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Artigos das mais diversas disciplinas da missiologia

Especialização Lato Sensu em Antropologia Intercultural

PÓS GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA INTERCULTURAL (2012)
Área de Conhecimento (CNPQ): 7.03.01.00-00 – Antropologia

Temos o prazer de informar a abertura das inscrições para a ESPECIALIZAÇÃO LATO SENSU EM ANTROPOLOGIA INTERCULTURAL a ser realizada em Manaus, Amazonas.
Este curso é uma iniciativa da parceria entre a UNIEVANGELICA e o INSTITUTO ANTROPOS e tem como principal alvo investir na qualificação de missionários, pastores e pesquisadores a frente de projetos e ministérios, sobretudo em ambiente intercultural.

É uma PÓS GRADUAÇÃO:

· Em sistema modular a fim de proporcionar maior oportunidade para quem não reside em Manaus
· Organizada em 6 disciplinas, com um total de 375 h/a e orientação para o desenvolvimento do trabalho final (TCC)
· Ministrada por professores mestres e doutores em suas áreas de estudo

Disciplinas:

· Metologia Científica – Prof. Dr. Eliseu Vieira Machado Júnior
· Teoria Antropológica – Prof. Dr. José Roberto Bonome
· Antropologia da Religião – Prof. Dr. Alfredo Ferreira de Souza
· Antropologia Aplicada –Profa Dra Keila Pinezi
· Antropologia dos Povos Tradicionais da Amazônia – Prof. Dra. Maria do Perpétuo Socorro Rodrigues Chaves
· Etnologia Indígena –Prof. Ms. Edward Mantoanelli Luz

Coordenação: Prof. Dr. Ronaldo Lidório

Datas:
As 6 disciplinas serão ministradas em dois blocos:
1º Bloco: 5 a 23 de março de 2012 (3 disciplinas e orientação do TCC)
2º Bloco: 10 a 28 de setembro de 2012 (3 disciplinas e orientação do TCC)

Investimento:

– R$ 200,00 (Para finalização da Inscrição)
– 4 prestações de R$ 200,00 durante o curso (março, abril, maio, junho de 2012)

Pre-requisitos:
· Terceiro grau completo para o certificado de Especialização lato sensu em Antropologia Intercultural – emitido pela UNIEVANGELICA
· Segundo grau completo para o certificado de Antropologia Intercultural – Curso por Extensão – emitido pela UNIEVANGELICA
· Preenchimento de ficha de inscrição e ficha de informação complementar

Inscrição:

1. Solicitar e preencher as fichas de inscrição. Envia-las preenchidas para a comissão de seleção: Email: equipe.antropos@terra.com.br
2. Aguardar receber a confirmação de sua vaga. Após a confirmação, favor enviar via email (para: equipe.antropos@terra.com.br) os seguintes documentos (anexados ou escaneados):
a) Cópia do RG e CPF
b) Currículum Vitae
c) Foto 3×4 recente
d) Cópia do diploma de Graduação
e) Comprovante de pagamento da taxa de inscrição (R$ 200,00), que pode ser feito em um dos bancos relacionados, em favor da UniEvangelica:

Banco do Brasil – CC 5099-7 Agência 3388-X
Banco Real – CC 2708228-5 Agência 0015

Local: Manaus/AM

Informações e Programa Geral do Curso:
· Site: www.instituto.antropos.com.br (sessão Cursos)

· Email: equipe.antropos@terra.com.br

[Livro] História do Movimento Missionário, Hagnos

História do Movimento Missionário

Autor: GONZALEZ, JUSTO L. e CARDOZA-ORLANDI, CARLOS F.
Editora: HAGNOS

ISBN: 857742040x
ISBN-13: 9788577420407
Livro em português
Encadernado
– 21 x 14 cm 1ª Edição – 2010

Este livro apresenta a história da expansão do cristianismo, servindo de chamado e advertência. Chama a linha daqueles que antes deram testemunho de sua fé, e adverte do perigo do ser humano imaginar que, por ser cristão fiél, não precisa se preocupar com as consequências de suas ações e atitudes.

[Revista Online] MissioNews

Link: http://www.missionews.com.br/v2/

“Esta Publicação Online objetiva apresentar textos, artigos, dissertações, informações e resenhas que colaborem para a construção do pensamento teológico e missiológico em nossos dias.

A Revista de Missiologia Online é uma iniciativa associada ao Instituto Antropos e conta com um expressivo Corpo de Consultores bem como Autores e Colaboradores que participam intensamente na produção de um bom trabalho.

Esta presente Publicação Online é uma iniciativa gratuita e voluntária. Além dos textos apresentados a cada edição há um menu complementar com artigos, informações e muito mais.

Para o estudo de assuntos antropológicos acesse a Revista de Antropologia Online no endereço www.revista.antropos.com.br.

Para conhecer ferramentas missionárias nas áreas de pesquisa étnica ou urbana, cursos online, e consultoria linguística, missiológica e antropológica, conheça o Instituto Antropos no endereço www.instituto.antropos.com.br.

Esperamos que esta Revista de Missiologia Online colabore com sua pesquisa, estudo e reflexão.”

[Revista Online] Antropos

Link: http://revista.antropos.com.br/v3/

Antropos – Revista de Antropologia – apresenta aqui a sua versão Online que é resultado de iniciativas acadêmicas na construção de um ambiente para a publicação de material relevante no estudo das Ciências Sociais. Seu objetivo é publicar artigos, dissertações e resenhas que possam servir de construção de pensamento e atualização de conhecimento para a comunidade antropológica.”

Intituto Antropos

Link: http://instituto.antropos.com.br/

“É uma iniciativa que atua nas áreas de Antropologia, Pesquisa Sociocultural e Missiologia Aplicada sob coordenação de Ronaldo e Rossana Lidório e com a colaboração de diversos consultores técnicos voluntários.

O Instituto Antropos é vinculado à Agência Presbiteriana de Missões Transculturais (APMT) da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) e atua em parceria de trabalho com o Departamento de Assuntos Indígenas da AMTB (DAI-AMTB), Missão AMEM, Projeto Amanajé, Conselho Nacional de Pastores e Líderes Evangélicos Indígenas (CONPLEI), Aliança Evangélica Mundial (WEA) e diversas outras iniciativas missionárias, além da Igreja brasileira e corpo missionário de nosso país. Conta com um Corpo de Consultores técnicos (ver Quem Somos), tradutores e pesquisadores voluntários que suprem o portal com material relevante.

O Instituto Antropos presta consultoria voluntária e gratuita em antropologia, missiologia e linguística fornecendo metodologias para a pesquisa sociocultural (étnica ou urbanizada), aquisição lingúistica e plantio de igrejas.

Através de seu Núcleo de Pesquisa disponibiliza informação especializada (perfis socioculturais, estatísticas, pesquisas de campo e referências) sobre grupos étnicos, regiões e cidades, de forma seletiva, e colabora com o Banco de Dados do Departamento de Assuntos Indígenas da Associação de Missões Transculturais Brasileiras (DAI-AMTB).

O Instituto Antropos tem investido na educação antropológica e missiológica,  tendo capacitado 237 pessoas desde 2001 com o curso “Capacitação Antropológica” em forma presencial, e outros 220 como educação a distância. Lançou, em parceria com a UniEvangelica, em 2010, a Pós Graduação em Antropológia intercultural, lato sensu, na cidade de Manaus, pós graduando 28 pessoas. Está lançando em 2011 capacitações missiológicas, de pesquisa sociocultural e plantio de igrejas.

O Instituto Antropos é também um Portal que abriga outros três sites:

Antropos – Revista de Antropologia Online (www.revista.antropos.com.br) que é o resultado de iniciativas acadêmicas na construção de um ambiente para a publicação de material relevante no estudo das Ciências Sociais.

Missionews –  Revista de Missiologia Online (www.missionews.com.br) a qual objetiva disponibilizar material teológico e missiológico, de relevância e aplicação, bem como informações missionárias.

Plantando igrejas (www.plantandoigrejas.org.br) que contém artigos, cursos e orientações para os processos de plantio de igrejas em contexto cultural e transcultural.”

Ministérios de juventude:

Conquistas e percalços de um movimento

Alderi Souza de Matos

A história dos ministérios especiais voltados para a juventude é uma boa ilustração das grandes transformações experimentadas pelo protestantismo nos últimos 150 anos, em áreas como a espiritualidade, a teologia e o conceito de missão da igreja.

Associação cristã de moços

A primeira dessas organizações foi a Associação Cristã de Moços (Young Men’s Christian Association – YMCA), fundada em Londres em 1844 pelo comerciante congregacional George Williams (1821-1905) e vários colegas evangélicos. Os objetivos iniciais eram ministrar aos jovens operários urbanos e promover evangelismo, estudos bíblicos e oração. Rapidamente a ACM tornou-se um movimento internacional, tendo chegado aos Estados Unidos e ao Canadá em 1851. Pouco depois, em 1855, foi realizada em Paris a sua primeira conferência mundial, quando foi criada a Aliança Mundial de Associações Cristãs de Moços e aprovada uma importante declaração de princípios, a Base de Paris. Naquela ocasião já existiam quase 400 associações em sete países, com um total de mais de 30 mil membros.

Williams foi influenciado pela obra Lectures on revivals(Preleções sobre avivamentos, 1835), do americano Charles G. Finney, associando o evangelismo ao trabalho social. A ACM logo se tornou conhecida como a missão das igrejas evangelísticas junto aos jovens. Seu período de maior vitalidade foi de 1870 a1920, graças a líderes hábeis como o próprio George Williams, Anthony Ashley Cooper (conde de Shaftesbury), o evangelista Dwight L. Moody e John R. Mott, que foi secretário geral de 1915 a 1928. Aentidade desse período dava ênfase ao desenvolvimento religioso, educacional, social e físico, visando promover elevados padrões de caráter e de cidadania cristã.

A ACM veio para o Brasil por intermédio do presbiteriano norte-americano Myron August Clark (1866-1920), que chegou a São Paulo em 1891. As primeiras associações foram as do Rio de Janeiro (1893) e de São Paulo (1895). Alguns anos depois foi criada a aliança sul-americana, com sede no Uruguai. Nas primeiras décadas do século 20, aentidade sofreu um rápido processo de secularização. Escrevendo em 1931, o Rev. Erasmo Braga, que havia sido seu grande entusiasta, disse que a ACM e a ACF (Associação Cristã Feminina) já não deviam ser incluídas entre as forças evangélicas que atuavam no Brasil. O mesmo ocorreu no âmbito internacional. A Aliança Mundial, com sede em Genebra, envolveu-se com o movimento ecumênico e passou a concentrar-se em atividades como assistência a refugiados, direitos humanos e luta pela paz. Na esfera local, o objetivo passou a ser a ênfase numa perspectiva saudável da vida por meio do cultivo do corpo, da mente e do espírito.

Esforço Cristão

Outra organização de grande impacto nos círculos protestantes, porém de duração mais efêmera, foi a Sociedade do Esforço Cristão (Christian Endeavor), fundada em 1881 pelo pastor congregacional americano Francis E. Clark. Em contraste com a ACM, o Esforço Cristão tinha como um de seus principais objetivos o maior envolvimento dos jovens na vida das igrejas, como ficou claro em seu lema: “Por Cristo e pela igreja”. Outras ênfases eram o evangelismo, o serviço cristão e a confraternização da juventude evangélicas por meio de numerosas convenções.

O movimento teve um crescimento inicial impressionante e milhares de sociedades foram criadas nas mais diferentes denominações pelo mundo afora. A primeira superintendente para o Brasil foi a missionária presbiteriana Clara E. Hough, que organizou o primeiro Esforço Cristão em Botucatu, em 1891. Asegunda sociedade foi criada pela professora Elmira Kuhl em Curitiba. Em1902 reuniu-se em São Pauloa primeira convenção nacional, sendo eleito presidente o pastor e educador Erasmo Braga. Com o passar dos anos, as diferentes denominações envolvidas optaram por criar as suas próprias sociedades para jovens e o Esforço Cristão entrou em declínio.

Organizações estudantis

Bem mais complexa é a história de um terceiro tipo de movimentos de mocidade protestante, aqueles voltados para os estudantes universitários. Desde o século 17 houve, tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos, grupos informais de estudantes cristãos que se reuniam para cultivar a vida espiritual. Todavia, o movimento estudantil organizado teve início somente no final do século 19. Nos Estados Unidos, as primeiras Associações Cristãs de Moços em universidades surgiram em 1856, em Michigan e na Virgínia, e em poucos anos vários líderes capazes difundiram o movimento através do país. Luther Wishard, o primeiro secretário americano da ACM, desejou unir o trabalho em todas as universidades, visando a conversão dos estudantes e seu posterior envolvimento com o serviço cristão ativo, especialmente na área de missões mundiais.

Em 1886, no centro de conferências de Dwight Moody em Northfield, Massachusetts, surgiu um movimento que foi organizado formalmente dois anos mais tarde com o nome de Movimento de Estudantes Voluntários para Missões Estrangeiras (SVM), tendo John Mott como presidente e Robert Wilder como secretário itinerante. Inspirados pelo lema “A evangelização do mundo nesta geração”, em poucas décadas 175 mil estudantes assinaram o compromisso do movimento e 21 mil foram para o exterior. Finalmente, em 1895 foi organizada na Suécia a Federação Cristã Mundial de Estudantes (WSCF), reunindo seis movimentos nacionais, entre os quais o SVM americano e o SCM inglês (Movimento Cristão de Estudantes), sendo John Mott eleito o seu secretário-geral.

No início do século 20, uma série de desdobramentos, especialmente no campo da teologia, causou o enfraquecimento e o declínio dos movimentos estudantis. O SVM chegou ao seu auge em 1920, mas vinte anos depois já havia se tornado praticamente inoperante, vindo a desaparecer por completo. A Federação Cristã Mundial de Estudantes foi uma das entidades formadoras do Conselho Mundial de Igrejas (1948). Na Inglaterra, o SCM também sentiu os ventos de mudança nas áreas teológica e missiológica. Quanto ao Brasil, o primeiro líder do movimento de juventude protestante foi Eduardo Pereira de Magalhães, um pastor da Igreja Presbiteriana Independente. Em 1925 foi organizada no Instituto Granbery, em Juiz de Fora, a União de Estudantes para o Trabalho de Cristo, que se transformou no ano seguinte na União Cristã de Estudantes do Brasil (UCEB). Esta se filiou em 1942 à Federação Mundial. Na mesma época foi criada a União Latino-Americana de Juventudes Evangélicas (ULAJE).

Iniciativas evangélicas

À medida que o Movimento Cristão de Estudantes (SCM) adotava uma postura teológica liberal e ecumênica, começaram a surgir na Inglaterra pequenos grupos de estudantes evangélicos, o que finalmente resultou, em 1928, na criação da Fraternidade Inter-Universitária (Inter-Varsity Fellowship – IVF). Poucos anos depois, começaram a realizar-se conferências internacionais de estudantes evangélicos, a primeira delas na Noruega, em 1934. Finalmente, em 1946-1947 foi criada a Fraternidade Internacional de Estudantes Evangélicos (IFES), constituída de dez movimentos nacionais. Quarenta anos depois, havia entidades ligadas à IFES em 130 países, entre os quais o Brasil, com a sua Aliança Bíblica Universitária (ABU).

Ainda no ano de 1928 foi criada no Canadá a Fraternidade Cristã Inter-Universitária (Inter-Varsity Christian Fellowship – IVCF) e dez anos depois, nos Estados Unidos. Na década de 40 surgiram grupos na maior parte dos campi, com o tríplice propósito de evangelismo, discipulado e missões. Em 1946 aIVCF realizou a sua primeira conferência de missões em Toronto. Em 1948, aconferência foi transferida para a Universidade de Illinois, em Urbana, onde continua a ser realizada trienalmente, com a presença de até 17 mil estudantes. Outras organizações similares surgidas após a Segunda Guerra Mundial foram a Cruzada Estudantil e Profissional para Cristo, Navegadores, Mocidade para Cristo, Campus Life, Estudantes Internacionais etc.

Avaliação

Os ministérios cristãos voltados para os jovens deixaram um legado controvertido. Eles proporcionaram visibilidade e treinamento para muitos líderes notáveis que prestaram grandes contribuições à igreja e à sociedade. Eles canalizaram o idealismo de milhares de jovens para causas nobres como missões e atuação social. Eles aproximaram pessoas de diferentes igrejas, culturas e nacionalidades, promovendo maior solidariedade cristã e humana. Infelizmente, alguns desses movimentos também acolheram tendências que se revelaram prejudiciais para os jovens e para a causa cristã no mundo. Uma dessas tendências foi o secularismo, uma visão da vida na qual os princípios e valores cristãos foram perdendo gradativamente a sua importância. Outro problema que afetou vários desses movimentos foi o fascínio com novas teologias que questionaram a autoridade das Escrituras e da sua mensagem, gerando ceticismo e abrindo as portas para o relativismo. Ainda outros caíram numa espiritualidade alienada das realidades humanas mais amplas, impondo limites à atuação cristã na sociedade. É desejável que os atuais ministérios direcionados à juventude possam unir os aspectos mais positivos desses exemplos históricos – compromisso com a fé cristã bíblica, vinculação com o corpo de Cristo e uma saudável associação entre proclamação redentiva e responsabilidade social.

Pacto de Lausanne

Introdução

Nós, membros da Igreja de Jesus Cristo, procedentes de mais de 150 nações, participantes do Congresso Internacional de Evangelização Mundial, em Lausanne, louvamos a Deus por sua grande salvação, e regozijamo-nos com a comunhão que, por graça dele mesmo, podemos ter com ele e uns com os outros. Estamos profundamente tocados pelo que Deus vem fazendo em nossos dias, movidos ao arrependimento por nossos fracassos e dasafiados pela tarefa inacabada da evangelização. Acreditamos que o evangelho são as boas novas de Deus para todo o mundo, e por sua graça, decidimo-nos a obedecer ao mandamento de Cristo de proclamá-lo a toda a humanidade e fazer discípulos de todas as nações. Desejamos, portanto, reafirmar a nossa fé e a nossa resolução, e tornar público o nosso pacto.

1. O Propósito de Deus

Afirmamos a nossa crença no único Deus eterno, Criador e Senhor do Mundo, Pai, Filho e Espírito Santo, que governa todas as coisas segundo o propósito da sua vontade. Ele tem chamado do mundo um povo para si, enviando-o novamente ao mundo como seus servos e testemunhas, para estender o seu reino, edificar o corpo de Cristo, e também para a glória do seu nome. Confessamos, envergonhados, que muitas vezes negamos o nosso chamado e falhamos em nossa missão, em razão de nos termos conformado ao mundo ou nos termos isolado demasiadamente. Contudo, regozijamo-nos com o fato de que, mesmo transportado em vasos de barro, o evangelho continua sendo um tesouro precioso. À tarefa de tornar esse tesouro conhecido, no poder do Espírito Santo, desejamos dedicar-nos novamente.

2. A Autoridade e o Poder da Bíblia

Afirmamos a inspiração divina, a veracidade e autoridade das Escrituras tanto do Velho como do Novo Testamento, em sua totalidade, como única Palavra de Deus escrita, sem erro em tudo o que ela afirma, e a única regra infalível de fé e prática. Também afirmamos o poder da Palavra de Deus para cumprir o seu propósito de salvação. A mensagem da Bíblia destina-se a toda a humanidade, pois a revelação de Deus em Cristo e na Escritura é imutável. Através dela o Espírito Santo fala ainda hoje. Ele ilumina as mentes do povo de Deus em toda cultura, de modo a perceberem a sua verdade, de maneira sempre nova, com os próprios olhos, e assim revela a toda a igreja uma porção cada vez maior da multiforme sabedoria de Deus.

3. A Unicidade e a Universalidade de Cristo

Afirmamos que há um só Salvador e um só evangelho, embora exista uma ampla variedade de maneiras de se realizar a obra de evangelização. Reconhecemos que todos os homens têm algum conhecimento de Deus através da revelação geral de Deus na natureza. Mas negamos que tal conhecimento possa salvar, pois os homens, por sua injustiça, suprimem a verdade. Também rejeitamos, como depreciativo de Cristo e do evangelho, todo e qualquer tipo de sincretismo ou de diálogo cujo pressuposto seja o de que Cristo fala igualmente através de todas as religiões e ideologias. Jesus Cristo, sendo ele próprio o único Deus-homem, que se deu uma só vez em resgate pelos pecadores, é o único mediador entre Deus e o homem. Não existe nenhum outro nome pelo qual importa que sejamos salvos. Todos os homens estão perecendo por causa do pecado, mas Deus ama todos os homens, desejando que nenhum pereça, mas que todos se arrependam. Entretanto, os que rejeitam Cristo repudiam o gozo da salvação e condenam-se à separação eterna de Deus. Proclamar Jesus como “o Salvador do mundo” não é afirmar que todos os homens, automaticamente, ou ao final de tudo, serão salvos; e muito menos que todas as religiões ofereçam salvação em Cristo. Trata-se antes de proclamar o amor de Deus por um mundo de pecadores e convidar todos os homens a se entregarem a ele como Salvador e Senhor no sincero compromisso pessoal de arrependimento e fé. Jesus Cristo foi exaltado sobre todo e qualquer nome. Anelamos pelo dia em que todo joelho se dobrará diante dele e toda língua o confessará como Senhor.

4. A Natureza da Evangelização

Evangelizar é difundir as boas novas de que Jesus Cristo morreu por nossos pecados e ressuscitou segundo as Escrituras, e de que, como Senhor e Rei, ele agora oferece o perdão dos pecados e o dom libertador do Espírito a todos os que se arrependem e crêem. A nossa presença cristã no mundo é indispensável à evangelização, e o mesmo se dá com aquele tipo de diálogo cujo propósito é ouvir com sensibilidade, a fim de compreender. Mas a evangelização propriamente dita é a proclamação do Cristo bíblico e histórico como Salvador e Senhor, com o intuito de persuadir as pessoas a vir a ele pessoalmente e, assim, se reconciliarem com Deus. Ao fazermos o convite do evangelho, não temos o direito de esconder o custo do discipulado. Jesus ainda convida todos os que queiram segui-lo e negarem-se a si mesmos, tomarem a cruz e identificarem-se com a sua nova comunidade. Os resultados da evangelização incluem a obediência a Cristo, o ingresso em sua igreja e um serviço responsável no mundo.

5. A Responsabilidade Social Cristã

Afirmamos que Deus é o Criador e o Juiz de todos os homens. Portanto, devemos partilhar o seu interesse pela justiça e pela conciliação em toda a sociedade humana, e pela libertação dos homens de todo tipo de opressão. Porque a humanidade foi feita à imagem de Deus, toda pessoa, sem distinção de raça, religião, cor, cultura, classe social, sexo ou idade possui uma dignidade intrínseca em razão da qual deve ser respeitada e servida, e não explorada. Aqui também nos arrependemos de nossa negligência e de termos algumas vezes considerado a evangelização e a atividade social mutuamente exclusivas. Embora a reconciliação com o homem não seja reconciliação com Deus, nem a ação social evangelização, nem a libertação política salvação, afirmamos que a evangelização e o envolvimento sócio-político são ambos parte do nosso dever cristão. Pois ambos são necessárias expressões de nossas doutrinas acerca de Deus e do homem, de nosso amor por nosso próximo e de nossa obediência a Jesus Cristo. A mensagem da salvação implica também uma mensagem de juízo sobre toda forma de alienação, de opressão e de discriminação, e não devemos ter medo de denunciar o mal e a injustiça onde quer que existam. Quando as pessoas recebem Cristo, nascem de novo em seu reino e devem procurar não só evidenciar mas também divulgar a retidão do reino em meio a um mundo injusto. A salvação que alegamos possuir deve estar nos transformando na totalidade de nossas responsabilidades pessoais e sociais. A fé sem obras é morta.

6. A Igreja e a Evangelização

Afirmamos que Cristo envia o seu povo redimido ao mundo assim como o Pai o enviou, e que isso requer uma penetração de igual modo profunda e sacrificial. Precisamos deixar os nossos guetos eclesiásticos e penetrar na sociedade não-cristã. Na missão de serviço sacrificial da igreja a evangelização é primordial. A evangelização mundial requer que a igreja inteira leve o evangelho integral ao mundo todo. A igreja ocupa o ponto central do propósito divino para com o mundo, e é o agente que ele promoveu para difundir o evangelho. Mas uma igreja que pregue a Cruz deve, ela própria, ser marcada pela Cruz. Ela torna-se uma pedra de tropeço para a evangelização quando trai o evangelho ou quando lhe falta uma fé viva em Deus, um amor genuíno pelas pessoas, ou uma honestidade escrupulosa em todas as coisas, inclusive em promoção e finanças. A igreja é antes a comunidade do povo de Deus do que uma instituição, e não pode ser identificada com qualquer cultura em particular, nem com qualquer sistema social ou político, nem com ideologias humanas.

7. Cooperação na Evangelização

Afirmamos que é propósito de Deus haver na igreja uma unidade visível de pensamento quanto à verdade. A evangelização também nos convoca à unidade, porque o ser um só corpo reforça o nosso testemunho, assim como a nossa desunião enfraquece o nosso evangelho de reconciliação. Reconhecemos, entretanto, que a unidade organizacional pode tomar muitas formas e não ativa necessariamente a evangelização. Contudo, nós, que partilhamos a mesma fé bíblica, devemos estar intimamente unidos na comunhão uns com os outros, nas obras e no testemunho. Confessamos que o nosso testemunho, algumas vezes, tem sido manchado por pecaminoso individualismo e desnecessária duplicação de esforço. Empenhamo-nos por encontrar uma unidade mais profunda na verdade, na adoração, na santidade e na missão. Instamos para que se apresse o desenvolvimento de uma cooperação regional e funcional para maior amplitude da missão da igreja, para o planejamento estratégico, para o encorajamento mútuo, e para o compartilhamento de recursos e de experiências.

8. Esforço Conjugado de Igrejas na Evangelização

Regozijamo-nos com o alvorecer de uma nova era missionária. O papel dominante das missões ocidentais está desaparecendo rapidamente. Deus está levantando das igrejas mais jovens um grande e novo recurso para a evangelização mundial, demonstrando assim que a responsabilidade de evangelizar pertence a todo o corpo de Cristo. Todas as igrejas, portando, devem perguntar a Deus, e a si próprias, o que deveriam estar fazendo tanto para alcançar suas próprias áreas como para enviar missionários a outras partes do mundo. Deve ser permanente o processo de reavaliação da nossa responsabilidade e atuação missionária. Assim, haverá um crescente esforço conjugado pelas igrejas, o que revelará com maior clareza o caráter universal da igreja de Cristo. Também agradecemos a Deus pela existência de instituições que laboram na tradução da Bíblia, na educação teológica, no uso dos meios de comunicação de massa, na literatura cristã, na evangelização, em missões, no avivamento de igrejas e em outros campos especializados. Elas também devem empenhar-se em constante auto-exame que as levem a uma avaliação correta de sua eficácia como parte da missão da igreja.

9. Urgência da Tarefa Evangelística

Mais de dois bilhões e setecentos milhões de pessoas, ou seja, mais de dois terços da humanidade, ainda estão por serem evangelizadas. Causa-nos vergonha ver tanta gente esquecida; continua sendo uma reprimenda para nós e para toda a igreja. Existe agora, entretanto, em muitas partes do mundo, uma receptividade sem precedentes ao Senhor Jesus Cristo. Estamos convencidos de que esta é a ocasião para que as igrejas e as instituições para-eclesiásticas orem com seriedade pela salvação dos não-alcançados e se lancem em novos esforços para realizarem a evangelização mundial. A redução de missionários estrangeiros e de dinheiro num país evangelizado algumas vezes talvez seja necessária para facilitar o crescimento da igreja nacional em autonomia, e para liberar recursos para áreas ainda não evangelizadas. Deve haver um fluxo cada vez mais livre de missionários entre os seis continentes num espírito de abnegação e prontidão em servir. O alvo deve ser o de conseguir por todos os meios possíveis e no menor espaço de tempo, que toda pessoa tenha a oportunidade de ouvir, de compreender e de receber as boas novas. Não podemos esperar atingir esse alvo sem sacrifício. Todos nós estamos chocados com a pobreza de milhões de pessoas, e conturbados pelas injustiças que a provocam. Aqueles dentre nós que vivem em meio à opulência aceitam como obrigação sua desenvolver um estilo de vida simples a fim de contribuir mais generosamente tanto para aliviar os necessitados como para a evangelização deles.

10. Evangelização e Cultura

O desenvolvimento de estratégias para a evangelização mundial requer metodologia nova e criativa. Com a bênção de Deus, o resultado será o surgimento de igrejas profundamente enraizadas em Cristo e estreitamente relacionadas com a cultura local. A cultura deve sempre ser julgada e provada pelas Escrituras. Porque o homem é criatura de Deus, parte de sua cultura é rica em beleza e em bondade; porque ele experimentou a queda, toda a sua cultura está manchada pelo pecado, e parte dela é demoníaca. O evangelho não pressupõe a superioridade de uma cultura sobre a outra, mas avalia todas elas segundo o seu próprio critério de verdade e justiça, e insiste na aceitação de valores morais absolutos, em todas as culturas. As missões, muitas vezes têm exportado, juntamente com o evangelho, uma cultura estranha, e as igrejas, por vezes, têm ficado submissas aos ditames de uma determinada cultura, em vez de às Escrituras. Os evangelistas de Cristo têm de, humildemente, procurar esvaziar-se de tudo, exceto de sua autenticidade pessoal, a fim de se tornarem servos dos outros, e as igrejas têm de procurar transformar e enriquecer a cultura; tudo para a glória de Deus.

11. Educação e Liderança

Confessamos que às vezes temos nos empenhado em conseguir o crescimento numérico da igreja em detrimento do espiritual, divorciando a evangelização da edificação dos crentes. Também reconhecemos que algumas de nossas missões têm sido muito remissas em treinar e incentivar líderes nacionais a assumirem suas justas responsabilidades. Contudo, apoiamos integralmente os princípios que regem a formação de uma igreja de fato nacional, e ardentemente desejamos que toda a igreja tenha líderes nacionais que manifestem um estilo cristão de liderança não em termos de domínio, mas de serviço. Reconhecemos que há uma grande necessidade de desenvolver a educação teológica, especialmente para líderes eclesiáticos. Em toda nação e em toda cultura deve haver um eficiente programa de treinamento para pastores e leigos em doutrina, em discipulado, em evangelização, em edificação e em serviço. Este treinamento não deve depender de uma metodologia estereotipada, mas deve se desenvolver a partir de iniciativas locais criativas, de acordo com os padrões bíblicos.

12. Conflito Espiritual

Cremos que estamos empenhados num permanente conflito espiritual com os principados e postestades do mal, que querem destruir a igreja e frustrar sua tarefa de evangelização mundial. Sabemos da necessidade de nos revestirmos da armadura de Deus e combater esta batalha com as armas espirituais da verdade e da oração. Pois percebemos a atividade no nosso inimigo, não somente nas falsas ideologias fora da igreja, mas também dentro dela em falsos evangelhos que torcem as Escrituras e colocam o homem no lugar de Deus. Precisamos tanto de vigilância como de discernimento para salvaguardar o evangelho bíblico. Reconhecemos que nós mesmos não somos imunes ao perigo de capitularmos ao secularismo. Por exemplo, embora tendo à nossa disposição pesquisas bem preparadas, valiosas, sobre o crescimento da igreja, tanto no sentido numérico como espiritual, às vezes não as temos utilizado. Por outro lado, por vezes tem acontecido que, na ânsia de conseguir resultados para o evangelho, temos comprometido a nossa mensagem, temos manipulado os nossos ouvintes com técnicas de pressão, e temos estado excessivamente preocupados com as estatísticas, e até mesmo utilizando-as de forma desonesta. A igreja tem que estar no mundo; o mundo não tem que estar na igreja.

13. Liberdade e Perseguição

É dever de toda nação, dever que foi estabelecido por Deus, assegurar condições de paz, de justiça e de liberdade em que a igreja possa obedecer a Deus, servir a Cristo Senhor e pregar o evangelho sem impedimentos. Portanto, oramos pelos líderes das nações e com eles instamos para que garantam a liberdade de pensamento e de consciência, e a liberdade de praticar e propagar a religião, de acordo com a vontade de Deus, e com o que vem expresso na Declaração Universal do Direitos Humanos. Também expressamos nossa profunda preocupação com todos os que foram injustamente encarcerados, especialmente com nossos irmãos que estão sofrendo por causa do seu testemunho do Senhor Jesus. Prometemos orar e trabalhar pela libertação deles. Ao mesmo tempo, recusamo-nos a ser intimidados por sua situação. Com a ajuda de Deus, nós também procuraremos nos opor a toda injustiça e permanecer fiéis ao evangelho, seja a que custo for. Não nos esqueçamos de que Jesus nos previniu de que a perseguição é inevitável.

14. O Poder do Espírito Santo

Cremos no poder do Espírito Santo. O pai enviou o seu Espírito para dar testemunho do seu Filho. Sem o testemunho dele o nosso seria em vão. Convicção de pecado, fé em Cristo, novo nascimento cristão, é tudo obra dele. De mais a mais, o Espírito Santo é um Espírito missionário, de maneira que a evangelização deve surgir espontaneamente numa igreja cheia do Espírito. A igreja que não é missionária contradiz a si mesma e debela o Espírito. A evangelização mundial só se tornará realidade quando o Espírito renovar a igreja na verdade, na sabedoria, na fé, na santidade, no amor e no poder. Portanto, instamos com todos os cristãos para que orem pedindo pela visita do soberano Espírito de Deus, a fim de que o seu fruto todo apareça em todo o seu povo, e que todos os seus dons enriqueçam o corpo de Cristo. Só então a igreja inteira se tornará um instrumento adequado em Suas mãos, para que toda a terra ouça a Sua voz.

15. O Retorno de Cristo

Cremos que Jesus Cristo voltará pessoal e visivelmente, em poder e glória, para consumar a salvação e o juízo. Esta promessa de sua vinda é um estímulo ainda maior à evangelização, pois lembramo-nos de que ele disse que o evangelho deve ser primeiramente pregado a todas as nações. Acreditamos que o período que vai desde a ascensão de Cristo até o seu retorno será preenchido com a missão do povo de Deus, que não pode parar esta obra antes do Fim. Também nos lembramos da sua advertência de que falsos cristos e falsos profetas apareceriam como precursores do Anticristo. Portanto, rejeitamos como sendo apenas um sonho da vaidade humana a idéia de que o homem possa algum dia construir uma utopia na terra. A nossa confiança cristã é a de que Deus aperfeiçoará o seu reino, e aguardamos ansiosamente esse dia, e o novo céu e a nova terra em que a justiça habitará e Deus reinará para sempre. Enquanto isso, rededicamo-nos ao serviço de Cristo e dos homens em alegre submissão à sua autoridade sobre a totalidade de nossas vidas.

CONCLUSÃO

Portanto, à luz desta nossa fé e resolução, firmamos um pacto solene com Deus, bem como uns com os outros, de orar, planejar e trabalhar juntos pela evangelização de todo o mundo. Instamos com outros para que se juntem a nós. Que Deus nos ajude por sua graça e para a sua glória a sermos fiéis a este Pacto! Amém. Aleluia!


[Lausanne, Suíça, 1974]

Para maiores informações sobre o movimento de Lausanne, visite Lausanne Committee for World Evangelization

Charles Sttud

Marcelo Dutra

Charles Thomas Studd (1860-1931) poderia ter sido mais um atleta que gastou seus dias em árduas competições e apenas isso. Entretanto, sua biografia demonstra que quando Deus toca o coração de alguém, seus rumos e planos são mudados dramaticamente, de uma maneira maravilhosa. O inglês Charles Studd era considerado um dos maiores desportistas do final do século 19.

Milionário, ele herdara da família a importância de 29 mil libras esterlinas, uma fortuna naquela época, mas se recusara a tirar proveito dela, temendo que o dinheiro pudesse atrapalhar seus nobres ideais.

Determinado a investir na obra de Deus, enviou cinco mil libras esterlinas para o missionário James Hudson Taylor, que se tomou uma lenda ao ser o primeiro a levar a Palavra ao interior da China; outras cinco mil libras para um pastor, William Booth, fundador do Exército da Salvação; cinco mil para Dwight L. Moody, para que este iniciasse o estabelecimento do Instituto Bíblico Moody.
Studd doou ainda outras importâncias, sobrando-lhe apenas 3.400 libras, as quais ele, no dia do seu casamento, deu à esposa. Esta também doou o presente e comentou, na época: Jesus pediu ao jovem rico que desse tudo aos pobres. E Studd completou: Agora nos achamos na situação de poder dizer que não possuímos nem prata nem ouro, referindo-se ao texto de Atos 3.6.

Loucura? Não. Charles Thomas Studd tinha a certeza de que o Senhor era o dono de todas as coisas. Essa demonstração de entrega total foi apenas o começo. Todavia, foi o suficiente para que o Senhor desse a Charles um novo rumo. Mais tarde, Ele o chamaria para o ministério.

Studd viajou para a China, onde trabalhou como missionário. Posteriormente, foi para a Índia e para o continente africano. Seu pensamento era: “Se Jesus é Deus e Ele morreu por mim, então nenhum sacrifício pode ser muito grande para nós”. Como resultado de seus esforços, foi fundada, um pouco antes de sua morte, a Cruzada de Evangelização Mundial, que hoje conta com mais de mil missionários em todo o mundo. A mensagem deixada por Studd foi simples: enquanto a maioria investe em bens materiais, outros investem no Reino de Deus.

Família

Essas lições de Charles Studd foram aprendidas desde muito cedo. Ele era filho de um fazendeiro de origem indiana, Edward Studd, que se havia aposentado na Índia e mudado para uma casa rural no município de Tidworth, em Wiltshire, Inglaterra.

O pai de Studd, curiosamente, tinha-se convertido em 1877, quando um amigo o levou para ouvir uma pregação de Moody, o mesmo pastor que seria ajudado por seu filho, Charles Studd, anos mais tarde. Após a conversão, Edward, imediatamente, deixou as atividades seculares e passou a usar sua casa para reuniões evangelísticas até o dia de sua morte, em 1879.

Charles Studd e seus dois irmãos, Kynaston e George, estudavam longe de casa. Curiosamente, os três converteram-se a Cristo em um culto doméstico, e terminaram apaixonados pelo Evangelho. Os três irmãos eram campeões de críquete, um dos esportes mais tradicionais da Inglaterra. As habilidades excepcionais mostradas por Charles Studd naquele esporte fizeram com que ele ganhasse um lugar na seleção inglesa, em 1882, época em que a equipe havia perdido uma partida para a Austrália e estava desacreditada. Sob a liderança de Charles Studd, os ingleses jogaram na Austrália, no ano seguinte, e recuperaram o troféu.

Tempo de confrontação – Dois anos após a conquista do campeonato, no entanto, com a doença e morte de George, Charles Studd sentiu-se confrontado pela seguinte pergunta: De que adiantam toda a fama e valor de lisonja quando um homem tem de enfrentar a eternidade? Ele percebeu, então, que sua conversão, ocorrida seis anos antes, não havia produzido frutos.

esoluto, ele declarou: O críquete não vai durar; a honra também não, bem como nada neste mundo. Mas tenho que viver para o mundo que há de vir.

A partir de então, Charles começou a testemunhar de Jesus aos amigos e jogadores da mesma equipe. Sua intenção era captar recursos para o ministério de seu irmão, Kynaston, que tinha fundado uma organização missionária entre estudantes. Logo, ele teve a alegria de conduzir outros a Deus.

Até aquele momento, Studd testemunhara entre os próprios sócios e amigos. Contudo, depois de ouvir, na China, uma pregação na qual um missionário falara da necessidade de os servos de Deus agirem como pescadores de almas, tudo mudou. Ele sentiu que Deus o estava chamando. Embora seus amigos e parentes tentassem dissuadi-lo, Charles começou a considerar a pregação que ouvira e marcou uma reunião com o Pr. James Hudson Taylor, o diretor da missão no interior da China.

Rumo à China

A decisão de Studd foi seguida por mais seis amigos dele. Ao mesmo tempo em que o grupo se preparava, uma onda de conversões ocorria entre os estudantes das maiores Universidades da Grã-Bretanha, graças à missão fundada por Kynaston, anos antes. Alunos de Edimburgo, Londres, Oxford e Cambridge entregavam-se ao Senhor como jamais ocorrera antes. Eles se transformariam, anos depois, nos missionários que difundiriam a Palavra de Deus pelo mundo. Em pouco menos de dois meses, Studd e alguns amigos já estavam prontos para a viagem à China.

Lá, Charles Studd passou dez anos. Quando, finalmente, retomou à Inglaterra, ele foi convidado a visitar a América, onde Kynaston havia organizado um movimento evangelístico entre os estudantes locais. Durante aquela excursão, ele testemunhou o derramar de bênçãos poderosas em muitas faculdades e igrejas. Aquilo mexeu tanto com Studd, que ele iniciaria uma seqüência de viagens missionárias impressionante.

Missões na Índia e na África – De 1900 a 1906, Studd pastoreou uma igreja em Ootacamund, no Sul da Índia. Naquela região, diversos funcionários britânicos se converteram a Cristo. Depois de um rápido retomo à Inglaterra, ele partiu, em 1910, para o Sudão, na África. Studd ficara impressionado com o fato de a Palavra ser quase totalmente desconhecida na África Central, e lá fundou uma missão, a Heart of Africa Mission (Missão Coração da África).

Em sua primeira viagem ao Congo Belga*, em 1913, ele estabeleceu quatro missões em uma área habitada por oito tribos diferentes. A partir dali, Charles começaria a viajar sozinho — sua esposa ficara doente. Entretanto, o trabalho do Senhor e o chamado da família não mudaram. De sua casa, na Inglaterra, ela e as quatro filhas do casal coordenavam o ministério de Studd. Sua esposa era a responsável por missões em diversos países da África, do Oriente Médio e da China.

Ela fez uma última visita ao Congo em 1928, reviu o marido e faleceu pouco tempo depois. Em 1931, aos 70 anos, Charles Thomas Studd morreu, entretanto, até os seus últimos dias, ele pregou a salvação pela fé em Jesus Cristo, no campo missionário, em Málaga, na África. Foi, de fato, um gigante. Um herói da fé.
* (Até 1971, este país tinha o nome de Congo Belga. Depois, Mobuto Sese Seko o batizou com o nome de Zaire. Em 1997, passou a se chamar República Democrática do congo)
Fonte: Revista Graça, ano 3, nº 28 / novembro/2001 www.ongrace.com

O campo e o envio de missionários

Ronaldo Lidório

Introdução

No início de 1997 eu estava caminhando em direção à uma aldeia onde havíamos plantado a segunda igreja entre a tribo Konkomba em Gana. No começo da tarde atravessava o leito seco do rio Molan quando, cansado, resolvi sentar-me no meio daquele leito e recuperar o fôlego por alguns instantes. Comecei a mexer com aquelas pedrinhas arredondadas e buriladas pelas águas que por ali passavam na maior parte do ano. Eram ‘pedras de rio’ e, apesar dos diferentes tamanhos, possuíam uma forma parecida, lapidadas pelas correntezas ao longo dos anos.

Cavando um pouco naquele lugar descobri que uma outra qualidade de pedras compunha também o leito do rio Molan. Eram pedrinhas quadráticas e pontiagudas. Percebi então que, apesar destas pedrinhas fazerem parte do mesmo leito do mesmo rio, permaneciam em suas formas abrutecidas, não lapidadas, não buriladas pelo simples fato de que estavam profundas demais para serem tocadas pelas águas e correntezas que por ali passavam.

Naquele momento pensei: a Igreja também é assim. Há entre nós grupos de queridos irmãos que fazem parte do mesmo leito, do mesmo rio, ajuntados no mesmo lugar e com o mesmo propósito. Entretanto estão tão profundamente escondidos em si mesmos, distantes o suficiente para nunca experimentarem em suas próprias vidas a transformação que vêem acontecer na existência de tantos outros. Nunca sentiram as águas rolarem sobre si; ouvem sua voz, mas não experimentam a sua presença.

1. A AÇÃO MISSIONÁRIA NÃO DEVE SER DEFINIDA EM TERMOS DE RESULTADOS, MAS SIM DE FIDELIDADE AO SENHOR.

Não apregôo uma proclamação estéril do evangelho, entretanto devemos entender que a ação missionária não deve ser definida em termos de resultados numéricos, visíveis e contábeis apenas. O princípio por trás desta afirmação é que, se não formos uma bênção perto (e esta é a nossa base onde se pressupõe fidelidade de vida) nós nunca seremos uma bênção longe. Creio que a fidelidade transpõe os resultados numa perspectiva de prioridade missionária em um contexto neotestamentário.

Atos 13:2 – Servindo em fidelidade de vidas

Em Atos capítulo 13 o Espírito Santo fala à Igreja em Antioquia para que separe Paulo e Barnabé. E o versículo 2 inicia dizendo:

“E servindo eles ao Senhor…”

“Eles” refere-se à Paulo e Barnabé, e não à Igreja em Antioquia, e há no contexto lingüístico grego três possibilidades para a construção da raiz do verbo central neste versículo: “servindo”.

A Primeira possibilidade seria o uso do termo “doulos”. “Doulos” refere-se ao servo ou escravo pessoal; aquele que segue o seu amo e senhor de perto, conhece os desejos do seu coração e até mesmo os antecipa. O “doulos” é alguém que se relaciona diretamente com o seu senhor e Paulo inúmeras vezes se autodenominou de “doulos” do Senhor Jesus Cristo. Entretanto “doulos” não nos dá aqui a raiz do verbo “servindo” no versículo 2.

Uma outra possibilidade seria o uso do termo “diakonos” para a construção do verbo. “Diakonos” era o servo que servia ao seu amo através do serviço realizado na comunidade. Quando o termo é usado para líderes da Igreja em Atos refere-se a um grupo de pessoas que demonstravam amor e honra ao Seu Senhor através daquilo que eram e faziam na comunidade dos santos. Entretanto “diakonos” também não é usado para a construção do verbo no versículo 2.

A terceira opção seria o uso do termo “leitourgos” (de onde temos ‘liturgia’ ou ‘liturgo’ em português). “Leitourgos” refere-se àqueles que servem ao Senhor sendo uma bênção para os seus irmãos. “Leitourgoi” seriam verdadeiros abençoadores, edificadores do corpo de Cristo. Pessoas que, pela vida e caráter, eram uma bênção perto, para aqueles que os rodeavam. Este é o termo usado para compor o verbo “servindo” (leitourgounton), ou seja, “servindo como leitourgoi”: abençoadores em Antioquia. “Então disse o Espírito Santo: separai-me para a obra a que os tenho chamado”.

Antes de serem uma bênção longe, entre os gentios, Paulo e Barnabé eram identificados como uma grande bênção perto, em Antioquia. A característica apontada pelo texto a respeito destes dois homens que iniciaram a obra missionária como a conhecemos hoje não foi a competência intelectual, títulos ou profundidade teológica, mas sim fidelidade, e nesta ênfase eles eram fiéis perto.

Algumas aplicações práticas poderiam ser feitas.

Uma aplicação pessoal.
Se você não é um “leitourgos”, uma bênção, perto (e não há nada mais perto de nós do que a nossa família) creio que você nunca o será longe.

Uma aplicação eclesiástica.
Se a sua igreja local ou agência missionária não for uma bênção perto (e não há nada mais perto da igreja do que a própria igreja), para aqueles com os quais você convive semanalmente no templo, lares e salas de aula, ela nunca o será longe.

Uma aplicação missionária.
Não envie para longe aqueles que não são uma bênção perto.

1 Co 4:9 – Vocação martírica

Como podemos avaliar o nosso esforço missionário ? A partir dos resultados na transmissão da Palavra ou a partir da fidelidade em transmití-la ?

Creio que nós não fomos chamados a converter as nações; fomos chamados a testemunhar, e testemunhar com total fidelidade a mensagem de um Cristo vivo. É o que mostra-nos 1 Coríntios 4:9 quando o texto afirma que os “apóstolos” (representando a Igreja que avançava) eram postos em “último lugar”, como se “condenados à morte”. E termina dizendo que “nos tornamos espetáculo ao mundo, tanto a anjos quanto a homens”.

O termo para “espetáculo” neste verso é “theatron” de onde temos a palavra “teatro” em português. “Theatron” literalmente significava “estar em um palco sendo observado”. A idéia é de um grupo teatral se apresentando em um palco iluminado por tochas que eram postas ao seu redor. Cada palavra dita, gesto realizado, movimento ou intenções estavam sendo cuidadosamente observados pelo auditório.

A verdade simples e contundente que sai deste texto é que você e eu, a Igreja de Jesus Cristo, estamos sendo observados, e não apenas por homens, mas também por anjos. A ênfase desta afirmação portanto, não é simplesmente kerigmática, no sentido simples de uma Igreja que existe para apenas proclamar o evangelho de forma inteligível, mas sim martírica: uma comunidade de santos que, antes de mais nada, foi chamada para falar, viver, agir e reagir em fidelidade de vida. O verso não fala a respeito de salvação mas sim de testemunho.

Missões não é um empreendimento que pode e deve ser medido pelos resultados alcançados mas deve ser definido pela fidelidade na comunicação do amor de Deus ao mundo e portanto não é a competência mas sim a vida e caráter que definirão a obra a ser realizada.

2. A AÇÃO MISSIONÁRIA NÃO DEVE SER DEFINIDA APENAS EM TERMOS DE INTERPRETAÇÃO HISTÓRICA, MAS SIM DA REALIDADE ATUAL DO CAMPO

Há um silogismo histórico na formação de missionários que tenho visto acontecer não apenas aqui no Brasil, mas também em vários novos países que começam a enviar missionários para campos transculturais.

Normalmente partimos do pressuposto de que basta-nos copiar ou adaptar um modelo de formação missionária de países europeus ou do Estados Unidos pelo fato de que eles, nos últimos 50 anos, tiveram um grande impacto missionário em todo o mundo. Entretanto, em rápida observação pelos mais de 80 campos missionários espalhados por cerca de 40 países ao redor do mundo com os quais tive contato nos últimos 10 anos pude perceber que nossa formação padrão missionária não tem sido, via de regra, suficiente para alcançar os grupos menos ou não alcançados da atualidade, o que é provado pela cifra de que apenas 2% dos missionários enviados pelos “novos países” missionários (entre eles Brasil, Coréia do Sul e Nigéria) chegam a atuar em grupos ainda intocados pelo evangelho apesar desta ser a grande ênfase em suas igrejas locais e nacionais.

Isto é explicado por um raciocínio muito simples. Os PNAs (Povos Não Alcançados) e PMAs (Povos Menos Alcançados) não são, em sua maioria, grupos que nunca listaram na estratégia de alcance de alguma agência missionária ou junta de missões ao redor do mundo. Em nossa historiografia missionária podemos perceber que ao menos 70% destes são grupos deixados para um “segundo momento” simplesmente pelo fato de serem mais resistentes do que outros.

Entre os Konkombas, onde são faladas 23 línguas diferentes que se subdividem em mais de 64 dialetos, há cerca de 180 clãs. Dentre estes 180 clãs, 40 mostram-se mais resistentes ao evangelho, e dentre estes cerca de 20 são totalmente fechados para o evangelho. Onde iniciamos o trabalho entre os Konkombas? Entre um dos 140 mais abertos para o evangelho, os menos resistentes.

Esta é uma lógica seguida em quase toda experiência missionária nos últimos 100 anos, portanto devemos entender que os PNAs e PMAs que ainda temos hoje são certamente o restante mais difícil. São aqueles que, ao longo da história, apresentaram grande resistência lingüística, antropológica, fenomenológica, política, geográfica, religiosa ou espiritual. Formam hoje o quinhão dos “mais difíceis” e não dos desconhecidos. Pelo grande esforço missiológico de homens de Deus nos últimos 30 anos nós sabemos onde estão e quem são os PNAs, entretanto um grande número, talvez mais de 8.000, permanecem ainda intocados pelo evangelho.

A conclusão óbvia quanto ao preparo missionário é que precisamos que nossos missionários tenham hoje um preparo mais profundo do que missionários enviados ao campo 50 anos atrás pois lidarão com o remanescente mais difícil. Trabalharão com aquelas línguas, culturas, contextos religiosos, geográficos e políticos que fizeram esmorecer agências e juntas de missões nas últimas décadas levando-os a redirecionar seu efetivo pessoal.

O continuísmo histórico nos trará frustrações. É necessário preparar nossos missionários além do trivial.

3. A AÇÃO MISSIONÁRIA NÃO DEVE SER DEFINIDA EM TERMOS DE ALVOS A SEREM ALCANÇADOS, MAS SIM DE BARREIRAS A SEREM ULTRAPASSADAS.

O preparo missionário brasileiro precisa ser uma resposta à realidade do campo. A Antropologia Cultural e Teologia Bíblica mostram-nos o possível e necessário dualismo quanto trata-se da prática missionária.

A Antropologia Cultural identifica quais são as “perguntas existenciais” entre os grupo e a Teologia Bíblica responde a estes questionamentos. Em nossa experiência entre os Konkombas há 17 perguntas chaves, identificadas pela metodologia antropológica, que foram trazidas à luz da Palavra para o desenvolvimento de teologia bíblicas que respondessem ao conflito existencial, desde a poligamia até o uso de armas durante guerras tribais. No Brasil, em uma rápida leitura do movimento evangélico brasileiro sobre aquilo que é dúvida no coração e existência de milhões, é óbvio que precisamos hoje de uma boa teologia de bênção e maldição,  prosperidade e sacrifício, religiosidade e cristianismo além de tantas outras.

Utilizando este mesmo artifício para analisar o campo missionário de maneira global, a pergunta a ser feita seria: Porquê certo número de PNAs continuam não alcançados até o dia de hoje ? Encontraremos algumas fronteiras que precisam ser ultrapassadas em lugares e circunstâncias próprias.

Fronteira humana

Enfatizo aqui o desafio lingüístico, cultural e político-geográfico.

Cerca de 35% dos PNAs existentes falam línguas tonais, subtonais, proverbiais ou aglutinantes que se distanciam profundamente de todo pressuposto lingüístico, fonético ou gramatical, que possuímos no ocidente.

Mais de 50% dos PNAs existentes são caracterizados como “sócio-restritivos” o que, em jargão antropológico, significa que possuem profundas barreiras culturais na absorção de valores transmitidos por alguém fora do círculo social conhecido. Dentre estes encontramos as etnias mais arredias e isoladas.

Politicamente temos vivido um final de milênio onde o nacionalismo exacerbado reavivou a religiosidade étnica e local. Islamismo, Budismo e Induísmo nunca foram tão declarados como “religião do povo” como em nossos dias.

As distâncias geográficas foram encurtadas pela tecnologia do transporte e comunicação, mas as fronteiras políticas internas foram redefinidas nos últimos 40 anos gerando “Funais” em inúmeros países com poder e autoridade localizadas, sob um tom nacionalista/moderno/antropológico e de negativa influência para as Missões atuais.

É necessário entender o campo missionário a fim de preparar aquele que será enviado de acordo com as fronteiras a serem ultrapassadas.

Fronteira Espiritual

Outra boa parte dos PNAs e PMAs situam-se em um contexto de forte poder e controle espiritual. É necessário prestarmos atenção em grupos e regiões onde já houve por diversas vezes um esforço missionário sem continuidade.

Nos últimos três anos a “depressão profunda” tem sido um dos principais temas entre missionários no campo. Tenho afirmado que precisamos conceber o fato bíblico-existencial de que a batalha espiritual na qual estamos envolvidos fabrica efeitos não apenas em um nível místico, entre os céus e a terra, mas em um plano humano, sensível e experimental. O balanço emocional dos nossos missionários deve ser uma das maiores prioridades das agências e igrejas enviadoras, pois é sem dúvida um sintoma de que tem havido falta de verdadeiro pastoreio entre eles.

Efésios 6:12 afirma que a nossa luta não é contra o “sangue e a carne” (estrutura humana patrocinadora do pecado) mas sim contra diferentes forças espirituais malévolas, dentre elas o que é denominado por nós como “dominadores deste mundo tenebroso”. O termo grego para esta expressão é “Kosmokratoras”, usada cerca de 500 a 600 anos antes de Cristo referindo-se a um grupo de homens e sábios que, durante as guerras, reuniam-se para estudar, processar e raciocinar a respeito do movimento inimigo preparando um plano de contra-ataque ou proteção. Eram verdadeiros estrategistas.

Este é o termo (Kosmokratoras) que o Espírito Santo utilizou para esta categoria de seres caídos, o que traduzimos no português como “dominadores deste mundo tenebroso”. São os “estrategistas do mal” e pinta-nos a figura de um grupo de demônios incumbidos de processar as informações sobre o movimento do Reino de Deus e propor um contra ataque.

Não temos uma revelação específica a respeito disto, entretanto devemos entender baseados em Efésios 6:12 que o Império das Trevas não é formado por um grupo de demônios desmiolados voando aleatoriamente e fazendo aquilo que repentinamente lhes vêm a mente. Vivemos em um processo estratégico onde, por deixarmos de contribuir para o vestir da armadura de Deus em nossos missionários enviados para a linha de frente, vemos vidas preciosas sucumbirem perante os desafios que se levantam.

Fronteira Missiológica

Vivemos no Brasil uma síndrome de PNAs. Há um conceito geral entre nossas igrejas onde informalmente se crê que Missões define-se em um trabalho com PNAs e ouve-se falar sobre “verdadeiro missionário” como aquele indivíduo que sai a procura de um grupo isolado, via de regra agrafo e preferencialmente em algum país pobre e distante. Isto é apenas uma parte da ação missionária, fruto de romantismo, e reflete apenas uma pequena parcela da realidade de campo. Precisamos desmistificar este conceito e passar a conscientizar nossas igrejas, agências e juntas que Missões envolve todo o esforço da Igreja ao redor do mundo que se mobiliza sob o propósito de ver a glória de Jesus entre todas as nações.

Pessoalmente creio que vivemos no Brasil uma saudável euforia quanto aos PNAs mas humanamente falando precisamos hoje de um preparo missiológico compatível com a realidade do campo missionário. Entendo que possuímos como país uma vocação para o plantio de igrejas e evangelização, entretanto a pergunta a fazer é: “Temos hoje uma estrutura de ensino, preparo e treino forte o suficiente para transformarmos o sonho brasileiro de enfatizar as missões aos PNAs e PMAs em realidade ?”

4. GOSTARIA DE PROPOR A CONTINUIDADE DO SONHO BRASILEIRO EM TRÊS ESTÁGIOS

Preparação missionária em uma abordagem integral, interativa e conjunta,
Utilizando nossa experiência missionária e minimizando
O prejuízo histórico

Experimentamos hoje um prejuízo histórico. Nossos primeiros missionários, em grande escala, foram enviados nos últimos 15 anos (boa parte encontra-se ainda no campo) e nossos missiólogos estão agora se formando. Portanto creio que trabalharemos ainda por mais 10 ou 15 anos neste “prejuízo histórico”, mas não necessariamente em um prejuízo missionário.

Lembro-me que, atuando entre os Konkombas, por várias vezes utilizei três ou quatro dialetos distintos para expor um conceito neotestamentário. Eu selecionava o “melhor” que cada dialeto possuía afim de explicar uma realidade bíblica.

No Brasil possuímos grupos especialistas em lingüística, há escolas com bons professores em antropologia cultural, temos alguns missiólogos que praticamente assumiram um ministério “itinerante” em várias escolas, há um bom número de teólogos, pastores com boa formação e alguns poucos missionários já “aposentados” com uma vasta bagagem quanto à vida no campo. Entretanto não há nenhum esforço conjunto, parceria mais global, que utilize “o melhor que temos” de maneira interativa e via de regra este “melhor” encontra-se espalhado por diversas escolas, instituições, agências, igrejas e campo.

O momento que vivemos é de ajuda mútua, de andarmos lado a lado, de lançarmos mão do “melhor” que nós temos para formar muitos outros: capazes, de bom caráter e com a visão do Reino. É necessário medirmos o campo juntos, analisarmos o desafio que temos como nação e formarmos a base para um ensino e preparo realista perante as barreiras que se opõe a nós.

Não é segredo que nas rodas missiológicas no exterior o missionário brasileiro em geral é visto como um plantador de igrejas, grande evangelista, mas fraco em lingüística, antropologia cultural (especialmente fenomenologia religiosa) e com dificuldades para a formação de teologias bíblicas.

PNAs. Não é preciso abortar nosso sonho. É necessário investir em sua realização.

Reavaliação de campos, missionários e prioridades

Precisamos avaliar o que já foi feito para evitar criarmos um hiato entre passado e futuro. A reciclagem missionária deveria ser a grande ênfase, ao meu ver, das agências e igrejas enviadoras, nesta virada de milênio.
Realismo missionário é algo geralmente difícil de ser conquistado, pois requer humildade na presença do Senhor e discernimento do Espírito para vermos não apenas nossos desafios mas também nossas limitações.

Criação de modelos missionários entre PNAs e PMAs

Precisamos de uma dúzia de modelos de trabalhos missionários entre PNAs e PMAs afim de transformá-los em paradigma, pontos históricos de referência para a geração que surge.

É necessário aprendermos com a nossa curta história, valorizá-la e pesquisá-la. Certa vez a
Dra Francis Popovich disse-me que “Deus usa tudo aquilo que aprendemos”. É momento de promover, localizar e aprender com aquilo que Deus.

Conclusão

Finalmente gostaria de reafirmar minha convicção nas prioridades bíblicas. Em Atos 1:8 encontramos a estratégia viável e plausível de Jesus em círculos cada vez maiores. O evangelho precisaria alcançar Jerusalém, Judéia, Samaria e Confins da terra. Era sabido por todos que “quanto mais longe de Jerusalém” menos alcançados eram os povos. O Evangelho da época estava ainda geograficamente confinado e assim imbutiu-se na cabeça dos crentes da Igreja germinante de Atos que “quanto mais longe melhor”, mais necessidade haveria.

Esta era uma verdade para as primeiras décadas do século I, entretanto não é realidade hoje. O Cristianismo difundiu-se, espalhou-se geográfica, lingüística e politicamente, diluiu-se em várias culturas e passou por um processo de sincretismo em diferentes épocas.

Se Atos 1:8 não é um modelo missionário, mas sim uma estratégia de missões viável na época, qual o princípio missiológico por trás desta estratégia ? Talvez Paulo foi o que mais rapidamente entendeu este princípio na mente de Jesus e o relatou em Romanos 15:20 quando disse: “esforçando deste modo por pregar o evangelho, não onde Cristo já fora anunciado…”.

Creio assim que “não onde Cristo já fora anunciado” é o princípio que propôs a estratégia missionária para a Igreja em Atos e deve ser a bússola que mostre o caminho para as missões brasileiras em nossos dias.

Restaurando o ardor missionário

Ronaldo Lidório

Queridos, é um prazer estar com vocês hoje nesta tentativa de, juntos, aprender e compreender um pouco mais da visão e do sonho de Deus para nós e também para sua igreja. Vamos abrir nossas Bíblias em Apocalipse 3:15 a 17 e falar sobre a igreja e sua missão, partindo do pressuposto de que nem toda visão do homem de Deus é, necessariamente, a visão de Deus. E se isso é verdade, nem toda visão da igreja de Deus é necessariamente a visão de Deus.

Se vocês concordam comigo, o homem não tem a visão completa da sua missão, nem a igreja o tem, nós precisamos buscar na fonte, que é o próprio Deus, e devemos entender não apenas as expectativas dEle, mas devemos entender os critérios que Deus colocou para que sua igreja pudesse ser sal da terra e luz do mundo.

Parte destes critérios nós podemos encontrar em Apocalipse 3:15 a 17. Esta carta de Jesus à igreja de Laodicéia, sabemos que faz parte de um conjunto de sete cartas, escritas por Jesus à sua igreja e, apesar de termos esta visão escatológica de Apocalipse, eu gostaria de lhes propor de olharmos para ele como um livro, não apenas escatológico e que tem a ver sobre sinais do fim, mas como um livro também existencial, que tem a ver sobre princípios de vida para minha existência, para sua história pessoal e para a vida da igreja hoje no século XXI.

Quando olhamos para essas cartas, devemos nos perguntar quais foram os motivos que levaram Jesus a inspirar João a escrevê-las. Eu creio que um dos motivos foi revelar quais são os critérios pelos quais o Senhor Jesus julga a sua igreja, que somos nós.

Nós julgamos a igreja de Jesus através de critérios externos, visíveis, aquilo que podemos colocar num bom relatório e mostrar para alguém, uma igreja, um presbitério, algum líder, algo que foi feito. Eu julgo uma igreja a partir do seu templo, da retórica do seu pastor, da eficiência do coral, de sua condição financeira. Nós temos olhos humanos, julgamos uma igreja, pessoa, pastor, missionário, ministério, a partir também de critérios humanos e visíveis. Mas parece-me que, nestas sete cartas, Jesus propõe um novo critério: o critério do coração, do invisível, daquilo que não pode ser manifesto em uma pregação, em um livro, na igreja, mas algo que, pelo sondar do Espírito Santo de Deus, Ele olha em nosso coração e sabe se há ali caráter, não apenas reputação, se há fidelidade e não apenas imagem, se há conteúdo de vida cristã na presença de Deus e não apenas teologia.

São os critérios da alma, eu diria assim. Este é um dos motivos pelos quais Jesus escreve esta carta à igreja de Laodicéia; talvez um dos outros motivos seja norteador, ou seja, Jesus queria nos mostrar qual é o rumo da igreja, sua prioridade, qual é a sua visão e, se concordamos que nem toda visão do homem de Deus é necessariamente a visão de Deus, precisamos da visão dEle para existir. Charles Quermam, é um dos filósofos modernos dos quais eu gosto (é mais ou menos da linha de Francis Scheifer), e ele nos diz assim: “nada do que nós tocamos é eterno”, e nisso ele nos propõe que, em uma releitura bíblica, devemos tentar perceber quais são as propostas de Jesus para avaliação da sua igreja. A avaliação do coração, como está nossa vida, e uma avaliação do rumo, para onde estamos caminhando.

É interessante que, se olharmos o versículo 15 de Apocalipse 3, vamos ver que ele começa dizendo assim: “Primeiramente eu conheço as tuas obras” e aí uma proposta bíblica textual apontando para a vida funcional da igreja, fala sobre obra, realizações.

É basicamente uma afirmação de desejo; os exegetas do século XIX, início do XX, tentavam observar a expressão: quem deras fosses frio ou quente, na verdade vocês são mornos, como uma escala de espiritualidade quem estivesse frio, estava longe de Deus, quem estivesse quente estava perto de Deus, e quem estivesse morno estaria entre as duas coisas. Esta pode ser uma verdade bíblica, mas não neste texto. Ele não trata a respeito de categorias espirituais, de intimidade com Deus, este texto fala a respeito de funcionalidade. Nós devemos olhar à luz da história. Laodicéia era uma cidade sem grande importância comercial e política na época e ficava entre duas cidades, importantes e influentes, ao norte ficava a cidade de Erápoles e Grápoles era uma cidade conhecida pelas suas fontes de água frias, segundo Tácidos, um historiador do século IV, ele diz que no meio da cidade de Grápoles havia um grande lago natural com águas geladas, e as pessoas mais ricas da época compravam ou construíam casas de veraneio que ficava ao redor daquele lago, e aquelas pessoas passavam ali verões, mais ou menos como é para o Nordeste durante um verão quente, e você fica num hotel, numa casa de verão e vai para o mar, aquela água gostosa. Segundo Tácidos, havia na entrada de Erápoles uma placa dizendo mais ou menos o seguinte: “Grápoles, um lugar de refrigério”; essa era a primeira influência geopolítica sobre Laodicéia.

A segunda ficava ao sul, uma outra cidade chamada Colossus, era conhecida pelas suas fontes de águas quentes, uma Caldas Novas aqui no Brasil. Era um local onde as pessoas tinham fontes naturais de águas quentes e se banhavam nessas fontes, crendo que essas águas quentes possuíam um poder curador. E pessoas com problemas de pele, de ossos, reumáticos, faziam daquelas fontes de águas quentes uma verdadeira terapia e ali permaneceram. Se olharmos esta expressão de Jesus, que vocês devem ser quentes ou frios e não mornos, na cabeça dos crentes em Laodicéia, as figuras de Erápoles e Colossus eram muito claras e patentes. Se olharmos para este texto numa visão histórica, a paráfrase que faríamos desse versículo seria assim: ‘Quem não és frio ou quente, ou seja, quem não possui a função de refrigério às vidas que os procuram como as águas frias de Erápoles, como também perdeste a função terapêutica de alívio aos aflitos à semelhança das águas quentes de Colossus, como sois mornos e águas mornas não possuem função alguma, estou a ponto de vomitar-te da minha boca’. Então esse texto não fala sobre uma escala de espiritualidade, mas sobre a funcionalidade da igreja e Jesus olha para Laodicéia e diz: vocês são disfuncionais, perderam a sua função e missão. É um texto missiológico, não devocional. Eu gostaria de, à luz desse texto, propor algumas verdades, quero crer serem verdades relevantes para sua vida, para minha vida e da igreja do Senhor Jesus.

Uma dessas verdades é que, no Reino de Deus, o caráter sempre precede a missão e tem a ver com esse poder de avaliação, porque qualquer um diria que todo o movimento missionário no mundo jamais começa a partir de um grande congresso, uma mobilização de massa, de um grande livro escrito ou um grande sermão pregado em uma igreja. A obra missionária mundial e os grandes movimentos de impacto e transformação social no mundo ocorrem a partir de um indivíduo, de um homem, uma mulher que, olhando para Deus, têm sua vida impactada por um desejo de ser fiel a Ele, de ser íntegro, justo e íntimo com Deus e, a partir de uma vida fiel, podemos ver que grandes movimentos começam a surgir, ou seja, missões e estação missionária, ministérios pastorais ou missionários nacionais ou transculturais, não podem ser definidos em termos de resultados, mas sim em fidelidade ao Senhor. O caráter precede a missão, o importante para avaliarmos o poder de uma igreja, se é potencialmente missionária, não é quanto dinheiro ela tem ou a profundidade da sua teologia, mas sim o caráter no coração de homens e mulheres de Deus, que estão à frente dessas igrejas.

Interessante que, no versículo 15, o texto começa a dizer o seguinte: “Conheço as tuas obras”, e o texto utiliza para obras a palavra “Erga” que vem de “Ergom”. E devemos entender a quais obras o Senhor se refere. Por que se Jesus quisesse se referir à vida pública, conhecida, poderia usar “Energuima”. Se ele quisesse se referir a vida comunitária, poderia usar “Ierguetel”, mas ele usou “erga” que se refere a vida diária, às coisas simples da vida. Em outras palavras, Jesus não está dizendo: ‘eu conheço suas grandes realizações, suas façanhas, aquele grande sermão que você pregou e mil pessoas se converteram’. Não é isso. Jesus está dizendo: ‘eu conheço a sua vida diária, sua intimidade, sua alma, eu conheço você, o que entra em sua mente, eu conheço seu caráter’, em outras palavras, Jesus não está dizendo que conhece o ministério amplo de Laodicéia, na verdade, eles foram desaprovados. Há uma diferença muito grande entre reputação e imagem, aquilo que você representa é caráter, aquilo que é verdade em seu coração.

William Davidson faz uma diferença muito oportuna entre reputação e caráter: ‘reputação é o que os homens pensam a seu respeito, mas caráter é verdadeiramente quem você é. Reputação é sua fotografia, mas caráter é sua fase. Reputação fará você rico ou pobre, caráter fará você feliz ou infeliz. Reputação é o que os homens dizem ao seu respeito no dia do seu funeral, e geralmente só falam coisas boas, independente de quem nós somos, mas caráter é o que os anjos falam de você perante o trono de Deus’. Isto é caráter, é a nossa verdade existencial, espiritual de vida na presença de Deus. É quem somos e Deus conhece verdadeiramente o nosso caráter. Uma das demonstrações bíblicas que encontramos a cerca de reputação e caráter, está registrado em Tiago 4.8, que diz que não devemos ser uma igreja com ânimo dobre. Sou filho de pastor, nasci em uma igreja literalmente falando (o meu quarto era uma classe de escola dominical). Fiquei incomodado, até a adolescência, com algumas palavras bíblicas meio complicadas para se entender, uma delas está em Tiago: ânimo dobre. O que quer dizer? E quando cheguei ao seminário, estudando o original, uma das primeiras coisas que fui buscar, é o significado para dobre; é uma palavra composta dipiseroi, em grego. Composta pela partícula di que significa dois, ou no caso duas, e pisiroi  é o plural de pisere, que significa alma. Então dobre significa duas almas.

A figura que Tiago faz é, portanto, uma figura monstruosa de um homem com um corpo e duas almas, ou seja, uma alma quer Deus, mas a outra quer o mundo. Uma alma prega contra o pecado, a outra o aninha em sua vida. Uma alma é cheia de teologia e convicção bíblica, mas a outra alma não usa nada disso em sua vida diária. Uma alma é cheia de um conceito profundo de entendimento daquilo que Deus quer, mas a outra alma não faz nada do que Deus deseja em sua própria vida. Então, o que Tiago nos diz é que devemos ser como homem com um corpo e uma só alma, que deseja Deus, santidade, serviços, uma pessoa que compreende que o caráter vai muito além da missão e, sobretudo, verdadeiramente precede a missão.

Queridos, quando eu falo a respeito de caráter e de vida aos pés do Senhor Jesus, eu me lembro de uma história que aconteceu conosco quando trabalhávamos com a tribo dos Konkombas, em Gana, noroeste da África. Eu me lembro que o primeiro convertido da tribo foi o feiticeiro, Deus derramou muita graça, o nome dele é Meba, e hoje ele é presbítero na primeira igreja plantada lá: a igreja em Conija; somos 19 igrejas, e uma pequena que não tem liderança própria, mas podemos pensar em 20 igrejas. Meba foi o primeiro convertido, ele era o feiticeiro de Koni, teve experiência com Deus e trouxe consigo todos seus filhos e também sua esposa. Mas havia uma segunda pessoa influente na aldeia em Koni: Quedi, este era um aprendiz de feiticeiro regional, não como Meba, feiticeiro local, da aldeia. Quedi estava sendo treinado como feiticeiro regional, alguém que iria invocar o espírito maior, dentre os 250 espíritos que eles conhecem nominalmente. Quedi seria a única pessoa que poderia invocar o “Grumadi” que é o espírito mais poderoso, na visão KonKomba, aquele que até pode matar. E Quedi vivia em Koni, ele tinha algum contato conosco. Nós orávamos, jejuávamos e tentávamos com todas as nossas forças pregar o evangelho ao Quedi. Porque pensávamos o seguinte: o feiticeiro Meba se converteu, agora o Quedi, aprendiz de feiticeiro, digamos assim, para toda aquela região, se ele também se converter, nós quebramos o círculo da feitiçaria, do animismo fetichista entre os Konkombas na região de Koni, que é uma região muito estratégica para a tribo Konkomba. E orávamos, trabalhávamos e eu preguei o evangelho ao Quedi inúmeras vezes. E preguei utilizando as chaves culturais, Matoti, a troca entre crianças quando duas famílias estão em conflito e entrega o seu filho em troca de outro filho que é recebido também, eu usei uma outra chave cultural, que é Cartimen, o ato de pintar os umbrais de uma porta com sangue de uma cabra sacrificada com a intenção de prevenir a entrada do Grumandi naquela palhoça, fiz uma ponte com o Antigo Testamento e nada disso funcionou. E nós orávamos e pregávamos; eu usei umas 14 ou 15 abordagens diferentes para pregar e comunicar o evangelho ao Quedi, mas nenhum efeito. Ele era um rapaz de 22 ou 23 anos nessa altura.

Ele conhecia todas as formas de invocação demoníaca ao Grumandi, já era um expert na arte de sacrifício, rituais e de cerimônias fetichistas, ele era procurado e temido pelas pessoas. Ninguém olhava o Quedi ou para ele, ninguém o fitava, nem poderia dar as costas ou ficar mais alto que ele, era uma pessoa temida apesar da sua pouca idade. E eu me lembro que no meio dessa oração, da expectativa de vê-lo convertido, ele nos contou depois como foi a sua conversão. Ele estava na roça plantando inhame (os Konkombas cultivam basicamente só isso), em uma região árida, com influência do sul do deserto do Saara, e Quedi estava cultivando o inhame, e sempre havia dois rapazes, filhos do chefe da aldeia de Koni, que ficavam ao lado do Quedi onde ele fosse, com a intenção deliberada de não deixá-lo se aproximar muito dos cristãos. E os dois guarda-costas, digamos assim, estavam com Quedi naquela plantação de inhame, num final de tarde, e passou uma moça crente filha do Meba, uma jovem, talvez naquela época uma adolescente, com 15 ou 16 anos de idade, e ela passou cantando uma música que nós cantamos até hoje lá na igreja, essa música diz: “Deus me libertou, e Jesus pode fazer a mesma coisa com você”.

Ela não sabia que Quedi estava ali, e ia para o rio buscar água, mas quando ela cantava, não era muito alto; Quedi nos contou que aquela palavra entrou no seu coração e a única frase, expressão, o único pensamento que ele tinha em sua mente naquele momento era o seguinte: “eu preciso de Deus” e ele tentava racionalizar, “mas eu sou feiticeiro”, e o Espírito Santo confirmava em seu coração: “eu preciso de Deus”. Ele tentava se auto convencer: “mas eu sou a pessoa mais importante do fetichismo aqui na região”. E o Espírito Santo convencia: “eu preciso de Deus”. Ele largou o seu roçado e saiu correndo em direção a uma árvore, onde estávamos reunidos conversando e discipulando algumas pessoas, e aqueles dois rapazes correram atrás do Quedi tentando segurá-lo, mas ele correu mais rápido e chegou ali chorando. Eu me lembro daquela cena, tomei um susto porque o Quedi, feiticeiro promissor em toda região, correndo em nossa direção, fiquei estático e ele chegou, colocou-se de joelhos quebrantado e gritou: “eu sei que preciso de Deus!”, e ali ele se converteu aos pés do Senhor Jesus. E aqueles dois rapazes correram, chegaram após ele e nós falamos: “Quedi se converteu, querem se converter também?” Os dois se entregaram a Jesus.

O Quedi é hoje um dos presbíteros e pregadores da igreja Konkomba. O que eu quero lhes dizer é que, na minha visão e percepção pessoal, a pessoa ideal para pregar o evangelho que fizesse a diferença na vida seria eu. Missionário pioneiro entre os konkomba, já havia traduzido parte do Novo Testamento para a tribo, plantado uma ou duas igrejas Koni, a igreja de Molan e muitas pessoas haviam se convertido até então somente comigo e Rossana, minha esposa, mas nem toda visão de um homem de Deus é, necessariamente, visão de Deus. Na visão dEle, a pessoa ideal para plantar uma igreja a partir do Quedi era uma menina adolescente, que ia tranqüilamente para o rio carregando uma bacia para buscar água e dizia: “Deus me libertou e pode fazer o mesmo com você”.     Queridos, o caráter precede a missão. O que faz diferença não é quanta Teologia ou conhecimento você tem, Deus pode usar esse conhecimento, mas Ele jamais usa uma pessoa que não tem o caráter de Jesus. Se nós queremos ser uma igreja missionária, pastores missionários, obreiros, crentes que fazem a vontade de Deus e cumprem a Sua visão, é necessário olharmos não só para o nosso potencial e serviço, aquilo que podemos produzir a partir da nossa capacidade humana, que é pouca e muito limitada. Devemos olhar para o nosso próprio caráter, como está nossa vida com Deus. É aí que começa missões.

A partir do coração que busca intensamente a Deus o caráter precede a missão. Neste texto há uma outra verdade que fala a respeito da obediência, que esta determina o avanço; quando pensamos no avançar da igreja, pensamos em elementos humanos. Jesus avalia sua igreja, não através de elementos humanos, se a sua catedral tem uma torre alta ou não, avalia a partir da santidade de vida que ele encontra no culto no meio dessa igreja. A obediência determina o avanço. Se olharmos para Apocalipse 3:17, veremos que Jesus afirmou que Laodicéia era uma igreja disfuncional e o motivo disso está no versículo 17: “Estou seco e abastado e não preciso de coisa alguma”, ou seja, o motivo da disfuncionalidade dessa igreja na Ásia era o pecado. E neste caso, ao meu ver, a soberba, eu estou rico, abastado e não preciso de ninguém, eu tenho o suficiente, não preciso nem de Deus, eu sei fazer. O pecado possui a habilidade de nos limitar, de nos incapacitar temporariamente. O pecado, na verdade, tem a capacidade de produzir um ministério estéril, uma igreja estéril, produzir um crente que tenha talvez muita reputação, uma imagem poderosa mas sem caráter. O pecado solapa aquilo que temos de precioso, que é a percepção da nossa missão na terra. Isto aconteceu com Laodicéia, eles se tornaram inúteis, não por causa da tentativa frustrada de terem em missiólogo no meio deles, de fazerem um grande congresso, ou uma consulta missionária, eles se tornaram inúteis porque abrigavam o pecado, a soberba em seus corações e, somente quando lidamos com ele e o tratamos como pecado, é que podemos avançar.

Quais são os desafios que temos perante nós quando tratamos desta missão e deste avanço da igreja? Um deles é o desafio étnico; há no mundo hoje 2.227 povos que desconhecem totalmente o evangelho de Jesus em suas vidas. Estes povos são visitados pela Word Mission International, e pela Vefe International, é um dos missiólogos renomados em nossos dias, Petek Jonhson; ele enumera esses 2.227 povos que desconhecem inteiramente o evangelho de Jesus, mas não apenas esses, há outros 4000 povos que possuem igreja, testemunhos, alguma conversão, mas que não possuem uma igreja forte suficiente para comunicar o evangelho ao restante daquela própria etnia; temos perante nós um desafio étnico. Dentre as 258 tribos indígenas brasileiras, eu falo isso com muita vergonha e constrangimento em meu coração, há hoje 103 tribos em nosso país, na nossa circunferência nacional, totalmente não alcançadas pelo evangelho de Jesus e sem presença missionária. E 40 destas tribos estão com as portas abertas para alguém que lhes fale de Jesus, mas não há. Estão na espera de uma igreja que, muitas vezes, nunca envia ou ora por um missionário; temos um desafio ético perante nós.

Temos também um desafio lingüístico; nós convivemos hoje com 6.528 línguas vivas, dentre essas, 336 em todo o mundo possuem a Bíblia completa; 928 possuem apenas o Novo Testamento, mas não de maneira completa. 918 possuem porções bíblicas, ou seja, a Bíblia está bem representada em 2.212 línguas em todo o mundo. Mas, segundo a Uigles tradutores da Bíblia, há ainda mais de 4.000 línguas em todo o mundo que não possuem sequer um versículo da Palavra de Deus traduzidos para o seu idioma. Segundo a ONU e, recentemente, a UNESCO, sabemos que há um bilhão e meio de pessoas no mundo que não sabe ler ou escrever, ou seja, se traduzíssemos a Bíblia para todas essas 4.000 línguas que ainda não a possuem, mesmo assim, um bilhão e meio de pessoas não poderão ler a Palavra de Deus traduzida. O evangelho ainda não chegou em muitos lugares.

Eu creio que o evangelho não chegou em muitos lugares não por falta de compreensão da extensão desta missão que Jesus nos confiou, mas sim pela nossa desobediência em cumpri-la. Eu acho que nenhuma igreja evangélica madura no mundo, pode se levantar hoje dizendo: ‘eu desconheço a missão’ ou, no Brasil: ‘desconheço que os indígenas precisam do evangelho’; o problema não é falta de conhecimento ou de missiologia, mas sim de obediência e de pessoas dispostas a cumprirem ao chamado do Senhor Jesus.

No dia 13 de agosto de 1727, um fato ocorreu na antiga Saxônia entre um grupo de Tchecos que ficaram conhecidos depois como Morávios ou Moravianos; nesse dia, depois de orações, buscando o avivamento de Deus, o Espírito Santo cai sobre eles e aquela igreja nasce na força do Espírito e tem ali um avivamento que iria durar mais de um século. E a igreja Moraviana, fruto de um avivamento, fruto de caráter, de santidade, de intimidade com Deus, começa então a enviar missionários e, ao longo de toda a sua existência de 20 anos de forte impulso missionário, eles enviam pouco mais de 2.600 missionários para todos os continentes conhecidos na época.       Notem que, segundo a Sepal, todas as denominações evangélicas brasileiras em nosso país hoje não têm mais de 2.200 missionários além fronteiras. A igreja Maroviana enviou sozinha mais de 2.600 missionários. E eles invadiram várias partes do mundo, chegaram até a África do Sul e, através de uma consulta antropológica da qual eu participei em Botsuana, foi descoberta uma tribo quase isolada em nossos dias, que alguns missionários ingleses chegaram para alcançá-la e descobriram que já eram crentes; quando foram perguntar quem levou o evangelho, eles apontaram para uma árvore que estava ali há muitos séculos: “nós não sabemos mais os seus nomes, nossos pais já eram crentes antes de nós e nossos avós antes de nossos pais”, e naquela árvore de século de existência descascada semi morta, em baixo relevo estava uma figura de um cordeirinho carregando uma cruz, o símbolo dos Moravianos. Eles passaram por aquele lugar, chegaram ali com ardor missionário.

Porém o que quero dizer a vocês, na verdade, não é sobre o que aconteceu com os moravianos durante o ápice missionário, mas depois que o este movimento começou a ficar enfraquecido, porque não havia missionários e nem mais dinheiro para enviá-los também. Então, o Conde de Van Desendorf, sai da sua aldeia onde estavam os moravianos, vai para uma viagem missionária e se encontra com dois esquimós que o desafiam: “Conde, nós também queremos ouvir de Jesus”. Ele então volta para seu vilarejo e, incomodado com esse desafio, vai dormir; naquela noite ele sonhou com Jesus que conversava com Desendorf: “Eu quero alcançar os esquimós e você vai enviar o oleiro” (oleiro era um homem de meia idade, crente pacato na igreja, solteiro, uma pessoa sem muito brilho ministerial até então). Desendorf chama o oleiro, que fazia vasos de barro naquele vilarejo e diz: “eu tenho um desafio a lhe fazer; nesta noite sonhei com Jesus e quero alcançar os esquimós, você é nosso missionário, mas antes que você responda positiva ou negativamente, quero lhe dizer que, se você aceitar, vai sozinho porque não temos mais ninguém para enviar contigo, vai sem dinheiro porque não temos como financiá-lo, você vai se auto-sustentando e, se aceitar, acho que você nunca mais vai voltar, porque nós não sabemos exatamente onde estão os esquimós”. Desafio missionário tremendo, você vai sozinho, sem dinheiro, sem sustento e sem volta.

E aquele oleiro então diz a Desendorf: “eu quero um tempo para orar, preciso de dois minutos”, ele curva sua cabeça e ora, depois levanta sua face, olha para o Conde e diz: “Se o senhor me conseguir um par de sandálias usadas, amanhã cedo eu irei”. Desendorf vai até sua casa, pega o par de sandálias usadas, coloca nos pés do oleiro que volta para sua casa; no outro dia pela manhã, Desendorf bate à porta do oleiro esperando uma resposta, mas a vizinha corre ao seu socorro dizendo: “Conde, o senhor chegou tarde demais, ainda era de madrugada quando o oleiro me confiou todos os seus bens e disse: ‘eu tenho uma missão que é importante demais e não pode esperar’ e partiu”. Nós não sabemos o nome dele, desse missionário anônimo, não sabemos os detalhes da sua missão, mas sabemos o resultado desta viagem, que foi entrega inteira e total aos pés do Senhor Jesus. Hoje mais de 50% de todos os esquimós da terra são convertidos a Jesus. Isto porque no século XVIII, um homem exigiu não mais que um par de sandálias usadas para ser fiel a Deus e cumprir Sua missão.

Vamos ser sinceros, nós temos muito mais que um par de sandálias usadas, não é verdade? Eu tenho muito mais do que isso, vocês também. Deus tem nos dado mais do que o trivial, básico, e do que nós pedimos; a igreja pede e Deus dá, queremos construir um templo e Deus abençoa, queremos pagar bem ao nosso pastor e Deus derrama graça, uma casa pastoral, um acampamento e Deus abençoa ainda mais. E nós pedimos bens próprios para a nossa vida, família, e para nossos filhos um futuro, uma aposentadoria, e Deus vai derramando graças e não há nada de errado nisso, mas nós temos bem mais que sandálias usadas e nós nunca partimos, nunca fazemos, realizamos a vontade do Senhor nas nossas vidas; apenas recebemos. Falta-nos obediência, porque ela determina o avanço.

Nós tratamos sobre dois conceitos bem definidos em Apocalipse capítulo 3: caráter e obediência; o terceiro encontramos no versículo 20. “Mas no Reino de Deus, nós devemos entender que o sacrifício prepara a terra para o plantio”. No versículo 20 encontramos o seguinte texto: “Eis que estou à porta e bato, se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo”.

Na verdade este é um convite à igreja, não há nenhum pecado creio eu, em usarmos este texto em cultos evangélicos, não é? Jesus está à porta do seu coração e bate. Entretanto, obviamente este é um texto de Jesus para igreja não para os incrédulos. Jesus está dizendo, estou à porta e bato, se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, eu vou entrar e vou cear. Eu conversei com um rabino alguns anos atrás, ele é PHD em história de Israel, e estávamos conversando sobre alguns conceitos vétero-testamentários, e me lembrei deste texto, eu tinha dúvida sobre a posição histórica e o valor sócio cultural de cear. Conversei com ele e lhe perguntei sobre isso, e ele disse: “Para o judeu abrir sua porta, sentar à mesa e cear significa intimidade, parceria, geralmente convidamos alguém para cear quando nós temos um negócio a ser fechado”. Essa é a mente do judeu, quando temos alguma coisa a ser realizada, um acordo a ser assinado, então nós ceamos juntos, ou seja, estamos marcando uma parceria. Eu quero crer que quando Jesus bate à porta da igreja, ela ouve a sua voz, e se a igreja abre a porta (parece-me textualmente que nem todos vão ouvir ou abrir), mas se a igreja faz isso e Jesus entra e ceia com ela, começamos a nos tornar parceiros de Jesus, na sua visão e na sua proposta de missão.

Isso me leva ao fato sobre não sermos parceiros da visão de Jesus, porque nós, verdadeiramente, não O conhecemos. Não somos parceiros da proposta de vida que Jesus tem para nós porque não temos intimidade com Ele, não ceamos com Jesus, nós não sentamos com Ele. Pensamos na nossa reputação e imagem, nos holofotes, nas nossas torres, catedrais, mas raramente nós pensamos em Jesus. Porque no dia em que o fizermos, e abrirmos a porta da nossa casa e cearmos com Ele, ouvirmos Jesus, tirarmos as nossas dúvidas, tivermos intimidade com Jesus, creio que vamos querer cumprir os desejos dEle. Quais são os desejos de Jesus?

Se você reler o evangelho de Marcos, vai encontrar vários desejos do Senhor Jesus. Posso pontuar e apontar pra você um deles: Jesus quer ser conhecido entre todos os povos, línguas, tribos e nações. Concorda comigo? Se nós cearmos com Jesus, vamos querer cumprir seus desejos de maneira apaixonada.

Eu falei que o sacrifício é necessário para o avanço; se nós olharmos em Atos 8.1, veremos a figura de uma igreja pintada por Lucas, inspirada por Deus, a primeira igreja em Jerusalém. Notem que era uma igreja cheia do Espírito Santo (já havia passado o Pentecoste), das doutrinas de Jesus, unânimes na doutrina dos apóstolos com muita comunhão e uma igreja que aguardava em oração, ciente, fiel a Deus. Essa é a figura antes de Atos 8 que encontramos. Essa igreja que fazia a vontade de Deus sofreu. Uma das coisas que precisamos aprender e ser relembrados a respeito da expansão da obra missionária no mundo hoje é: andar na visão de Deus não isenta o crente do sofrimento. Eu não quero ser pietista, mas talvez já sendo um pouco, acho que andar na visão de Deus até atrai novos sofrimentos. Essa igreja em Atos 8 estava começando a ser perseguida e a dispersar.

E Lucas, inspirado por Deus, escreve três versículos usando três palavras que saltam aos olhos, quando lemos no original. O versículo 1 diz: “Levantou-se naquele dia grande perseguição em Jerusalém”. A palavra, no grego, para perseguição é dioguimós, uma palavra que vem do Grego Antigo, usada por parte do parlamento grego, no Grego moderno e significa, literalmente, um ataque físico violento, visível a todos. Quando Lucas diz que essa igreja está sendo perseguida e usa diaguimós, ele quer dizer que ela está sofrendo, melancólica, angustiada, pessoas sendo mortas, acusadas, encarceradas, ou seja, um ataque físico que todos podiam ver.

No versículo 2 ele diz que alguns homens piedosos sepultaram Estevão e fizeram grande pranto sobre ele. A palavra pranto é cópeton, de Cópetoz, que significa literalmente bater no peito. A figura seria aquelas mulheres palestinas quando perdem marido ou filhos e saem enlouquecidas pelas ruas, rasgando as suas vestes, jogando terra para cima, chorando amargamente; essa é a figura de cópetoz, bater no peito é um ataque emocional, é a dor do coração, a alma aflita, fragilizada, é o coração que dispara, a mente inquieta, que você não consegue dormir, entra em depressão profunda, essa é a idéia de Cópetoz, uma igreja que não apenas estava sob ataque físico com diaguimós, perseguição, mas sob ataque emocional com Cópetoz.

O versículo 3 diz que Saulo assolava a igreja. A raiz do verbo assolar é Leimainor, significa literalmente solapar/sucumbir aquilo que você crê. Solapar sua crença, corromper a sua fé. É a mesma raiz e está ligada a João 10:10 que diz que o diabo veio somente para roubar, matar e destruir. Essa é a idéia de destruição, fazer morrer a fé. O que nós vemos é uma igreja cheia do Espírito Santo, que orava, uma igreja crente, aos pés de Jesus, que sofria perseguição, ataques físico, emocional e também espiritual, ou seja, fazer a vontade de Deus não isenta o crente do sofrimento e do sacrifício. Nós somos pastores, missionários, crentes em Jesus e fomos chamados para uma missão: realizar os desejos do Senhor Jesus. Um deles é fazê-lo conhecido até aos confins da Terra entre tribos, línguas, povos, nações, cidades, vilarejos, São Paulo, Campinas, entre os Estados, sertão brasileiro, tribos indígenas. É fazer Jesus conhecido. Creio que se não abrirmos nossa boca para falarmos de Jesus, não é por falta de missiologia ou conhecimento da missão, mas sim por falta de intimidade com Deus. Porque uma igreja avivada faz a obra de Jesus. Uma igreja apaixonada cumpre os desejos dEle, O faz conhecido até aos confins da Terra.

Em 1876, Dom Capricio, Bispo Católico Romano, ministrava em uma Convenção hospedado em Toronto, sul da Itália/Canadá. Ele disse: “A Missio Dei, pela sua supremacia bíblica, dispensa a missão da igreja. Nós somos apenas contempladores das maravilhas do Deus que faz, portanto, não precisamos fazer”. Para mim soa um crente pós-moderno falando a mesma coisa, ou seja: ‘Deus já fez o que tinha que fazer, cuido eu da minha vida e daquilo que me interessa, que saceia minha necessidade existencial e o resto é com Ele’. Ou seja, somos contempladores, nos reunimos uma vez por semana em uma igreja com púlpito onde o pastor tem uma bela retórica, o coral com uma toga lindíssima vai cantar, eu fecho os meus olhos, contemplo ao Senhor, vou para minha casa e durmo sossegado, vou ganhar a minha vida e saciar os desejos do meu coração. Isto é, no mínimo, anti-bíblico, carnal, isto chega a ser um movimento, ou uma engerência psicológica na Teologia humana, uma engerência demoníaca. Porque quando ele diz que somos apenas contempladores, quer dizer que Deus não chamou a igreja para sua missão. A igreja não possui uma missão, não é uma agência que está sob as expectativas da realização de Deus. Isso é mentira, não é bíblico. Entretanto, infelizmente, essa frase poderia estar na boca de muitos crentes, em nossos dias, quem sabe até pastores, missionários, teólogos. Porque queremos sempre nos incluir nas bênçãos bíblicas e nos excluir da missão que está exposta na Palavra de Deus.

Nós queremos receber de Deus mas não queremos serví-lo. Devemos ter em nossas vidas esses valores: caráter, obediência, sacrifício, valores que não eram cultivados em Laodicéia e o que Jesus falou a eles quando olhou não foi para o seu templo, conhecimento, mas sim para o coração. Jesus falou: Estou a ponto de vomitar-te da minha boca, vocês são disfuncionais, não servem, não tem serviço nem missão. Tenho muito tempo para pensar, estamos trabalhando hoje no Amazonas e há uma aldeia que entre ida e vinda, geralmente são 7 a 8 dias de canoa, então tenho muito tempo para pensar, meditar, ler, escrever, e uma das coisas que veio à minha mente nesta última viagem no Rio Alpes, noroeste da Amazonas, está em Apocalipse 3: a forma como Jesus avaliou a igreja em Laodicéia. Mas qual é a avaliação que Jesus faz da nossa igreja ou denominação hoje? Vamos estreitar um pouco a pergunta: qual a avaliação que Jesus faz da sua igreja local, do seu e do meu ministério? Vamos personificar um pouco mais: qual avaliação que Jesus faria da minha vida pessoal, da sua vida pessoal, como Jesus avalia você? O que ele falaria a nosso respeito?

Alguns homens ao longo da história entenderam que era preciso sacrifício, se necessário, para seguir a Deus. E eles fizeram diferença na terra. Em 1874, depois de ler a biografia de David Brainar, missionário entre os indígenas na América do Norte, um jovem chamado William Carey foi tocado por Deus, que colocou a paixão em seu coração para alcançar os indianos. Ele saiu do seu país com sua família, entrou no navio e, naquela viagem, sua esposa ficou grávida e deu à luz um menino (a viagem demorou mais de 12 meses). Carey chegou na Índia e começou a pregar e traduzir a Palavra de Deus. Ele fez rascunhos, inicialmente em 7 línguas; depois de anos de trabalho, um incêndio tomou conta de sua casa e ele perdeu tudo, não havia computador, internet, backup, não havia nada disso. Seus rascunhos estavam totalmente perdidos; ele foi interpelado por um crente indiano ao que lhe respondeu: “eu sirvo a um Deus e, se necessário for me sacrificar, eu continuarei fazendo a missão”. E, realizando a missão que Deus lhe confiou de traduzir Sua Palavra, ele continuou seu trabalho e no final de sua vida realizou essa proeza, que lingüisticamente falando, seria uma loucura, ninguém acreditava. Aquele homem sozinho traduziu o Novo Testamento completo ou porções dele para mais de 20 línguas.

Eu me encontrei recentemente com um amigo meu, missionário em Bangladesh, e lhe perguntei qual é a versão bíblica que eles usam lá, ao que me respondeu: “nós temos três versões, mas usamos a melhor que foi traduzida por William Carey”. Deus sacode o coração de um homem que tem caráter, obediência, que sacrifica e faz a obra dEle avançar na Terra. Mas não foi apenas Carey.

Em 1945, Deus levanta uma mulher, solteira, baixinha, franzina, lá na América do Norte; ela estava passando por uma praça em Nova Iorque, um pregador de rua falava de Jesus, ela se converteu, derramou-se na presença do Senhor e recebeu um chamado para fazer diferença na Terra. Ela disse: “eu quero ser missionária”. Seu nome é Sofia Muller, ela saiu da América do Norte em direção a Colômbia. Entrou no Rio Insana, um rio que começa na Colômbia, entra na selva amazônica brasileira e a percorre por mais de 1.000 km e Sofia Muller, sozinha há mais de 40 anos no ministério, serve ao Senhor Jesus na Amazônia Brasileira evangelizando duas tribos: Curipaco e Baniva. Encontrei-me com dois indígenas anciãos curipacos, crentes em Jesus, que tiveram o privilégio de remar a canoa para Sofia Muller há décadas atrás. Eles me falaram: “pastor, aquela mulher tinha o fogo do Espírito Santo, porque ela pregava de dia e à noite nos fazia viajar, era perigoso mas ela viajava a noite para não gastar tempo de dia, os índios dormindo e ela viajando, remávamos a canoa mas ela não dormia, usava o seu candeeiro, aquela lamparina, e durante a noite traduzia o Novo Testamento para a língua Curipaco”. Hoje eles têm o Novo Testamento completo na língua deles.

É interessante que ela plantou dezenas de igrejas ao longo do Rio Insana e uma vez por ano um milagre acontece: uma conferência em que eles reúnem, pelo menos, um representante de cada aldeia evangélica ao longo deste rio, entre as tribos Curipaco e Baniva. Tive o privilégio de participar de uma dessas conferências. Esses representantes saem das suas aldeias, dias de canoa, dias de caminhada na mata e, numa data pré-determinada, com uma boa bandeira, encontram-se numa grande clareira em algum lugar ou aldeia na mata, e ali dobram seus joelhos, fincam aquelas bandeiras no solo e oram a Deus, agradecendo porque um dia Ele chamou a sua filha Sofia Muller e ela respondeu sim. E começa aquela conferência missionária abençoadíssima que leva dias. Sofia Muller faleceu na América em 2000, com 93 anos de idade. Antes de falecer ela foi entrevistada por um jornalista evangélico; a primeira pergunta que ele lhe fez foi: “Como foi o seu chamado?” Ao que ela respondeu: “Eu jamais tive um chamado, li uma ordem e a obedeci”. Para ela, o que há na Palavra de Deus, já era forte o suficiente para estar mais de 40 anos de sua vida na selva sozinha, falando de Jesus àqueles que ainda não tinham ouvido.

Eu creio que o evangelho pode chegar rapidamente a tribos, línguas, povos e nações, porque creio num grande avivamento espiritual, que é possível. Eu creio que isso vai acontecer no momento em que uma igreja se quebrantar na presença de Jesus dizendo: “eu quero ter o caráter de Cristo”. No dia em que homens, mulheres, pastores e leigos puderem olhar para Deus falando: “eu quero obedecer”. No dia que até as crianças, os anciãos olharem para Jesus dizendo: “mesmo se for necessário o sacrifício, nós iremos pagar o preço, que é alto, mas nós vamos pagar esse preço porque Jesus vai ser glorificado através da minha vida”.