falou em espanhol e o líder do louvor, um nativo, dirigiu cânticos em espanhol. Só os avisos, no final do culto, foram dados na língua do povo. Acabada a reunião, Moisés perguntou ao pastor por que apenas os avisos foram em mazahua. Obteve a seguinte resposta: “É para a congregação entender”. Ora, se os crentes entendiam mal o espanhol, por que a leitura da Bíblia, o sermão e os cânticos não foram na língua nativa?
A diferença entre ler a Palavra de Deus na própria língua e ler em outra língua mesmo pouco ou muito conhecida, é explicada pelo pastor Pedro Samua, da tribo tzutujil, da Guatemala: “Uma coisa é molhar o pé na água do lago; outra é pular dentro dele e nadar à vontade. Assim é a leitura da Bíblia na minha língua e em espanhol. Quando leio em espanhol, eu apenas molho meus pés na graça de Deus. Quando leio em tzutujil, eu mergulho na Palavra e sou refrescado por ela.“
Um dos oradores da conferência Amsterdam 2000, Dela Adalevoh, declarou: “Onde não existe Escritura na língua do povo, a Igreja não cresce”.
O filósofo alemão Immanuel Kant, que morreu no ano em que foi organizada a Sociedade Bíblica Britânica (1804), escreveu que “a existência da Bíblia como livro para o povo é o maior benefício que a raça humana jamais recebeu. Todo intento de diminuir a sua importância é crime contra a humanidade”.
Por todas essas razões, o último grande surto de novas traduções das Escrituras Sagradas, conhecido pelo nome Visão 2025, é um plano arrojado demais, urgente demais, bonito demais e acertado demais. Merece todo o apoio de toda a Igreja sobre a face da terra!
Desafio mundial
Diz-se que os 6,1 bilhões de habitantes do planeta falam 7.148 línguas. A  Bíblia completa já foi traduzida para 366 línguas (cerca de 5,4% do total acima). O Novo Testamento já foi traduzido para 1.012 línguas (cerca de 15%). Pelo menos um livro da Bíblia já foi traduzido para outras 883 línguas (cerca de 13%). A soma desses três números revela que 2.261 línguas têm pelo menos uma porção das Escrituras traduzida (cerca de 33,6%).
Estima-se que há mais de  3.000 línguas com óbvia necessidade de tradução bíblica (44% das 7.148 línguas faladas hoje). A população que fala uma língua sem nenhum livro da Bíblia traduzido é de aproximadamente 250 milhões de pessoas (pouco mais de 4% dos 6,3 bilhões de habitantes).
A maior parte desses 3.000 grupos étnicos desprovidos da Palavra de Deus está na Ásia, especialmente na Índia, China, Nepal e Bangladesh. São 1.200 línguas. Depois vem a África Ocidental, a metade nos países que foram colonizados pela França e a outra metade na Nigéria. São pelo menos 1.000 línguas. Em terceiro lugar, vêm as ilhas do Pacífico, especialmente em Papua-Nova Guiné e na Indonésia. São 600 línguas. Por último vem o Oriente Médio, cuja religião predominante é o islamismo. São 150 línguas.
Papua-Nova Guiné é um caso muito especial. Embora a língua oficial desse país da Oceania seja o inglês (por causa da colonização britânica), ali se falam mais de 800 línguas. Trata-se de uma nação pequena em área (menor que a Bahia) e em população (1 milhão a menos que a população da cidade do Rio de Janeiro). Não obstante a tremenda confusão lingüística, Papua-Nova Guiné, bem ao norte da Austrália, é um dos países de maior porcentagem de cristãos: 33% de católicos e 65% de protestantes (98% ao todo).
No presente momento, os tradutores da Bíblia estão trabalhando com 1.500 traduções ao redor do globo. Se o ritmo presente for mantido, a tradução da Bíblia para as outras 3.000 línguas estará em processo somente no ano 2150! A Visão 2025 tem por objetivo reduzir esse tempo em pelo menos 125 anos. Assim, até o ano 2025, todas os povos que ainda não têm a Bíblia em sua língua terão pelo menos algumas traduções iniciadas na língua que lhes fala ao coração.
—  Wycliffe e SIL”

Curso de Linguística e Missiologia [CLM/ALEM]

Objetivo

Link: http://www.missaoalem.org.br/clm/cursos.html

O Curso de Linguística e Missiologia (CLM) tem como objetivo capacitar pessoas para aprenderem uma ou mais línguas, desenvolverem trabalhos nas áreas de linguística, antropologia, educação intercultural, tradução das Escrituras e evangelização em contexto transcultural.

Habilitações

O CLM é um treinamento específico que permite ao aluno desenvolver a habilidade de identificar-se com uma nova cultura e aprender novas línguas, inclusive aquelas nas quais ainda não existe sistema escrito.

O Curso é dividido em quatro Módulos:

Modulo Básico /Modulo Intermediário /Modulo do Campo /Modulo Avançado

Esses quatro módulos envolvem duas habilitações:

Habilitação em Análise Linguística e Tradução

– Destinada a pessoas que se sintam chamadas para trabalhar com análise de línguas e/ou tradução da Bíblia.

Habilitação em Educação e Linguística

– Destinada a pessoas que pretendam se envolver com atividades educacionais em contextos multiculturais e/ou que desejem aprender adequadamente uma nova língua.

Corpo docente

O corpo docente é formado por missionários e cooperadores nacionais e estrangeiros da ALEM, da SIL e de outras organizações parceiras. No geral, esses docentes possuem experiência ministerial, de campo, acadêmica, pedagógica e atuam em seu cotidiano nas disciplinas que ministram no CLM. Eles possuem graduação, mestrado ou doutorado nas áreas de antropologia, educação, linguística, missiologia, teologia e tradução.

Local e estrutura física

Os módulos básico, intermediário e avançado são ministrados no Centro de Treinamento da ALEM – CTA, na chácara 04 do Núcleo Habitacional Esperança, da Granja do Torto, em Brasília, próximo ao Parque Nacional de Brasília, região representativa da flora e fauna nativas do cerrado brasileiro.
A sede da ALEM dispõe de uma ampla biblioteca com mais de 6.000 volumes dentro das áreas de interesse de seu ministério, sala de aula equipada com recurso multimídia, sala de informática com acesso à internet, refeitório para 80 pessoas, alojamentos para casais e solteiros e campo de futebol.
O módulo de campo denominado de Acampamento de Treinamento Transcultural na Selva (ATTS) é realizado em uma ilha do rio Xingu, no estado do Pará, próximo a duas aldeias indígenas.

Duração do curso e carga horária

O CLM tem duração de 11 meses. As aulas têm início em janeiro e se encerram no mês de novembro. O CLM é intensivo, com aulas pela manhã, à tarde e à noite, de segunda a sexta-feira.

Custos

O custo total do CLM é de 22 salários mínimos (vigente) divididos em 11 parcelas, por pessoa. Esse valor cobre alimentação, hospedagem e material didático.

Pela natureza intensiva do curso, casais com filhos devem contratar uma babá e se responsabilizar pelo custo financeiro da contratação.

Trabalhos Gerais

O CLM não possui empregados. Por isso, há trabalhos que os alunos devem fazer para manter em ordem os espaços utilizados pelo curso, como limpeza de salas de aula, dormitórios, refeitório, banheiros etc. Além disso, devem preparar as refeições nos finais de semana.

Inscrições e Pré-requisitos

As inscrições iniciam em junho do ano anterior ao pretendido. Para ingressar no CLM, é necessário ter 18 anos de idade completos até a data do início do curso e ter concluído o ensino médio. Recomenda-se que o candidato tenha realizado um curso bíblico ou teológico. Para processar a inscrição, são necessários os seguintes documentos:
1) Ficha de inscrição preenchida;
2) Cópia do certificado de conclusão do Ensino Médio ou Superior;
3) Uma foto 3×4;
4) Cópia de Registro Geral (RG), frente e verso;
5) Carta de recomendação da Igreja atestando chamado missionário do candidato e, se for o caso, firmando seu compromisso quanto ao sustento financeiro de seu enviado;
6) Pagamento da taxa de inscrição

O verbo na alma da selva

Como (e por que) viver 25 anos isolado em aldeias, e preservar línguas em risco de extinção

por Branca Vianna |publicado originalmente da Revista Piauí, extraído de: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-4/questoes-linguisticas/o-verbo-na-alma-da-selva/ em 18/01/11

Para ir à aldeia do Roçado, toma-se um bimotor da Trip Linhas Aéreas no terminal de vôos regionais do Aeroporto Eduardo Gomes, em Manaus. O guichê da companhia parece uma barraquinha de quermesse e o ambiente é mais de rodoviária do que de aeroporto. Muitos passageiros embarcam num avião pela primeira vez. Depois de sobrevoar a floresta por duas horas, percorrendo 630 quilômetros, chega-se a Santa Isabel do Rio Negro, cidadezinha de 10 mil habitantes perto da fronteira entre Brasil, Colômbia e Venezuela.
Santa Isabel ainda não tem celular nem internet. Há muito comércio miúdo, todo mundo vendendo os mesmos alimentos, produtos de limpeza, chapéus de palha e os mesmos bonés. O desemprego é o grande problema da cidade: atinge 60% da população. Dos que têm emprego, a maioria trabalha na prefeitura. Há também vários botequins, muitos vira-latas, um hotel, o Maykon, e um restaurante, o da dona Lica.
A pessoa que se deve procurar em Santa Isabel é José Oliveira Aguiar, que atende por Zé da Mara, sua mulher, professora da escola municipal, Zé da Prefeitura, onde trabalha como motorista, e Zé do Açougue, estabelecimento que mantém em casa e no qual oferece poucas carnes, muitos biscoitos e muita tubaína. Zé também é o dono da voadeira, o barco de alumínio de 5 metros de comprimento que se toma para ir ao Roçado.
Um barco comum levaria três dias para fazer o trajeto de 280 quilômetros. De voadeira, são oito horas de viagem. Segue-se pelo rio Uneiuxi, sem passar por nenhuma cidade, aldeia ou sítio. Só há floresta. Numa dobra do rio, enfim se avista gente: no alto de um barranco de terra avermelhada estão quase todos os 150 índios da tribo nadëb. São os remanescentes de uma tribo bem maior, de cerca de 1.500 índios, dizimada ao longo do século passado por guerras com outros grupos indígenas, contato com os brancos e epidemias. A última grande epidemia, de sarampo, ocorreu na década de 60; deixou noventa sobreviventes.
O primeiro contato mais regular entre os nadëb e os brancos teve início nos anos 50, com os regatões, mercadores que percorriam os rios vendendo e trocando produtos. Os regatões trocavam a sorva extraída pelos índios por sal, anzóis, facas e, principalmente, cachaça. A sorva é um fruto da floresta amazônica cujo látex era usado na fabricação de goma de mascar e bolas de beisebol. Logo após a grande epidemia de sarampo, um americano conhecido só pelo primeiro nome, Bill, se apiedou dos últimos noventa nadëb, que apareciam sempre bêbados, doentes, pedindo esmola pelas cidades. Deu a eles uma terra de sua propriedade no rio Uneiuxi, conhecida como Roçado do Bill ou aldeia do Roçado. Hoje os nadëb têm uma reserva demarcada pela FUNAI.
As estimativas variam, mas imagina-se que, em 1500, na região amazônica, havia entre 2 milhões e 5 milhões de índios e mais de 1.200 línguas diferentes. A população indígena atual não passa de 400 mil pessoas. Das 180 línguas indígenas ainda faladas no Brasil, 115 têm menos de mil falantes. Apenas quatro são faladas por mais de 10 mil pessoas e nenhuma delas tem mais de 20 mil falantes.
O nadëb, da família lingüística maku, é falado quase exclusivamente pelos 150 moradores do Roçado. A única outra aldeia nadëb, no rio Japurá, tem 200 moradores que estão perdendo a língua nativa. Entre eles, o português já é o idioma dominante. O termo maku também é usado de forma pejorativa pela população ribeirinha para designar diversos grupos indígenas, entre os quais os nadëb. Os maku sofrem discriminação também por parte dos outros índios do Alto Rio Negro, que os consideram primitivos, ou “índios bravos”. Por serem considerados inferiores, não participam da rede de casamentos entre os índios da região. Os membros da aldeia do Roçado se casam somente entre si ou com seus parentes do Japurá.
No Roçado, além dos 150 índios, vivem dois brancos. Beatrice Senn é alta, tem cabelos cheios, pretos e lisos. No calor da Amazônia, usa sempre short, camiseta e sandália havaiana. Sua pele muito clara resiste bem ao sol tropical, embora ela não passe filtro solar. Não gosta da sensação melada dos protetores. Pelo mesmo motivo, também não usa repelentes contra insetos. Diz que já se acostumou com os mosquitos da região. Beatrice tem 43 anos e nasceu na Suíça, em Berna. Seu marido, Rodolfo, é argentino da província de Misiones. É neto de suíço-alemães que migraram para a Argentina antes da II Guerra Mundial. Com 45 anos, tem os cabelos espessos precocemente grisalhos, olhos azuis e pele também muito clara.
Os Senn vivem no Roçado há dez anos. Moram numa casa de madeira com teto de palha, sem luz e sem água corrente, construída pelos índios com a ajuda de Rodolfo, que, além de engenheiro mecânico, é carpinteiro. Foi ele quem ensinou os nadëb a cortar tábuas. É de tábuas que hoje são feitas quase todas as casas da aldeia. Antes, eram de galhos ou casca de árvores. Rodolfo tem artrose, doença degenerativa das articulações. Locomove-se pela aldeia de bicicleta porque tem dificuldade de andar distâncias maiores. Embora tome antiinflamatório todos os dias, às vezes a dor é tanta que ele precisa de uma injeção local de cortisona. Em Santa Isabel, não há quem aplique a injeção. É preciso ir a Porto Velho ou Manaus. “Dói muito, mas o hospital fica tão longe que o melhor é deitar na rede uns dias e esperar a dor passar. Por enquanto”, ele diz, “ainda consigo descer o barranco para buscar água no rio, mas logo a Beatrice vai ter que me substituir na tarefa.” Beatrice afirma que o exercício será bem-vindo. Ela gosta de correr para manter a forma, mas no meio da floresta é difícil. Como alternativa, nada no rio Uneiuxi, onde a correnteza é suave.
A casa dos Senn tem dois quartos, uma cozinha que serve também de sala de jantar e, entre os quartos e a cozinha, uma espécie de alpendre com uma rede sempre pendurada. A cozinha e o alpendre são abertos, para que todos possam ver o que se passa dentro da casa. Somente os quartos são fechados com portas. Os índios usam a rede do alpendre quando bem entendem. Alguns vêm todos os dias, por volta das 7 da manhã, para tomar um cafezinho e conversar um pouco. Os nadëb têm o hábito de visitar uns aos outros de manhã e a casa do casal faz parte do roteiro. São sempre os mesmos que aparecem: Pedro Borracha, o índio mais velho da aldeia, uma senhora bem velhinha sem um único dente na boca, um rapaz com ar meio aparvalhado, o cacique Joaquim e algumas crianças. Só o cacique fala português.
O casal tem três filhos: uma garota de 17 anos e dois rapazes, de 15 e 19. Os três foram criados entre índios. Ao completar 13 anos, partiram para estudar num colégio interno, a uma hora de voadeira de Manaus. É uma escola americana, na beira de um rio, que não tem luz elétrica e o gerador é desligado às 9 da noite. Os filhos dos Senn gostam da escola, dos nadëb e da aldeia, onde passam as férias. Sabem caçar, pescar, remar e manejar a voadeira. O mais velho, que já freqüenta uma universidade no Wisconsin, quer morar na Amazônia quando se formar, talvez trabalhando com índios. Teve grande dificuldade em se adaptar à vida nos Estados Unidos. Os irmãos falam inglês entre si e com os pais; falam nadëb fluentemente; espanhol e português, mal. Rodolfo e Beatrice também falam nadëb muito bem, além de português, espanhol, alemão e inglês, língua que usam entre si.
Os Senn dispõem de dois painéis solares que alimentam uma bateria de 12 volts, suficiente para uma lâmpada, e outra, mais potente, para a bateria de dois laptops. Como a casa não tem água corrente, o banho é no rio Uneiuxi, de manhã e no fim do dia, de roupa, com xampu e sabonete. O banheiro é uma cabana nos fundos da casa com um buraco no chão. Ao lado do papel higiênico, há sempre uma lata de inseticida. Os Senn dormem em redes e bebem a água do rio, filtrada. Pai e mãe já tiveram malária.
Rodolfo e Beatrice Senn são lingüistas da Sociedade Internacional de Lingüística, ou Summer Institute of Linguistics, com sede em Dallas, no Texas, e mais conhecida como SIL. Há mais de 5.000 membros da sociedade distribuídos por setenta países, estudando 1.800 línguas faladas por 1,2 bilhão de pessoas. A SIL está presente onde houver línguas ágrafas e povos que não conhecem a Bíblia. O objetivo da entidade é traduzir o Novo Testamento; sua ferramenta é a lingüística. A SIL foi criada por Cameron Townsend, um vendedor de Bíblias americano que, em 1919, numa viagem à Guatemala, se deu conta de que os guatemaltecos a quem tentava vender a mercadoria não sabiam falar espanhol, e muito menos ler. Em 1934, criou a sociedade. Townsend morreu em 1982.
A SIL não funda igrejas nem faz pregações. Seus membros são todos leigos. Quem quiser trabalhar como pastor é obrigado a se desligar da sociedade. A organização é cristã, evangélica e multidenominacional – segundo seus membros, todas as igrejas são bem-vindas. A maioria dos associados pertence às correntes históricas do protestantismo: batista, anglicana, metodista, luterana, presbiteriana. Rodolfo e Beatrice Senn são evangélicos que não pertencem a nenhuma igreja específica. Freqüentam a que estiver mais perto.
Os lingüistas da SIL são conhecidos no meio universitário, publicam seus trabalhos em periódicos e editoras acadêmicas de prestígio e colaboram com centros de pesquisas do mundo inteiro. Alguns pertencem à elite dos profissionais da área. O livro As Línguas Amazônicas, editado pela Universidade de Cambridge e referência no assunto, inclui seis lingüistas da SIL entre os doze autores. Também a Enciclopédia Internacional de Lingüística, da Universidade de Oxford, conta com vários membros da sociedade entre os colaboradores. No entanto, apesar da excelência acadêmica, eles não se vêem primordialmente como cientistas. Consideram que seu objetivo é, antes de tudo, espiritual.
A SIL chegou ao Brasil em 1956, a convite do antropólogo Darcy Ribeiro, para colaborar com pesquisas do Museu Nacional. Segundo registrou a antropóloga Artionka Capiberibe, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a instituição brasileira estabeleceu o convênio com a SIL “por julgar ser um meio apropriado de ter e manter o conhecimento sobre as centenas de línguas faladas pelos povos indígenas e profundamente desconhecidas até então. A figura do último falante foi um elemento central para assegurar a legitimidade e a permanência da missão no país”.
É comum a existência de um “último falante” nas línguas minoritárias. Quando uma comunidade indígena se torna bilíngüe, adotando, por exemplo, o português, os jovens são os primeiros a incorporar a segunda língua e, depois, passam a usá-la com os filhos. Apenas os mais velhos, em geral menos afeitos a mudanças, guardam memória da língua nativa e a usam no dia-a-dia. Ela vai se perdendo à medida que morrem os membros mais velhos da comunidade. Finalmente, restará um único falante que ainda se lembra da língua original, mas já não tem com quem falar.
O estudo de qualquer língua particular enriquece o conhecimento da linguagem humana como um todo, que é o objetivo final da lingüística. O desaparecimento de uma língua pode ser comparado à destruição de um último e único sítio arqueológico de um povo desconhecido. A informação se perde para sempre.
Na década de 50, não havia lingüistas brasileiros qualificados para fazer levantamento e análise de línguas indígenas. A SIL, por outro lado, dispunha não só de lingüistas treinados e experientes, mas de metodologia comprovada no trabalho com línguas indígenas, principalmente no México, país em que Darcy Ribeiro conhecera a sociedade. Na sua autobiografia, Confissões, ele relata: “Eu me interessei pelo instituto porque, tendo convivido muito com os índios, sofria vendo que muitos povos estão ameaçados de desaparecimento e quase nenhum tem sido bem estudado lingüisticamente ou tem sua língua bem escrita. Facilitei o ingresso do instituto no Brasil, a fim de que realizassem seu trabalho. O objetivo [da SIL] era tornar factível a tradução da Bíblia. Meu objetivo era salvar para os lingüistas do futuro, que provavelmente saberão estudá-las, as línguas como cristalizações do espírito humano, para aprendermos mais sobre os homens”.
A primeira sede da SIL no Brasil foi instalada no próprio Museu Nacional, na Quinta da Boavista, onde Joaquim Mattoso Câmara, um dos fundadores da moderna lingüística brasileira, criaria, em 1961, o Setor de Lingüística. Desse departamento sairia a primeira geração da lingüística indígena nacional, fortemente influenciada pelos trabalhos e metodologias da SIL. A professora Yonne Leite, do Museu Nacional, escreve num artigo que o relacionamento entre a SIL e Mattoso Câmara “transcorreu de modo muito tranqüilo. A união foi um sucesso”. Um dos mais importantes lingüistas da SIL e primeiro presidente da entidade, Kenneth Pike “fez conferências nas quais mostrava a excelência de sua metodologia, colhendo dados de uma língua ágrafa e oferecendo à platéia encantada, em uma hora, uma análise preliminar de sua fonologia, morfologia e sintaxe”. Em 1962, Darcy Ribeiro fundaria a Universidade de Brasília. Como primeiro reitor, firmou com a SIL um acordo semelhante ao que já existia no Rio de Janeiro.
A cooperação entre SIL, academia e governo durou trinta anos. Hoje não há qualquer ligação entre lingüistas missionários e acadêmicos no Brasil. O vínculo com a FUNAI também é precário. O convênio, assinado em 1968, foi cancelado em 1977. Hoje a presença de missionários nas aldeias depende fundamentalmente do relacionamento direto entre o missionário e o chefe do posto local da FUNAI.
Em 1971, a Universidade de Berna e o Conselho Mundial de Igrejas, organização ecumênica sediada na Suíça, organizaram uma conferência em Barbados, no Caribe, para discutir a situação dos povos indígenas na América Latina. Do encontro resultaria uma declaração assinada por alguns intelectuais latino-americanos – entre eles, Darcy Ribeiro. O documento afirmava o direito dos povos nativos à autodeterminação, condenava a atitude dos governos da região e o etnocentrismo das missões evangélicas. Em tempos de forte antiamericanismo, a Declaração de Barbados representou o início de um movimento antimissionário em toda a América Latina. No Brasil, os lingüistas da SIL continuariam a trabalhar com pesquisadores universitários até meados dos anos 80, mas de forma esporádica e sem acordos oficiais como o firmado com o Museu Nacional e a UnB.
A SIL e outras missões foram acusadas de espionagem e exploração ilegal de recursos minerais. Darcy Ribeiro resumiu assim as denúncias: “As esquerdas, em sua estupidez habitual, acham que os missionários são agentes da CIA. Bobagem. Se um espião tivesse que viver na selva com sua família por anos, junto a grupos indígenas, a CIA não recrutaria ninguém. Outros dizem que é para aprender dos índios onde há poços de petróleo e minérios. Também bobagem. Eles lá estão para preparar a chegada do Novo Cristo. Essa é a verdade, meio inverossímil, mas verdadeiríssima. E, do meu ponto de vista, lá estão para descrever línguas que de outro modo desapareceriam sem deixar nenhum registro”.
Para a professora Bruna Franchetto, “é inegável a presença determinante da SIL no Brasil.” Segundo ela, a associação monopolizou durante décadas a pesquisa e a formação lingüística. “A SIL produziu e acumulou conhecimentos científicos sobre as línguas, sem dúvida. Ao mesmo tempo, tentou evangelizar e interferiu desastrosamente nas culturas nativas. Esse gênero de missão se caracteriza por um curioso binômio: preservar a diversidade lingüística e aniquilar a diversidade cultural”.
Na aldeia nadëb, os Senn fazem o possível para preservar a vitalidade lingüística da comunidade. A distância entre a aldeia e qualquer cidade onde se fala português contribui muito para o sucesso da empreitada. Entre os 150 nadëb do Roçado, não mais de cinco falam o idioma. Para os missionários-lingüistas da SIL, a mensagem de Deus só pode ser plenamente compreendida na língua materna do crente. É vital que haja um texto escrito, de forma que a comunidade tenha acesso aos evangelhos independentemente da presença de missionários.
Nas palavras de Darcy Ribeiro: “A idéia básica de Tio Cam [Cameron Townsend, o fundador da SIL] é que Deus, meio sem juízo, da primeira vez pôs seu ovo num povinho de merda, que eram os judeus, quando podia tê-lo colocado entre os romanos, como imperador. O próximo Cristo, onde é que ele vai pôr? Não é impossível que seja entre os xavante ou os kayapó. Vai ser o diabo para que aquele novo Cristo retome a herança do anterior a fim de cumprir sua missão. Daí que a tarefa da SIL seja traduzir a santa bíblia em todas as línguas do mundo, para que, onde quer que caia o Messias, ele possa se informar de todas as coisas sagradas”.
A maioria das línguas indígenas é ágrafa, não existe na forma escrita. Para a SIL, o primeiro passo é, pois, a criação de um alfabeto, que registra graficamente os sons da fala. O alfabeto nadëb foi criado por Helen Weir, lingüista irlandesa que, em 1984, defendeu, na Unicamp, uma tese intitulada A Negação e Outros Tópicos da Gramática Nadëb. A tese de Weir foi uma das últimas de lingüistas da SIL apresentadas em universidades brasileiras.
Rodolfo e Beatrice Senn traduziram para o nadëb mais da metade do Novo Testamento. Para ajudá-los na tarefa, usam um software da SIL chamado Translator’s Workplace, com 47 Bíblias em várias línguas européias, material exegético, comentários de teólogos, glossários, dicionários e os manuais de um curso de aprendizagem de línguas nativas para missionários. “Tenho uma biblioteca inteira no meu laptop”, diz Rodolfo.
O casal criou uma escola nadëb para a qual treinou professores indígenas. Quase todas as crianças e jovens da tribo lêem e escrevem na língua. Muitos adultos também se alfabetizaram. Em 2005, a prefeitura de Santa Isabel estendeu o ensino municipal até a aldeia. Mandou para lá três professores que moram durante oito meses no Roçado, voltando para a cidade somente uma vez, nas férias de julho. Ensinam matemática, geografia e português e acham que seu trabalho foi facilitado pelo fato de as crianças já serem alfabetizadas na própria língua.
Os Senn lamentam a chegada da escola municipal. Acreditam que será um incentivo para que aos poucos a língua nativa seja abandonada. Na escola nadëb, Beatrice passou a ensinar o que chama de conscientização lingüística. “Quero mostrar a eles que o nadëb é uma língua tão rica e bonita quanto o português, que a língua deles também tem gramática, fonologia, um léxico variado e poderoso. Quando os nadëb começaram a estudar português, acharam que só nessa língua havia tempos verbais, substantivos e pronomes. E isso os fez pensar que o português era uma língua melhor do que a deles.”
A sentença de morte de uma língua minoritária é decretada quando a língua majoritária se torna sinal de prestígio na comunidade. Foi o que aconteceu com o mamaindé, língua falada por 170 índios na fronteira entre Mato Grosso e Rondônia. Dave Eberhard é um fonólogo da SIL que trabalha com a tribo. Ele conta que os mamaindé ganharam um caminhão da prefeitura de Vilhena, a cidade mais próxima da aldeia. Passaram a ir freqüentemente à cidade, que fica a duas horas pela estrada recém-construída. Com o dinheiro da aposentadoria, concedida pelo INSS a todos os índios idosos, compraram celulares. Como não costumam ter crédito nem têm para quem ligar, usam o celular principalmente para telefonar a cobrar para Eberhard em Cuiabá, na chácara da SIL onde ele mora. Na aldeia há um gerador e uma única tomada – os índios fazem fila para carregar seus telefones. As meninas já vestem minissaia para ir à cidade. Ninguém mais quer falar mamaindé, muito menos aprender a ler. O português é a língua de prestígio na aldeia. Por falta de leitores, Eberhard foi obrigado a abandonar a tradução da Bíblia, trabalho a que vinha se dedicando por dezessete anos.
O Brasil é um dos únicos países onde a SIL ainda usa a abordagem tradicional de um missionário que se muda para a aldeia, passa quatro ou cinco anos aprendendo a língua e mais vinte fazendo a tradução. Os Senn acreditam que precisarão de mais doze anos para completar a tradução do Novo Testamento. Serão, portanto, 22 anos no total. Quando a Bíblia em nadëb estiver pronta, o casal pretende se aposentar e morar na Argentina.
Na África, o trabalho de tradução da Bíblia é muito mais rápido, pois há falantes nativos com diploma de curso superior e mesmo com pós-graduação. A SIL entra com o treinamento em lingüística e os próprios falantes se encarregam das traduções. Além disso, há um contingente muito maior de falantes por língua. A língua indígena brasileira com maior número de falantes, o tikuna, com quase 20 mil, seria considerada uma língua em extinção na África. Ali, há línguas minoritárias com um milhão de falantes. A tradução do Novo Testamento para uma língua africana fica pronta em três anos. No Brasil, o prazo habitual é de 25 anos.
Rose Dobson, hoje consultora da SIL, levou 32 anos até completar sua tradução da Bíblia para o kayabi, língua que na época tinha somente 66 falantes. Dobson chegou ao Brasil em 1968. Nos primeiros tempos depois de se instalar na aldeia, os índios lhe ensinaram tudo errado. Viam que ela anotava cada palavra que diziam e desconfiaram que sua intenção era roubar a língua. Decidiram então confundi-la: se ela perguntava como se dizia caçar em kayabi, ensinavam-lhe a palavra para subir; se queria saber como se dizia comer tapioca, ensinavam-lhe as palavras para as cores. A missionária só descobriu o artifício depois de dois anos, quando viu que a língua que estava aprendendo não fazia sentido. Até então, nenhum lingüista – acadêmico ou missionário – havia estudado kayabi.
Os critérios da SIL para a escolha de uma língua são a ausência de tradução da Bíblia, o grau de bilingüismo e o número de falantes, nessa ordem. “Se houver uma comunidade de cinqüenta pessoas ainda monolíngües, e se pudermos ajudá-las, vale mais a pena para a SIL do que uma comunidade de duas mil pessoas que já falem português. Bíblias em português existem muitas”, explica Eberhard.
A tribo kayabi tem hoje mais de oitocentos membros. Está crescendo, como a maioria das tribos indígenas no Brasil. Paradoxalmente, à medida que as tribos crescem, desaparecem as línguas. As populações indígenas hoje costumam ter acesso a médicos, agentes de saúde, professores, vacinação, aposentadoria, auxílio-gestante. Esses benefícios, ao mesmo tempo em que prolongam a expectativa de vida, intensificam o contato com os brancos das cidades – e acabam aumentando os riscos de desaparecimento da cultura e da língua nativas.
O mamaindé, língua estudada pelo fonólogo Eberhard, faz parte da família lingüística nambikuara, cujas línguas são tonais, como o mandarim. Nessas línguas, o tom em que uma palavra é falada tem função contrastiva. Em mandarim, se pronunciada em tom neutro a palavra ma significa mãe; em tom descendente-ascendente, significa cavalo. Em mamaindé, a palavra loani pode significar rato ou folha de buriti, dependendo do tom.
Só há no Brasil duas línguas tonais que não pertencem à família nambikuara: o pirahã e o munduruku. O pirahã, falado por uma tribo da Amazônia composta de 300 membros, também foi estudado por um lingüista da SIL, Daniel Everett, hoje desligado da sociedade e professor da Universidade de Manchester. Segundo Everett, no pirahã não existem palavras para cores e números e não há nenhum sistema de contagem. Tampouco há palavras para quantidades, como cada, todo, muito e pouco. O sistema pronominal – aparentemente emprestado de outra língua – é o mais simples já registrado entre as línguas conhecidas. Existem apenas oito consoantes e três vogais. Não há orações subordinadas. Em pirahã, o falante só pode se referir a pessoas ou objetos presentes fisicamente diante dele ou a eventos que tenha presenciado. O povo parece não ter mitos de criação ou lendas e, apesar dos mais de duzentos anos de contato com comerciantes brasileiros, nenhum pirahã jamais aprendeu português. Os pirahã se comunicam igualmente por assobios e melodias.
Everett argumenta que a cultura da tribo restringe a sintaxe da língua e a capacidade cognitiva do povo. Segundo afirma, os pirahã “vivem no aqui e agora e toda a comunicação é feita através da experiência imediata dos falantes”; assim sendo, eles não precisariam de determinados recursos lingüísticos disponíveis nas outras línguas. Essa tese provocou um debate acirrado – ainda não resolvido – entre lingüistas do mundo todo. A razão é um truísmo da teoria lingüística segundo o qual certas propriedades estão presentes em todas as línguas, sem exceção, sendo elas que, em parte, diferenciam a linguagem humana de outros sistemas de comunicação, como a linguagem das baleias ou os sinais de trânsito. As línguas variam enormemente entre si, em vocabulário, sintaxe, fonologia etc., mas em todas elas é possível, por exemplo, remeter a contextos diferentes, no tempo e no espaço, da situação imediata do falante, ou referir-se a todos os elementos de um conjunto, como no pronome todos.
Essas e outras propriedades seriam inerentes à linguagem humana; logo, estariam presentes em todas as línguas naturais, não importa o grau de complexidade da cultura, não importa se os falantes conhecem ou não ciência, se têm ou se não têm matemática, escrita ou arte. O próprio Everett, cuja competência como lingüista não é contestada nem por seus oponentes, diz que hesitou anos antes de publicar seus achados. Se confirmadas, as conclusões a que chegou exigiriam uma revisão radical de conceitos fundamentais da lingüística moderna. Como lingüistas da SIL, Everett e sua mulher viveram quase vinte anos entre os pirahã. Ninguém os conhece melhor, ninguém conviveu tanto tempo com a tribo, o que torna as declarações ainda mais polêmicas. Não há nenhum lingüista com conhecimento suficiente para refutar, confirmar ou reproduzir os dados apresentados por Everett.
Os candidatos a lingüista-missionário da SIL passam por um treinamento básico de três semestres, um deles em nível de graduação e dois em nível de pós-graduação. O curso cobre as principais áreas da lingüística: fonologia, sintaxe, semântica e pragmática. Os alunos estudam também desenvolvimento de escrita para línguas orais, noções de antropologia, relações interculturais e fenomenologia das religiões. A partir daí, os que demonstram interesse maior pela lingüística partem para estudos acadêmicos na área. A bibliografia da SIL lista 1.600 monografias e 533 teses publicadas, além de mais de 8.000 artigos. Inclui também 8.200 livros e manuais de línguas. Há 450 traduções completas do Novo Testamento.
À parte as aulas teóricas, há um treinamento de sobrevivência na selva que dura três meses, incluído aí um estágio de trinta dias em alguma parte remota do continente de trabalho. Quando o destino final é uma região de conflito, como as florestas da Colômbia ou certos países africanos, há treinos que ensinam a lidar com guerrilheiros e milícias rebeldes. Aprende-se a fugir, caso haja captura. Há também preocupação com questões mais amenas. A SIL publica o livro Jungle Camp Cookbook, com orientações sobre como cozinhar sem leite, farinha de trigo, ovos, apetrechos de medição ou panelas, substituindo-os por ingredientes e utensílios locais.
A sociedade é proprietária de duas chácaras no Brasil, uma em Cuiabá, outra em Porto Velho. Alguns missionários moram nas chácaras, outros alternam entre as chácaras e as aldeias, outros moram somente nas aldeias. Cada missionário faz um arranjo próprio e é responsável pelo seu financiamento. A SIL recolhe dízimo para custear a administração dos trabalhos. Os fundos vêm da doação de amigos, família e igrejas. A associação elabora uma estimativa do montante que o missionário precisa angariar, levando em conta a região de destino e o número de filhos. As doações são para a família, não para cada membro do casal, e dependem da capacidade de arrecadação de cada missionário. Assim, não há relação hierárquica entre a função exercida na entidade – lingüista, secretário, diretor, piloto de selva, educador, tradutor, contador – e a soma em dinheiro de que o associado pode dispor. A cada quatro anos em campo, a família passa um ano no país de origem, buscando doações para os quatro anos seguintes.
Desde o início do trabalho com os nadëb, Rodolfo e Beatrice Senn recebem contribuições do mesmo grupo de 25 pessoas e igrejas. Isso lhes permite permanecer no Brasil por mais tempo, sem precisar sair de quatro em quatro anos para buscar doações. A família costuma tirar férias uma vez por ano para visitar a Argentina. Viagens à Suíça, só a cada seis anos, por seis semanas. Os filhos não gostam muito, não têm amigos lá. Estranham o clima e o estilo de vida dos parentes maternos em Berna e preferem a casa do avô paterno, numa zona rural remota no norte da Argentina. Beatrice diz que a única coisa de que sente falta são as montanhas de seu país natal; tem uma fotografia do imponente Matterhorn no quarto de dormir.
A sede européia da entidade mantenedora da SIL – a Wycliffe Bible Translators, também fundada por Cameron Townsend – fica a uma hora de trem de Londres, nos arredores da cidadezinha de High Wycombe, em meio à paisagem de colinas verdes, bosques e campos cultivados. Foi construída para abrigar crianças londrinas que fugiam dos bombardeios alemães durante a II Guerra Mundial. Hoje é usada para treinamento de lingüistas missionários. Na propriedade há alojamentos, salas de aula, biblioteca, dois refeitórios, salas de computador e projeção, além de piscina e quadra de esportes.
Robert Dooley, lingüista da SIL e autor do verbete sobre o guarani da Enciclopédia Internacional de Lingüística, tem 62 anos. É alto e magro, com bigode escovinha branco, cabelos grisalhos lisos, sobrancelhas cheias e também grisalhas. Fala manso, num português com forte sotaque americano. Estava em High Wycombe para dar aulas de análise do discurso a um grupo de tradutores da Bíblia, missionários europeus que trabalham com línguas minoritárias do Senegal.
Em 1973, com 29 anos, Ph.D. em matemática e recém-casado, Dooley queria ser missionário. “Na época, a única coisa que eu sabia fazer era matemática, nunca havia trabalhado com mais nada”, lembra. “Tentei achar uma missão que tivesse lugar para mim, mas não encontrei. Eu era bom matemático e gostava muito do meu trabalho. Queria usar minhas habilidades a serviço do Senhor.” Um dia, Dooley foi a uma palestra sobre tradução da Bíblia para línguas minoritárias. Recebeu ali um folheto da Wycliffe intitulado Matemáticos cristãos, onde estão vocês? Falava da relação entre lingüística e matemática. Explicava que matemáticos poderiam ser muito úteis em determinadas áreas da lingüística, ajudando a analisar as propriedades formais de línguas que ainda não tinham a Bíblia. Fora escrito por Ivan Lowe, físico de Cambridge e um dos lingüistas que trabalhavam com Mattoso Câmara e Darcy Ribeiro no Museu Nacional.
Dooley considerou o folheto um chamado de Deus. “Comecei a me perguntar o que valia mais: meus planos para a minha vida ou levar as escrituras a quem ainda não as tinha? Pesando uma vida contra muitas, não demorei muito a me decidir.” Já sua mulher, Kathie, não estava tão segura. Precisou ser convencida. Não se imaginava passando a vida na floresta, longe de tudo. Ambos haviam sido criados na cidade, sem muito contato com a natureza. Ele é de Oklahoma, ela é do Texas. Nenhum dos dois conhecia a América Latina.
Kathie Dooley diz que Deus a fez lembrar-se de certas experiências que tivera na infância, com as galinhas da avó e em passeios no bosque quando era bandeirante. Se eram memórias agradáveis, pensou, talvez fosse um sinal de que seria possível adaptar-se à vida no interior do Brasil. Mas ela continuava preocupada com a idéia de criar os filhos – o primeiro era ainda bebê – no meio da floresta, num país estranho. Outro problema era sua hipoglicemia, condição que dificulta a vida longe de atendimento médico. “Esses aspectos práticos nem tinham me passado pela cabeça”, comenta o marido. “Eu só estava pensando na lingüística.”
Apesar das reservas, os Dooley resolveram fazer o curso da SIL e foram aceitos. A sociedade só decide se aceita um candidato a missionário depois da conclusão do curso. É preciso mostrar aptidão para línguas, lingüística e tradução ou alfabetização, além de resistência física, testada no treinamento de selva. Os Dooley fizeram parte do último grupo a treinar em Chiapas, no México. Logo depois a guerrilha inviabilizou o trabalho na região.
Ao longo da formação, que se estende por quase dois anos, Kathie se curou da hipoglicemia. O casal considerou que era mais um sinal de Deus e veio para o Brasil, onde recebeu a missão a que ambos, dali em diante, dedicariam toda a carreira: traduzir a Bíblia para o guarani. Instalados no interior do Paraná, viveram os primeiros dez anos sem luz e sem água corrente. Ao contrário dos Senn, não tinham um rio por perto para banhos ou como fonte de água. Usavam água de um poço. Um dia, descobriram que ele estava sendo usado por outras pessoas, gente que tomava banho ali. Os dois pegaram hepatite. Ela estava grávida da segunda filha, Liz, que nasceria em Brasília. O trabalho de tradução levou 29 anos. O resultado é um dos raros exemplos em que a Bíblia inteira – novo e antigo testamentos – ganhou versão em língua nativa.
Traduzir qualquer obra ocidental para línguas de cultura tão radicalmente diferente é tarefa árdua. Como fazer que referências bíblicas a objetos, lugares e costumes ganhem sentido para quem nunca viu ou ouviu falar em hebreus, procônsules e camelos que passam, ou não, pelo buraco de uma agulha? A idéia de dízimo também é de difícil tradução, antes de tudo porque as línguas indígenas raramente têm palavras para todos os números. O mais comum é haver apenas palavras para um, dois e três – três sendo também usado para significar muitos. O nadëb tem palavras que servem para números até vinte, desde que complementadas com gestos para indicar os dedos das mãos e dos pés, o que não é viável num texto escrito.
Uma solução possível é adaptar as metáforas da Bíblia à cultura local – por exemplo, trocando camelo por anta. Afinal, antas também não passam pelo buraco de uma agulha. Ocorre que, para os missionários, a Bíblia não é apenas um texto sagrado. É também historicamente correto. Se lá está dito que Jesus entrou em determinada cidade pela porta, é exatamente o que a tradução dirá, pois não se pode reinterpretar um fato histórico. Mas como explicar em guarani ou nadëb o conceito de cidade murada?
É para contornar esses problemas que os lingüistas da SIL fazem uso do que chamam de analogia redentora. Isso significa empregar um conceito ou crença da cultura nativa para explicar – e às vezes até traduzir – um conceito bíblico. Os mamaindé, por exemplo, acreditam que depois da morte o espírito segue por uma estrada muito larga, no fim da qual está o espírito do jacaré, que engole o do índio. Mas há uma outra estrada, estreita, onde existe uma porta escondida, difícil de encontrar. Essa estrada leva à Casa dos Bons Espíritos. Ali o mamaindé viverá feliz. Para encontrar a porta oculta, é preciso contar com a ajuda dos espíritos dos antepassados. Quando morre um mamaindé, o pajé canta para alertá-los de que alguém está chegando. Os antepassados, entretanto, nem sempre querem ajudar. Às vezes aparecem, às vezes não. Se não gostavam do morto ou de sua família, não ajudarão. Se eram preguiçosos em vida, serão também na morte e não comparecerão ao encontro. Se estiverem dormindo, não ouvirão o canto do pajé e também não vão aparecer. Eberhard, o fonólogo especialista em mamaindé, usou essa crença para introduzir a idéia de Jesus como um espírito bom, que nunca dorme nem tem preguiça. Jesus garantiria a vida eterna – possibilidade não prevista na mitologia mamaindé. “Não pretendo convencer os índios a se converter ao cristianismo. Quero oferecer a eles a opção de Jesus e deixar que eles decidam.”
Os mamaindé ainda não se decidiram. Segundo Eberhard, a tribo não pode ser considerada cristã, apesar dos quase vinte anos de trabalho da SIL. “Os mamaindé incorporaram Jesus à sua religião como um espírito bom, mas ainda não têm uma hierarquia em que haveria um único Deus ou um espírito criador de tudo, inclusive dos outros espíritos”, diz ele.
Na mesma situação parecem estar os guarani, que, para Robert Dooley, “têm uma cultura muito independente, tolerante, com respeito pelas opiniões divergentes. Poucos deles são cristãos, no sentido de pertencer a uma igreja estabelecida. Há muitos que foram batizados na igreja católica, mas não praticam a religião”.
Ernesto Morgado Belo, antropólogo brasileiro vinculado ao Laboratório de Etnologia e Sociologia Comparativa da Universidade Paris X, explica que os índios brasileiros em geral não desenvolveram o que se poderia chamar de religião estruturada: “Eles não têm religião. Têm cultura”. Essa cultura é formada de crenças, lendas, mitos e hábitos a que muitas vezes se incorporam as crenças, lendas, mitos e hábitos de outros grupos indígenas, assim como dos brancos. É um processo que vem ocorrendo desde as missões católicas do século XVI. “Não é como se os evangélicos entrassem num vilarejo muçulmano, onde haveria um choque entre sistemas fechados. Os índios brasileiros incorporam as novidades e as interpretam de acordo com sua própria cultura. Os missionários percebem que o grande obstáculo à evangelização não é propriamente a religião indígena, mas a cultura. Antes da conversão religiosa, há toda uma conversão civilizatória.” Morgado Belo, que viveu entre os nadëb do Roçado, afirma que, “nas cartilhas preparadas pela SIL para alfabetização dos nadëb, constata-se claramente essa tentativa. Há uma ênfase nos valores da família, do asseio, da monogamia, da sobriedade. A mulher indígena aparece varrendo a casa, coisa que os maku nunca fizeram. Fala-se muito do valor do trabalho, da idéia de que nada vem de graça.”
Os nadëb, à diferença dos mamaindé e dos guarani, são cristãos. Pertencem a uma igreja estabelecida por eles próprios, têm cultos na língua nativa várias vezes por semana, com ou sem a presença dos missionários. Oram e lêem a Bíblia em nadëb. Cantam hinos de louvor a Jesus, com letras que compuseram para as melodias tradicionais. Para Joaquim, o cacique, ser crente significa “não beber, não matar o inimigo, não casar com várias mulheres, viver em paz”.
A aldeia nadëb é próspera, organizada, limpa. A tribo goza de excelente reputação em Santa Isabel. Mara, mulher do Zé da voadeira, diz: “O cacique Joaquim é muito benquisto aqui. Quando os nadëb vêm à cidade, não pedem esmola, não tomam cachaça, não brigam. Trazem coisas para vender e se sustentam sozinhos. São muito diferentes dos outros índios que moram na região.” Quando os Senn chegaram ao Roçado, em 1996, já havia trinta anos de presença esporádica da SIL. Ainda assim, só Joaquim e dona Francisca, sua parente, diziam-se cristãos. Ambos haviam passado parte da infância em Santa Isabel, como filhos de criação de uma família de brancos.
Em 2000, dona Francisca mandou a filha estudar em Santa Isabel. Aos 13 anos, Socorro engravidou de um rapaz da cidade. Quando foi ao médico, descobriu que tinha câncer em estado avançado. Rodolfo e Beatrice a levaram para o hospital em Porto Velho. A menina sofreu uma operação de urgência e perdeu o bebê. Teve um dos ovários retirado. Sua mãe, que a acompanhara a Porto Velho, foi avisada pelos médicos de que havia pouco a fazer. Apesar da cirurgia e do tratamento quimioterápico, ela provavelmente morreria.
Um dia, ainda na cama do hospital, Socorro sentiu uma presença a seu lado. Estava de olhos fechados. Alguém pegou na sua mão e lhe disse em nadëb: “Não se preocupe, Socorro, você vai ficar boa”. A menina pensou: “E não é que é verdade mesmo? Jesus existe!”. Chamou a mãe, contou o ocorrido e a consolou. Depois de meses de tratamento, Socorro se curou. Os médicos a advertiram, no entanto, de que nunca poderia ter filhos. O relato da visão milagrosa se espalhou pela aldeia; a cura foi atribuída a Jesus, apesar da cirurgia e dos meses de quimioterapia no hospital em Porto Velho. Aos poucos, os outros índios nadëb foram se convertendo. O impulso final para a conversão foi a gravidez de Socorro. Contrariando o que ouvira dos médicos, há dois anos ela teve um bebê, Felipe.
Os nadëb decidiram, então, construir uma igreja nos moldes da casa de rituais de suas tradições, conforme alguns índios mais velhos ainda se lembravam. É uma oca redonda, com teto de palha. Onde habitualmente haveria uma cruz, há uma televisão com DVD. Há bancos toscos, feitos na aldeia. O culto acontece três ou quatro vezes por semana, um deles sempre aos domingos, às 7 e meia da manhã. Os Senn participam do culto apenas como assistentes. O cacique Joaquim e seu ajudante, Eduardo, irmão de Socorro, são os oficiantes. Os índios cantam, ouvem os sermões, entram e saem constantemente da igreja durante o culto, que dura pouco mais de uma hora. Muitos acompanham lendo a tradução dos evangelhos, encadernada em espiral com capa de plástico.
A televisão e o DVD são para passar os filmes da SIL. São três: a história de Jesus, a vida do profeta Jeremias e um filme de natureza, sobre baleias e golfinhos. O “filme de Jesus”, como é chamado pelos missionários, é traduzido e dublado para todas as línguas nativas com que a SIL trabalha. Uma equipe volante de dublagem passa duas semanas em cada aldeia e grava os membros da tribo lendo ou repetindo as falas na língua nativa – no caso, o resultado é que Jesus ressuscita Lázaro em nadëb. A tribo têm um gerador, que é ligado quando eles querem assistir aos filmes ou quando há transmissão de jogos de futebol, vistos em outra televisão, em outra parte da aldeia. Depois do culto de domingo, todos se reúnem no campo para jogar bola. Há pouco tempo, os nadëb ganharam um torneio indígena organizado pelo cacique Joaquim.
Das quase sete mil línguas faladas hoje no mundo, apenas 10% resistirão até o século XXII. No Brasil, desde a conquista, perderam-se 85% das línguas. Segundo Bruna Franchetto, “não há dúvida quanto às conseqüências da agonia e do desaparecimento de uma língua com relação à perda da saúde intelectual do seu povo, das tradições orais, de formas artísticas, de conhecimentos, de perspectivas ontológicas e cosmológicas”. Preservar a língua é uma maneira de garantir a sobrevivência da cultura, pelo menos em certos aspectos. É uma corrida contra o tempo na qual a SIL desempenha um papel importante, apesar das críticas que lhe são feitas por estudiosos brasileiros, com maior ou menor justiça.
Como parte de seu empenho em preservar línguas, a SIL criou o maior catálogo lingüístico do mundo, o Ethnologue, que arrola “todas as 6.912 línguas vivas”. O material está na Internet e é aberto ao público. Pode ser copiado de graça para fins de pesquisa e ensino, sem necessidade de autorização; apenas o uso comercial é controlado. A cada quatro anos, é atualizado e impresso. O segundo maior catálogo de línguas do mundo foi elaborado pela Unesco – é o Livro Vermelho das Línguas Ameaçadas. A abrangência dos dois não se compara; nos arquivos da Unesco, não há nem sequer uma seção para línguas indígenas do Brasil ou da América do Norte.
Reconhecendo o trabalho da SIL, a ISO, Organização Internacional de Normatização, decidiu em 2005 adotar os códigos do Ethnologue como referência para línguas vivas. A norma resultante é a ISO 639-3, que atribui à instituição a responsabilidade de administrar o padrão ISO de referência lingüística, supervisionando “a inclusão de novos códigos de línguas [leia-se: novas descobertas] e a combinação ou remoção dos códigos existentes”. Em outras palavras, a SIL decide o que é língua, o que é dialeto, qual língua está extinta, qual pode ainda ser considerada língua viva. Cada língua, incluindo o nadëb, o mamaindé, o pirahã, o kayabi e o guarani, receberá um código de três letras, para referência internacional e acesso a dados de descrição e análise lingüística. Assim, quando chegar o século XXII, os falantes das últimas 691 línguas poderão ao menos estudar, e quem sabe até aprender, as outras 6.221 que já terão desaparecido. Será possível saber que, em nadëb, P’ooj ub, sahõnh hå ta du dahäng noo gó m’, sahõnh badäk hahþþh P’op Hagä Doo pahunh quer dizer “No princípio Deus criou os céus e a terra. A terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo, mas o Espírito de Deus pairava sobre as águas” (Genesis 1:1).

Profissionários

André Filipe, Aefe!

A profissão na missão de Deus e a missão de Deus como estilo de vida.

“Alguns irão ganhar seu salário na edificação da comunidade como especialistas no planejamento de cidades ou conselheiros familiares, enquanto outros o receberão mediante evangelismo ou carpintaria. A maneira como o indivíduo ganha seu sustento acaba sendo incidental. A verdade é que a vocação exige tudo de nós”[i].

Este é um pequeno ensaio que escrevo a partir do tempo em volta de estudantes, como eu, ansiosos por servir a Deus, sem, no entanto, saberem o que fazer com seu diploma universitário. Resolvi, por isso, escrever algumas considerações, sugestões e apontamentos, porque creio que existe um perfil missionário a ponto de incendiar, e as igrejas e agências missionárias já podem começar a soltar suas faíscas.

Chamo de profissionário não somente o fazedor de tendas. Também não se restringe àquele profissional que dedica suas férias de trabalho para um projeto missionário e nem, por outro lado, àquele profissional que largou sua profissão e atua integralmente na plantação de igrejas. Profissionário é aquele que possui uma formação diferenciada da teologia, e atua nela, mas tem o trabalho missionário como estilo de vida. Explicaremos mais à frente as implicações deste estilo de vida.

Desde os povos mais antigos, as pessoas migram para um local que traga a elas segurança e provisão. Era assim quando os povos antigos formavam comunidades à beira dos rios, por exemplo. É assim também quando as pessoas migram para as metrópoles, em busca de melhor emprego ou oportunidades. É assim quando buscamos um local mais seguro, mais próximo da família. O profissionário, pelo contrário, vai até os desertos. Todas as decisões da vida de um profissionário são tomadas a partir do projeto missionário que Deus colocou em seu coração, isto é, onde morar, onde trabalhar, quando terá filhos, se será ou não sustentado pela igreja, são decisões tomadas com o foco no seu projeto missionário, mesmo que este projeto seja simplesmente uma presença cristã num campo dominado pelo inimigo, levando a própria oração e a oração da igreja, hasteando a bandeira do Reino.

Quanto à formação: um profissionário deve ter o treinamento bíblico e transcultural que a agência missionária o exigir. Pode ser um problema de orgulho não se sujeitar ao treinamento não universitário. Além do mais, poucos anos a mais de estudo podem tirar muitos anos de problemas no campo. O antropólogo e missionário Ronaldo Lidório aponta que a formação do missionário deve ser de antropologia cultural, teologia bíblica e aprendizado de línguas. Todo este treinamento é necessário, segundo ele, porque “grande parte destes povos não alcançados já sofreram algum tipo de tentativa de contato missionário ou exposição do evangelho no passado, sem sucesso, colocando-os na categoria de ‘mais difíceis’ em algum nível, e muitos deles a nível lingüístico[ii]”.

Quanto à escolha do campo: Abraão, ao se separar de Ló, permitiu que ele escolhesse o caminho a seguir. O sobrinho escolheu o lugar que lhe traria melhores oportunidades de vida. Abraão, assim, seguiu pelo outro caminho, o pior caminho[iii]. Mas quem traçou o caminho de Abraão, na verdade, foi Deus. Abraão sabia que o pior deserto floresce com as pegadas do servo de Deus. O local não é escolhido pela segurança ou pelas oportunidades de emprego, mas o local é escolhido por Deus e, sobretudo, para os lugares que mais precisam dEle.

Outro ponto importante, apontado por Os Guinnes[iv], é sobre o aspecto empreendedor do chamado. O chamado missionário, sobretudo o profissionário, é empreendedor. Sob muita oração e orientação de Deus, segue-se planejado e ousadamente os passos indicados por Deus. Paul Stevens também aponta algumas categorias didáticas para pensarmos sobre quais delas melhor se encaixam ao nosso perfil, são os países fechados, parcialmente cristãos, nominalmente cristãos ou pós-cristãos[v]. Acrescentaria ainda os povos não alcançados, aqueles que nunca receberam a mensagem do evangelho.

Quanto ao projeto: o profissionário deve direcionar o seu projeto interseccionando a necessidade do povo com sua formação. Não é profissionário aquele que não envolve sua formação específica em seu projeto. A missão do profissionário, com seus conhecimentos específicos, vem para corrigir a opressão e o desconcerto que o pecado causou no mundo na criatura de Deus: o advogado trazendo justiça, o médico saúde; o estudante é a melhor pessoa, auxiliada por Deus, para saber onde mais é útil sua ciência.

Há, ainda, missões que trabalham especificamente com pessoas com conhecimento específico, como as agências que possuem pilotos de avião, agentes de saúde e agentes sociais ou ministérios de tradução da Bíblia, pedindo lingüistas, educadores etc. Por outro lado, as agências missionárias em geral necessitam de missionários de base com formação específica.

Além do mais, a formação universitária tem sido muito útil para a entrada do missionário onde há perseguição religiosa, seja pela política, seja pela religião, como é o caso de algumas áreas indígenas no Brasil.

Quanto ao sustento: um profissionário pode ser auto-sustentado, desde que o seu emprego remunerado esteja como parte de seu projeto. Ele pode ser parcialmente sustentado por um trabalho remunerado quando o salário não for suficiente, mas o trabalho é importante no projeto. Então, a igreja deve ajudá-lo no complemento. Porém, um profissionário deve ser sustentado integralmente pela igreja quando atuar numa comunidade tão pobre que não poderá sustentá-lo. Outra forma é o auxílio financeiro da igreja somente com as despesas de projeto, como a construção de um templo, as passagens de ida e volta, uma emergência, etc.

Quanto ao envio: outra característica do profissionário é que ele deve ser enviado por igrejas, isso porque a missão de Deus é da igreja, mesmo no caso de ser auto-sustentado. Ir ao campo sem uma igreja pode ser também um problema de orgulho. O profissionário precisa da cobertura de oração que as igrejas oferecem e precisa prestar contas a elas.

O profissionário precisa ser, também, agenciado. As agências missionárias, na maioria das vezes, estão preparadas e têm experiência logística e pastoral para auxiliar os missionários numa emergência, como uma guerra que estoura de repente, um grave acidente onde não há hospital, etc.

Profissionais em missões:

Uma história que ainda está sendo escrita.

Délnia bastos

Francisco e Ana sempre se envolveram com as questões sociais e políticas do Brasil. Mas um dia sentiram que poderiam ser úteis também fora, em algum lugar ainda mais necessitado. Estudaram missões e foram para Moçambique. Depois de algumas experiências frustrantes, juntaram-se a uma organização humanitária cristã e serviram por uns bons anos naquele país. Paralelamente ao exercício profissional, apoiaram grandemente o trabalho evangélico local. Isso foi na década de 90.

Qual o pano de fundo histórico para que este casal seguisse o exemplo de outros e se tornasse fazedor de tendas? Vejamos um pouco (muito pouco) da história do envolvimento de profissionais em missões no Brasil, dividindo-a em três ondas.

A primeira onda (1885-1950)

A primeira onda se caracterizou pelos profissionais missionários que vieram para a nossa terra. Muitos desconhecem que o primeiro missionário a se fixar de forma permanente no Brasil foi o free-lancer Robert Kalley (1809-1888) — intitulado médico, missionário e profeta por um de seus biógrafos.1 O Dr. Kalley veio da Escócia em 1885, com sua segunda esposa, uma musicóloga que fundou uma instituição de ajuda a carentes. Dr. Kalley tanto pastoreava como praticava a medicina. Ajudou a debelar a epidemia de cólera que aconteceu em Petrópolis, em novembro de 1855, e a epidemia de febre amarela no Rio de Janeiro, em julho de 1858.2

Ele e dona Sara foram os primeiros. Mas vieram outros e agradecemos a Deus por todos esses que, muito antes de usarmos o termo “fazedores de tendas”, se deram como profissionais e missionários para o nosso povo e marcaram a nossa história.
É importante citar aqueles que iniciaram e apoiaram o movimento estudantil no Brasil. Cem anos depois da vinda do casal Kalley, Ruth Siemens, professora e diretora de escola, e Robert Young, professor universitário, fundaram a Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB). Eles não abandonaram suas profissões para ministrar entre os estudantes; pelo contrário, sua vida profissional também produzia frutos e servia de modelo para seus discípulos.

A segunda onda (1950-2000)

A seguir, começaram a surgir profissionais brasileiros comprometidos com a missão. E foram muitos! Professores que ensinaram tanto na sua área de conhecimento como o evangelho. Arquitetos e engenheiros que contribuíram, muitas vezes de forma voluntária, com projetos de construção de um sem-número de igrejas e instituições para-eclesiásticas por este Brasil afora. Médicos e demais profissionais de saúde que se dedicaram ao cuidado físico, principalmente dos mais necessitados; fundaram clínicas e hospitais. Administradores, contadores, secretários e secretárias, que dedicaram seus dons e talentos em instituições sociais. Lembramos do exemplo de alguém que completou 40 anos de ministério em 2003: Robinson Cavalcanti. Ele mesmo diz: “Dou graças a Deus por […] ter minha própria fonte de renda secular (ser um “fazedor de tendas”), o que me tornou menos vulnerável aos sistemas eclesiásticos”. 3

Assim, já estamos falando da segunda onda do movimento de profissionais missionários. Não se sabe exatamente quando o termo “fazedores de tendas” passou a ser usado no Brasil. Mas foi a partir de 1976, no histórico Congresso Missionário, realizado em Curitiba, pela ABUB, que vimos, com certeza, a concretização da idéia que o termo transmite. Nas palavras de Dieter Brephol:
Temos visto, em todo o Brasil, jovens dando à sua vida profissional um sentido totalmente novo. Estudantes de medicina, em busca de oportunidades missionárias em suas vidas, entregam sua profissão à disposição de Cristo. Estudantes de letras e comunicações pesquisam possibilidades de usar seus conhecimentos na obra do Senhor. Psicólogos estudam maneiras de contribuir com a sua especialidade no aconselhamento pastoral, no serviço aos membros da igreja e à sociedade. Na área de educação, na área técnica, temos visto jovens orando pela orientação de Deus, buscando-lhe a vontade, para darem à sua profissão um sentido vocacional. Deus está chamando jovens de todo o Brasil, pedindo-lhes suas vidas, profissão, futuro, sonhos — tudo — para serem gastos a seu serviço!4

E no Pacto do Congresso, lemos:

Reconhecemos que a missão não pode ser um departamento isolado da vida da Igreja, fazendo parte da própria essência desta, pois “ou a igreja é missionária ou não é igreja”; assim que a missão envolve a cada cristão na totalidade de sua vida, substituindo, pelo sacerdócio universal, o errôneo conceito da exclusividade de ser missionário por profissão. Nós estamos profundamente preocupados pela falta desta visão missionária na Igreja no contexto latino-americano.5

Iniciativas mais ousadas começaram a surgir. Os profissionais brasileiros viram que também poderiam dar sua parcela de contribuição em missões transculturais — não se tratava de deixar de lado a missão integral, mas vivê-la em campos distantes, em outras culturas. Vimos profissionais alcançando indígenas brasileiros com os barcos de assistência integral na Amazônia, por exemplo. Vimos outros indo principalmente para países da África de língua portuguesa e, depois, Timor Leste. Nesta fase, a Visão Mundial Internacional teve um papel preponderante. Acreditou nos profissionais brasileiros e os enviou para o campo transcultural. O que caracterizou esta segunda onda foi a questão da independência, em todos os sentidos: o profissional era auto-enviado, auto-sustentado, auto-suficiente… Bom, na verdade ele não era tão “auto” assim… Por isso mesmo esse modelo teve muitas e sérias limitações. O profissional, sem apoio pastoral, nem compromisso formal com sua igreja local, nem apoio de uma agência missionária, nem uma equipe de campo, voltava esgotado. Como os missionários convencionais, ele dava muito de si, e nada recebia. Por outro lado, ele desconhecia outros modelos e agências no Brasil que pudessem apoiá-lo. Nessa fase, foram fundamentais algumas publicações, que eram o único suporte desses fazedores de tendas: Jesus Cristo, Senhorio, Propósito e Missão (ABU Editora, 1978), que é o compêndio do Congresso Missionário de 1976; Fazedores de Tendas Hoje! (Sepal, 1992); Profissionais em Missões – Um Guia para o Fazedor-de-Tendas (Vida Nova, 1995); e A Hora e a Vez dos Leigos (ABU Editora, 1998).

Em 1983 o Centro Evangélico de Missões (CEM) surgiu como uma escola missionária com forte ênfase no preparo de fazedores de tendas. Já em 1993, num evento especial e histórico, o livro Fazedores de Tendas Hoje! foi lançado no CEM, com a presença do autor J. Christy Wilson, ex-professor no Afeganistão por muitos anos, do médico em Angola Stephen Foster, e de Robson Ramos, diretor da PROEMI – Profissionais em Missão.

Esta foi uma fase de despertamento, conscientização, primeiras experiências. Mas a estratégia ainda precisava amadurecer.

A terceira onda (nossos dias)

E assim entramos na terceira onda, que é muito recente. Trata-se de uma fase mais articulada. Reconhecidas as limitações da fase anterior, os próprios ex-fazedores de tendas, os fazedores de tendas atuais e os futuros fazedores de tendas procuram se conhecer, se associar, trocar informações e trabalhar juntos.

No dia 5 de novembro de 2001, último dia do Congresso Nacional da Aliança Bíblica Profissional, foi organizada a AFTB – Associação de Fazedores de Tendas do Brasil. A AFTB surgiu ligada à ABUB e à TIE – Tentmakers International Exchange.

Outro acontecimento histórico foi a parceria estabelecida entre o Centro Evangélico de Missões e a missão Interserve, que envia profissionais para o Mundo Árabe e partes da Ásia. Desde 10 de agosto de 2003, a Interserve no Brasil, com o apoio da Interserve do Canadá, tem desenvolvido esforços para que brasileiros também se juntem aos cerca de 600 profissionais que servem nessa área do mundo.

Esta fase está apenas começando, mas temos visto Deus unir forças e abençoar. É a história do movimento que está sendo escrita hoje. Igrejas e agências missionárias estão se abrindo para o fazedor de tendas. Ainda é uma minoria, mas é um começo. A questão estratégica é cuidadosamente avaliada. Sabe-se que em 60 nações não-alcançadas com o evangelho, a maioria nações empobrecidas, o missionário convencional simplesmente não entra. Por isso muitos especialistas têm dito: é a hora dos fazedores de tendas. E o Brasil começa a participar deste movimento global. Algumas palavras que fazem parte do novo discurso são: a) missão integral: o mandato cultural e o mandato evangelístico juntos são a base da vocação do profissional cristão; b) preparo: o fazedor de tendas deve ter um bom preparo, como todo missionário; b) humildade: o auto-sustento deixou de ser a característica principal do fazedor de tendas, pois muitos precisam de recursos adicionais para viverem em países que não podem pagar bons salários; a humildade também é necessária para aprender língua e cultura diferentes, e para trabalhar em equipe; c) envio pela igreja local: e não “auto-envio”, como acontecia anteriormente; d) equipe: o fazedor de tendas passa a fazer parte de uma equipe no campo, evitando o isolamento; e) excelência profissional: não se pode fingir de profissional nem tampouco “usar” a profissão apenas para obtenção de visto; espera-se que o fazedor de tendas tenha consciência de que também está servindo a Deus em sua profissão no contexto da missão integral; f) parceria: na maioria das vezes é preciso realizar uma parceria entre o fazedor de tendas, a igreja local e uma ou mais agências missionárias; além da parceria com as nações historicamente enviadoras, unindo a experiência destas com o nosso entusiasmo e outros aspectos da nossa cultura; g) apoio pastoral: tanto quanto os outros, os profissionais precisam de cuidado pastoral integral; h) “reciclagem”: o profissional pode e deve interromper seu trabalho no campo eventualmente para aprimorar-se profissionalmente. Francisco e Ana voltarão para o campo, agora nos moldes da terceira onda. Desta vez, eles vão para um país do Mundo Árabe. Serão enviados pela igreja local e por duas agências missionárias: uma denominacional, brasileira, e outra interdenominacional e internacional, que fizeram uma parceria entre si. Terão apoio financeiro de várias igrejas brasileiras, já que lá não receberão salário — diferentemente da experiência anterior em Moçambique. Não terão mais a facilidade de usar o português. Precisam aprender mais duas línguas para viver entre um povo “não-alcançado”. Farão parte de uma equipe internacional no campo. Terão apoio pastoral. Algumas vezes participarão de um encontro maior com outros fazedores de tendas em situação similar. Darão tudo de si aplicando seus conhecimentos num trabalho de desenvolvimento comunitário integrado. Criarão os filhos numa outra cultura, bem diferente da brasileira. Os desafios são maiores, mas também é maior o apoio que terão. O que acontecerá com eles e com muitos outros só Deus sabe com certeza. Como os brasileiros se comportarão em equipes multiculturais? A igreja brasileira será fiel no sustento desse novo modelo de missionário? Conseguiremos cobrir os orçamentos? Seremos capazes de prestar-lhes o apoio pastoral que precisam? Que Deus nos ajude a responder a estas perguntas com o melhor de nós. Assim continuaremos a escrever a história dos profissionais missionários brasileiros e ela ficará cada dia mais bonita, para a honra e glória do Senhor da Seara!

Notas

1 CARDOSO, Douglas Nassif. Robert Reid Kalley: médico, missionário e profeta. Edição do autor: 2001. 176 p.
2 CÉSAR, Elben M. Lenz. História da Evangelização do Brasil; dos jesuítas aos neopentecostais. Viçosa: Ultimato, 2000. p. 83.
3 CAVALCANTI, Robinson. Viver é pensar; as alegrias e tristezas de um autor cristão. Ultimato, Viçosa, nov./dez. 2003, p. 41.
4 BREPHOL, Dieter et. al. Jesus Cristo: senhorio, propósito, missão. São Paulo: ABU Editora, 1978. p. 5-6.
5 Idem. p. 123-124.

Texto baseado em palavra proferida em 28 de outubro de 2003 no fórum temático “Ministério do Povo de Cristo/Missão Integral” durante o Segundo Congresso Brasileiro de Evangelização, em Belo Horizonte, MG.